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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

AS FABULAS DE ESOPO



A Raposa e as Uvas
Uma Raposa, aproximando-se de uma parreira, viu que ela estava carregada de uvas maduras e apetitosas. Com água na boca, desejou-as comer e, para tanto, começou a fazer esforços para subir até elas. Porém, como estivessem as uvas muito altas e fosse muito difícil a subida, a Raposa tentou mas não conseguiu alcançá-las. Disse então: -Estas uvas estão muito azedas e podem desbotar os meus dentes; não quero colhê-las agora porque não gosto de uvas que não estão maduras. E dito isso, se foi.

O Galo e a Pérola

Um galo, que ciscava no terreiro para encontrar alimento, fossem migalhas, ou bichinhos para comer, acabou encontrando uma pérola preciosa. Após observar sua beleza por um instante, disse: - Ó linda e preciosa pedra, que reluz seja com o sol, seja com a lua, ainda que esteja num lugar sujo, se te encontrasse um humano, fosse ele um construtor de jóias, uma dama que gostasse de enfeites, ou mesmo um
mercenário, te recolherias com muita alegria, mas a mim de nada prestas pois que é mais importante uma migalha, um verme, ou um grão que sirvam para o sustento. Dito isto, a deixou e seguiu esgravatando para buscar conveniente mantimento.


O Lobo e o Cordeiro

Em um pequeno córrego, bebia água um Lobo esfomeado, quando chegou, mais abaixo da corrente de água um Cordeiro, que começou também a beber. O Lobo olhou com os olhos sanguinários e arreganhando os dentes disse: - Como ousas turvar a água onde bebemos? O Cordeiro respondeu com humildade: - Eu estou abaixo de onde bebes e não poderia sujar a tua água. O Lobo, mostrando-se mais raivoso tornou a falar: - Por isso, tens que praguejar? Há seis meses teu pai também me ofendeu! Respondeu o Cordeiro: - Creio que há um engano, porque eu nasci há apenas três meses, então não havia nascido e por isso não tenho culpa. O Lobo replicou: -Tens culpa pelo estrago que fizestes pastando em meu campo. Disse o Cordeiro: - Isso não parece possível, porque ainda não tenho dentes. O Lobo, sem mais razões, saltou sobre o Cordeiro, e o comeu.


O Lobo e as Ovelhas

Havia entre Lobos e as Ovelhas uma guerra antiga. As Ovelhas, ainda que fracas, ajudadas pelos rafeiros (cães de guarda), sempre levavam o melhor. Certa vez os Lobos pediram paz, oferecendo como penhor seus filhotes, desde que as Ovelhas entregassem os rafeiros. As Ovelhas, cansadas daquela guerra, aceitaram e as pazes foram feitas. Aconteceu que, estando presos, os filhos dos Lobos começaram a uivar continuamente. Seus pais, ouvindo isso, correram a acudir afirmando que a paz estava quebrada e tornaram a fazer a guerra. As Ovelhas bem que tentaram se defender, mas como sua principal força consistia nos cães de guarda (rafeiros), que haviam entregado aos Lobos, facilmente foram vencidas e devoradas.


O Rei dos Macacos e Dois Homens

Tendo perdido o caminho, dois companheiros que caminhavam, depois de terem andado muito, chegaram à terra dos Macacos. Foram, então, levados ante o rei, que vendo-os disse: - Em vossa terra, e dos lugares de onde vindes, o que dizem de mim e de meu reino? Um dos homens respondeu: - Dizem que sois um rei grandioso, de gente sábia e culta. O outro, que gostava da verdade, respondeu: - Toda vossa gente são macacos, portanto irracionais e, sendo assim, vós que sois o rei também é um macaco. Ouvindo isso, o rei mandou que o matassem e, ao primeiro, ordenou que o tratassem muito bem.


A Andorinha e as Outras Aves

Estavam os homens semeando algodão e linho. Observando-os, a Andorinha disse aos outros
pássaros: - Será para o nosso mal o que os homens estão plantando, pois dessas sementes nascerão algodão e linho, depois eles farão laços e redes para nos prenderem. Melhor seria destruirmos o que for nascendo para que estejamos seguras. As Outras Aves riram muito e não quiseram seguir o conselho. A Andorinha, vendo isso, fez as pazes com os homens e foi viver perto de suas casas. Depois de algum tempo, os homens fizeram laços, redes e instrumentos de caça, com os quais passaram a prender as Outras Aves, preservando a Andorinha.


O Rato e a Rã

Um Rato desejava atravessar um rio, mas o temia, pois não sabia nadar. Pediu ajuda a uma Rã que concordou desde que o Rato fosse amarrado a uma das patas. O Rato consentiu e encontrando um pedaço de fio, ligou uma de suas pernas à Rã. Assim que entraram no rio, porém, a Rã mergulhou, levando junto o Rato que sentia afogar-se. Por isso debatia-se com a Rã que, por sua vez, lutava para nadar; tudo isso causando muito cansaço e estardalhaços. Estavam nessa luta quando, por cima passava um Falcão que, percebendo o Rato sobre a água, baixou sobre ele e levou-o nas garras juntamente com a Rã que estava atada. Ainda no ar, os devorou.


O Ladrão e o Cão De Guarda

Um ladrão, desejando entrar à noite em uma casa para roubar, trazia consigo um pedaço de sanduiche para tentar distrair o Cão de Guarda que vigiava. Porém, assim que o Ladrão lançou o naco ao solo, o Cão disse: - Entendo que me dás este pão para que eu me cale e te deixe roubar a casa, não por algum carinho que me tenhas. Mas, já que é o dono da casa que me sustenta toda a vida, não vou deixar de latir enquanto não fores embora ou até que ele acorde e te venha enxotar. Não vou querer eu que este pedaço me custe morrer de fome toda a minha vida.


O Cachorro e a Ovelha

No inverno, o Cachorro cobrou da Ovelha certa quantidade de pão, que dizia haver lhe emprestado. A Ovelha negou ter recebido. O Cachorro reafirmou dizendo tratar-se de um depósito, o que a Ovelha negou novamente. O Cachorro denunciou-a ao Juiz. No julgamento, o Cachorro dispôs de três testemunhas a seu favor, as quais havia subornado: um Lobo, um Abutre e um Falcão. Estes juraram ver a Ovelha receber o pão que o Cachorro reclamava. Diante disso, o Juiz condenou a Ovelha, que sem ter com o que pagar, foi forçada a ser tosquiada para que o pelo fosse vendido como pagamento ao Cachorro. Pagou então a Ovelha pelo que não recebera e ainda ficou nua sofrendo frio.


O Cão e a Sombra

Um Cão levava na boca um pedaço de carne quando, ao passar por um riacho, viu no fundo da água a sombra da carne que parecia maior. Soltou a que levava nos dentes para tentar pegar a que via na água. O riacho levou para sua correnteza a verdadeira carne e a sombra, ficando o Cão sem uma nem outra.


A Mosca sobre a Carreta

Sobre uma carreta de mulas carregada pousou uma mosca. Estando ali, olhando a paisagem, achou-se altiva e que o carro ia a seu gosto. Começou então a falar para a Mula que andasse depressa, senão a castigaria picando onde lhe doesse. A Mula virou o rosto e disse: - Cala-te, desavergonhada, que não tenho medo de ti, mas sim do carreteiro porque ele leva na mão o chicote. Quanto a ti, somente com importunações pode cansar-me, mas sem me fazer outro mal.


O Cão e o Cartaz

Buscando o que comer, um Cão ia farejando até que encontrou um Cartaz com uma imagem de um homem, muito bem feita, de papelão e com cores muito vivas. Como estivesse o Cartaz caído no chão, o Cão começou a cheirar para ver se era um homem que dormia. Depois, empurrou com o focinho e viu que o Cartaz balançava, mas não se movia, quer para correr, quer para enxotá-lo. Então, o Cão disse: Por certo que a cabeça é bonita, mas não tem nenhum miolo.


O Leão, a Vaca, a Cabra e a Ovelha

Combinaram entre si, um Leão, uma Vaca, uma Cabra e uma Ovelha caçarem juntos e repartirem o ganho. Assim, caminharam lado a lado e encontraram um Veado. Correram e fizeram-lhe um cerco e, depois de muito esforço, o derrubaram e o mataram. Um tanto cansados, juntaram-se em torno da presa e a repartiram em quatro partes iguais. Feito isso, o Leão tomou uma parte e disse: - Esta parte é minha, conforme o combinado. A seguir, pegou outra parte e disse: - Esta outra me pertence porque sou o mais valente de todos. Puxou uma terceira parte e disse: -Esta também é para mim porque eu sou o rei dos animais e, advirto, quem na quarta parte mexer, considere-se por mim desafiado. Assim, levou todas as partes, ficando os parceiros se achando enganados ao mesmo tempo que frustrados, mas se conformaramporque eram desiguais em forças comparados ao Leão. █


O Homem e a Doninha

Um homem que caçava ratos, prendeu na armadilha uma Doninha. Ela, vendo-se em seu poder, lhe disse que a soltasse e alegou razões dizendo: - Eu não te faço nenhum mal. Ao contrário, te faço o bem, porque eu limpo a casa de ratos e bichos que te fazem mal. O Homem respondeu: - Se acaso fizesses isso pelo bem, devia eu te agradecer, mas o que fazes é pela tua fome. Sendo assim, nada te devo e, ademais, se te faltarem como alimento, virás comer o que é meu, ainda pior que os próprios ratos. Dessa maneira irei matá-la.


O Lobo e a Garça

Um Lobo estava comendo umas carnes quando um osso ficou atravessado em sua garganta, o que começava a sufocá-lo. Assim, pediu à Garça que com seu pescoço comprido lhe tirasse o osso do papo que seria recompensada. A Garça enfiou a cabeça na goela do Lobo e lhe tirou o osso. Estando livre o Lobo, a Garça lhe pediu o que antes ele lhe havia ofertado. O Lobo, porém, respondeu: - Eu já te dei um grande benefício, posto que enfiastes a tua cabeça dentro da minha boca, onde bastaria apertar-te os dentes para matar-te, mas saístes sem um arranhão. A Garça calou-se e ficou arrependida do que fizera, pensando: -Nunca mais, por gente má, colocarei a minha cabeça e vida em semelhante risco.


As Duas Cadelas

Uma Cadela, sentindo as dores de parir e não tendo lugar onde fazê-lo, pediu a outra Cadela que lhe emprestasse a sua cama, que era um palheiro, dizendo que assim que parisse iria embora com seus filhotes. A outra Cadela, com dó, cedeu seu lugar. Ocorre que, após ter parido, foi solicitada que fosse embora, porém a hóspede mostrou-lhe os dentes, impedindo-a de entrar e dizendo que estava de posse do lugar não sairia dali não fosse após uma grande briga e muitas dentadas.


O Homem e a Cobra

Durante um frio Inverno e debaixo de forte chuva, andava uma Cobra, fraca e encolhida. Um Homem de piedade a recolheu, agasalhou e alimentou enquanto houve frio. Chegado o Verão, a Cobra começou a estender-se e, então, o Homem disse-lhe que deveria seguir o caminho dela, mas a Cobra, relutante, levantou o pescoço para o morder. O Homem, por isso, lançou mão de um pau e investiu contra a Cobra. Após uma longa luta, a Cobra restou morta e o Homem muito mordido.


O Asno e o Leão

O Asno, simplório e ignóbil, encontrou-se com o Leão em um caminho e, presunçoso, atreveu-se dizendo: -Saia do meu caminho e vá embora. O Leão parou, verificando esse desatino e ousadia, mas prosseguiu seu caminho, dizendo: - Seria muito fácil matar e desfazer-me deste imbecil; porém não quero nem sujar meus dentes, nem minhas unhas, em carne tão bestial e fraca. Assim passou, sem fazer caso do Asno.


O Rato da Cidade e o Rato do Campo

Um Rato que morava na Cidade aceitou o convite para jantar de um Rato que vivia no Campo. Em sua cova, comeram raízes, ervas e frutos, produtos do Campo. Em dado momento, o Rato da Cidade disse: - Amigo, notei que vives na miséria, pelo que tenho dó. Por isso, convido-o a morar na Cidade, onde verás a riqueza e a fartura que lá desfrutamos. Combinaram e para lá foram, numa casa grande e rica. Estavam na despensa, saboreando comidas sofisticadas quando, de súbito, entra um fiscal com dois gatos. Na correria, fugiram os Ratos. O Rato da Cidade achou logo seu esconderijo enquanto o Rato do Campo, continuando a correr, disse: - Fiques com a tua fartura, que eu quero mesmo é viver comendo os frutos da terra sem medo de homens, gatos e ratoeiras. Lá no Campo tenho um prazer inigualável que é a liberdade com a tranqüilidade. █


A Águia e a Raposa

Uma Águia, tendo filhotes em uma árvore para alimentar, lançou-se sobre uma moita onde haviam dois raposinhos muito pequenos. A Raposa, vendo isso, correu implorando para a Águia que libertasse os filhotes. Mas a Águia, lá do alto, zombou das súplicas e disse que iria preparar a refeição em seu ninho. A Raposa, muito aflita, começou a cercar aquela árvore com muitas palhas, gravetos e ramos secos. Em seguida ateou fogo, de tal maneira que fez uma fogueira muito grande. A Águia, temerosa com a fumaceira e de que as labaredas atingisse seu ninho, soltou os filhotes da Raposa que correram para a mãe, ficando a ave um pouco chamuscada.


O Galo e a Raposa

Algumas galinhas com seu Galo, fugindo de uma Raposa, subiram em um pinheiro, onde a perseguidora não alcançava. A Raposa, ao pé da árvore, disse ao Galo: - Eu sei que, por hábito, foges de mim temendo por suas vidas mas, hoje, corria apenas para lhes dar boas notícias. Peço-lhes que desçam para nos confraternizamos, amigos. Foi proclamada hoje a paz
universal entre todas as feras e aves. Portanto, venham comigo celebrar. O Galo, entendendo a mentira, como quem não quer nada, disse: - Estas são mesmo novidades muito boas e alegres. Estaremos indo sim, amiga, ao seu encontro, assim que nossos amigos cães, que vejo daqui do alto se aproximando rapidamente numa grande matilha cheguem para todos juntos festejarmos. A Raposa, ouvindo isso, começou a correr dizendo: - Vou indo porque temo que eles ainda não saibam das novidades e nos ataquem. Assim, foi embora, ficando as galinhas seguras com seu Galo.


O Bezerro e o Lavrador

Um Lavrador que tinha um Bezerro forte e esperto, colocou-o sob uma canga, junto com um boi manso. Como o Bezerro insistisse em tentar livrar-se do trabalho, o Lavrador dava-lhe pancadas e relhos para o amansar. Ao boi manso, que observava aquilo, o Lavrador disse: - Não o coloquei aqui para que faças o arado, porque não és feito para isso, mas somente para amansar o pequeno, porque depois que ele se tornar Touro formado, não haverá quem o amanse.


O Lobo e o Cão

Em um caminho, encontraram-se um Lobo e um Cão. O Lobo, vendo a vitalidade do Cão, disse:- Tenho inveja de te ver tão gordo, com o pescoço grosso e o pelo reluzente. Digo isso porque ando sempre magro e arrepiado. O Cão respondeu: - Se fizeres o mesmo que eu, também engordarás. Estou em uma casa, onde me dão de comer e tratam-me bem, enquanto meu trabalho é somente latir quando percebo ladrões próximos da casa. Por isso, se queres, podes vir comigo. O Lobo, aceitando, passou a caminhar junto com o Cão, mas em dado momento perguntou: - O que é isso companheiro, que vejo? Teu pescoço está todo esfolado. O Cão respondeu: - Para que de dia eu não morda aos que entram na casa, sou preso com uma corda. De noite me soltam e assim fico até pela manhã, quando tornam a me prender. O Lobo, ouvindo isso, disse: - Vou dispensar tua fartura pra mim. A troco de não ser cativo, prefiro me empenhar pelo meu sustento e, se necessário, jejuar, desde que esteja livre. Dizendo isso, se foi. █


As Mãos, os Pés, o Estômago e o Corpo

Certo dia, as Mãos e os Pés, trocando idéias, começaram a se queixar das outras partes do corpo. No final da conversa, chegaram à conclusão que trabalhavam a vida inteira, custeando o Corpo e que tudo era mais em proveito do Estômago, que comia sem trabalho. Portanto, o Estômago que procurasse o seu sustento, porque as Mãos e os Pés não iriam mais dar-lhe de comer. O Estômago pediu muito, mas disseram que haviam tomado uma decisão. Assim, começaram a lhe negar comida, o que foi enfraquecendo-o e, com isso, o Corpo inteiro. Sentindo as Mãos e os Pés se enfraquecerem, começaram novamente a querer alimentar o Estômago, mas como a fraqueza fosse muita, nada lhes valeu, morrendo todos juntos.


A Águia e o Grou

A Águia, tendo capturado uma pequena Tartaruga, carregando-a pelo ar, dava-lhe insistentes bicada, mas não conseguia abatê-la porque estava recolhida em sua carapuça. Começava a ficar enraivecida quando aproximou-se da Águia um Grou que disse: - A caça que fizestes é decerto de boa qualidade, mas não poderás saboreá-la senão por manha. A Águia propôs então que se o Grou lhe ensinasse a manha, pelo que dividiria com ele a caça. O Grou aceitou e disse: -Subas até o mais alto das nuvens possível e de lá deixes cair a Tartaruga sobre alguma pedra grande, onde se partirá a carapuça e a carne ficará descoberta para nossa refeição. Assim fazendo, a Águia e o Grou comeram da boa carne.


A Raposa e o Corvo

Um Corvo roubou um queijo e com ele fugiu para o alto de uma árvore. Uma Raposa, ao vê-lo, desejou tomar posse do queijo para comer. Colocou-se ao pé da árvore e começou a louvar a beleza e a graça do Corvo, dizendo: - Com certeza és formoso, gentil e nenhum pássaro poderá ser comparado a ti desde que tu cantes. O Corvo, querendo mostrar-se, abriu o bico para tentar cantar, fazendo o queijo cair. A Raposa abocanhou o petisco e saiu correndo, ficando o Corvo, além de faminto, ciente de sua ignorância.


O Leão e Outros Animais

Estando um Leão, já velho e doente, veio um Javali, lembrando-lhe ter sido maltratado por ele noutro tempo, deu-lhe uma forte trombada e passou; a seguir veio um Touro e chifrou-o. Dessa forma, muitos outros Animais, dizendo vingança, o maltrataram. Afinal, veio um Asno e deu-lhe dois coices, com o que lhe derrubou com a face por terra. O Leão, chorando, disse: - Tempo se foi em que todos esses, só de um rugido meu tremiam, não havendo então nenhum tão forte, que não fugisse ao me ver. Agora que me vêem fraco, todos arranjam pretexto para se vingarem, não havendo nenhum que a isso não se atreva.


O Parto da Montanha

Em certo tempo, começou uma Montanha a dar urros e inchar, dizendo que iria parir. As pessoas ficaram cheias de temor, receosas de que algum monstro nascesse e viesse a destruir o mundo. Chegada a época do parto, estando todos reunidos em torno e em suspense, pariu a Montanha um Rato, transformando em riso o que antes era medo.


O Galgo Velho e seu Dono

Um Galgo, velho cão que havia durante muitos anos caçado grande quantidade de lebres para seu Dono, já cansado da idade, durante uma caçada, deixou escapar de sua boca, pela ausência de dentes, uma lebre que havia capturado. Seu Dono, zangado, o açoitou cruelmente e o lançou para longe, como se fosse coisa que nada valia. Disse então o Galgo velho : - Deveria o senhor lembrar-te de como te servi bem enquanto era moço, de quantas lebres já cacei, e quanto me estimavas; agora que sou velho e estou no osso, somente porque uma me fugiu, me bates e me jogas fora. Deverias relevar essa falta e pagar-me muito bem pelo muito que te tenho servido.


As Lebres e as Rãs

As Lebres, cansadas de correrem dos galgos e de serem assustadas pelos animais, se reuniram e concordaram, para não terem mais angústias, se matarem afogadas em um rio. Correram, então, em direção à água, mas, chegando à borda, viram muitas Rãs fugirem com medo e saltarem no rio. As Lebres, observando o pavor das Rãs, pararam e disseram: -Estas Rãs vivem com medo de todos e também de nós, por isso devemos suportar a vida, já que há muitos outros mais perseguidos e apavorados.


O Lobo e o Cabrito

Uma cabra, indo pastar no campo, deixou o filhote em casa e orientou-o dizendo que não abrisse nem ao urso, nem ao Lobo, porque morreria. Assim que ela saiu, veio um Lobo que, fingindo a voz da cabra, começou a falar carinhosamente, dizendo para que lhe abrisse porque era a sua mãe. Ouvindo isso, o Cabrito chegou até a porta e olhou por uma fenda vendo que era o Lobo. Sem responder, recolheu-se em casa. O Lobo, então, foi embora, ficando o Cabrito salvo.


O Cervo, o Lobo e a Ovelha

Um Cervo, acompanhado de um Lobo, bateu à porta da Ovelha cobrando falsamente uma certa quantidade de trigo que inventava haver lhe emprestado. A Ovelha pensou em negar-lhe, denunciando a falsidade, mas ficou com receio devido à presença do Lobo. Assim, com dissimulação, lhe disse: - Peço-te, por Deus, que esperes alguns dias e então verificaremos nossas contas e eu te pagarei o quanto te dever. O Cervo foi embora contente. Porém, passado um tempo, se encontraram sem que o Lobo estivesse
presente. A Ovelha, nessa ocasião, rejeitou a cobrança dizendo que não devia trigo algum e que, portanto, nada lhe pagaria.


A Gralha e os Pavões

Uma Gralha, pediu emprestadas algumas penas dos Pavões e passou a desprezar as outras gralhas, andando apenas junto com os Pavões. Depois de um tempo, os Pavões pediram suas penas de volta, mas como estivessem enfiadas no couro da Gralha, bicaram-na até arrancá-las, fazendo com que a Gralha ficasse machucada e sem as suas próprias penas. Nesse estado, buscou as outras gralhas, ainda que com temor e vergonha; elas lhe disseram: - De nada te valeu rejeitares a tua natureza, querendo ser o que não eras. Agora aqui estás, pelada, ferida e envergonhada.


A Rã e o Touro

Um Touro, passeando na beirada do rio, por acidente pisou numa ninhada de pequenas rãs esmagando uma delas, ferindo-a gravemente. A Rã, mãe da ninhada, ao dar pela falta de um dos filhotes, perguntou aos outros o que acontecera. Eles procuraram descrever o ocorrido, dizendo um deles: - Há poucos minutos uma besta enorme pisou na nossa irmã. Outro filhote disse: - Era mesmo enorme e tinha quatro patas muito grandes. Um outro disse: - Era uma besta enorme, tinha mesmo quatro patas muito grandes que tinham uma rachadura. A Rã mãe começou a comer e inchar-se com o vento, perguntando aos filhotes se era já tão grande como diziam, ao que respondiam que não. A Rã voltou a colocar mais força para inchar ao que os filhotes disseram que faltava muito para igualar-se ao Touro. Tanto inchou a Rã que veio a arrebentar-se. Um besouro, que a tudo assistia, pensou: - É verdade que, na maioria das vezes, as coisas insignificantes desviam nossa atenção do verdadeiro problema. █


O Cavalo e o Leão

Vendo um Cavalo pastando, o Leão pensou numa maneira de atacá-lo para o comer. Resolveu chegar com palavras amigas e disse que era médico e que poderia examinar o Cavalo para, se necessário, cura-lo. O Cavalo, entendendo a situação, disse: - Na verdade amigo, vens em boa hora, já que tenho nesta pata uma dor que está me maltratando. O Leão aproximou-se para ver o pé, no que o Cavalo o levantou e acertou-lhe o queixo, fazendo com que tonteasse. Quando deu por si o Leão, viu que o Cavalo já ia longe.


O Cavalo e o Asno

Um Cavalo, com os arreios enfeitados de seda e ouro de muito preço, seguia por um caminho levando seu dono, quando encontrou um Asno carregado, pelo que, com muita soberba disse: - Animal inconveniente; porque não me dás lugar e te desvias para que eu passe? O pobre Asno, calou-se e suportou a ofensa. Mais alguns metros, o Cavalo torceu uma pata e começou a mancar. Seu dono, então, retirou-lhe os enfeites e colocou-o para ser animal de carga. Algum tempo depois, o Asno vindo pelo mesmo caminho encontrou o Cavalo carregado de esterco e disse-lhe: -Onde vai, irmão, a tua soberba? Por que não me mandas agora que eu arrede como fazias em outra época?


As Árvores e o Machado

Um Machado de aço havia sido forjado e estava sem o cabo, pelo que não conseguia cortar. Foi então até o bosque e pediu às Árvores que uma delas lhe dessem um cabo. As Árvores mais encorpadas se negaram a fornecer o material e mandaram à Oliveira que era mais franzina, a fazer esse papel. Assim que ficou completo, um Homem pegou o Machado e começou a fazer madeira e, com isso, a destruir todo o arvoredo. Comentou então o Carvalho com o Freixo: - É nossa a responsabilidade por esse mal, porque entregamos nossa irmã mais fraca ao inimigo.


O Rato e a Doninha

Uma Doninha, já velha e sem forças para caçar, usava de uma artimanha: enfarinhava-se toda e se deitava quieta num canto da casa. Assim, quando alguns ratos se aproximavam para comer a farinha ela os comia. Certa feita, um Rato experiente, que já havia escapado de muitas armadilhas, viu aquilo, colocou-se longe e disse: - Por mais artes que uses, não me pegarás. Tu enganas a esse pequenos, mas eu, conheço-te bem e não me aproximarei de ti. E dizendo isso, foi-se embora.


O Asno e a Cachorrinha

Um Asno, que vivia livre pastando diante da casa, observou que quando seu dono chegava, a Cachorrinha ia ao encontro dele abanando o rabo, pulava em seu colo, procurando lambê-lo pelo que, em seguida, seu dono brincava com ela, a afagava e depois lhe dava de comer. Com inveja, pensou então que se fizesse o mesmo, receberia mais carinhos, já que era maior que a Cachorrinha. Imaginando isso, no dia seguinte, surgindo seu dono, o Asno correu de encontro ao homem e, enquanto pulava buscando
colocar suas patas dianteiras sobre os ombros dele, procurava lambê-lo. Espantado com aquilo, o dono gritou chamando os criados e mandou surrar o Asno para depois mantê-lo trancado na estrebaria.


O Leão e o Rato

Estando o Leão dormindo, alguns Ratos brincavam em torno dele. Em dado momento, pularam em cima, acordando-o. O Leão pegou um deles com a intenção de matá-lo, mas como o Rato pedia insistentemente, acabou soltando-o. Passado pouco tempo, o Leão caiu em uma rede que os caçadores haviam armado, ficando preso apesar de suas forças. O Rato, sabendo do ocorrido, foi até a armadilha e com muito empenho começou a roer as cordas, até que, rompendo a armadilha, o Leão ficou livre, como recompensa pela misericórdia que tivera.


A Porca e a Loba

Estava uma Porca com dores de parir, quando uma Loba faminta aproximou-se dizendo que tinha dó de a ver desamparada e que estava disposta a servir-lhe de parteira. A Porca, percebendo que a Loba queria mesmo era comer seus filhotes, disfarçando disse que não conseguiria parir na presença da Loba porque era muito envergonhada e que, depois que os filhotes nascessem, um deles seria até afilhado dela. Enquanto a Loba se afastava do lugar para um lado, a Porca saiu para o outro lado buscando um lugar seguro.


O Velho e a Mosca

Diante de um calor ardente, um Velho calvo, com a cabeça descoberta, procurava se esconder à sombra enquanto uma Mosca insistentemente procurava picar-lhe a calva. O Velho procurava abater-lhe com as mãos, mas ela fugia depressa, fazendo com que ele desse em si mesmo grandes palmadas. A Mosca, gostando daquilo, ria a valer. Disse então o Velho:-Podes rir quantas vezes eu der em mim, que isso não me mata, mas se uma só vez eu te acertar, morrerás, pagando pelo antes e o agora.


O Pinheiro e o Coqueiro

O Pinheiro, alto e pomposo, aconselhava o Coqueiro, que se curvava facilmente, que se mantivesse altivo. Respondeu o Coqueiro: - Tu podes resistir, mas não me sinto forte o bastante. Em seguida, veio um pé de vento muito bravo que arrancou o Pinheiro com raízes e tudo. O Coqueiro porém, dobrando-se, ficou em pé.


A Formiga e a Cigarra

No Inverno, a Formiga tirava os grãos de trigo fora de sua cova para os secar, quando surgiu a Cigarra que implorava que repartisse aquela comida com ela, porque temia morrer de fome. A Formiga perguntou a ela o que havia feito durante a Primavera e o Verão, já que não guardara alimento para se manter. A Cigarra respondeu: - A Primavera e o Verão gastei cantando e brincando pelos campos. A Formiga então, continuando a recolher seu trigo, lhe disse: -Companheira, se aqueles seis meses gastaste em cantar e bailar, como se fosse comida saborosa e a seu gosto, que agora cante e dance.


O Cervo e o Leão

Bebia um Cervo em um riacho quando viu seu reflexo na água. Observou suas pernas finas e achou-as muito feias, enquanto que considerou a galhada de seus chifres muito bonita e formosa. Quando saía dali, surgiu um Leão que começou a persegui-lo. Com os pés, que havia desprezado, ganhava velocidade e com isso distância de seu perseguidor. Com os chifres, entretanto, se enroscava nos ramos das árvores, o que diminuía sua vantagem. Enquanto corria, pensava: -Como fui bobo, desprezando o que me é mais importante e elogiando o que pra mim tem menos valor.


Os Carneiros e o Açougueiro

Alguns Carneiros estavam juntos num redil quanto entrou um Açougueiro. Permaneceram quietos e nem fizeram caso disso. O Açougueiro pegou um deles e o matou. Nem vendo o sangue daquele temeram os outros. Assim foi em seguida, matando o Açougueiro um a um até que o último, vendo-se nas mãos dele, disse: - Com razão devemos sofrer, pois vendo aquilo que seria mal para todos não quisemos entender. No princípio, quando éramos muitos, mesmo que fosse com cabeçadas, poderíamos nos defender e não o fizemos. Agora, pensando nisso, estou só e não posso
me preservar, dessa maneira acabamos todos.


O Lobo e o Asno Doente

O Asno estava muito indisposto. Sabendo disso, o Lobo foi visitá-lo, fazendo-se de muito amigo. Chegando, tomou o pulso do Asno, correu a mão pelo rosto e disse que desejava curá-lo. O Asno, percebendo as intenções do Lobo, e querendo vê-lo distante, observou o Lobo que naquele momento lhe apalpava e perguntava onde lhe doía, disse: - Onde quer que me ponhas mão, logo ali me dói; portanto peço-te que te vás, porque assim que tu fores, sararei logo.


A Raposa e o Leão

Fingindo-se enfermo, o Leão passou a receber visita de outros animais, os quais entravam na cova e o Leão os comia um a um. Por fim, chegou à porta da cova a Raposa, que desconfiada, perguntou-lhe de longe como estava. O Leão respondendo perguntou-lhe porque não entrava para vê-lo. Respondeu a Raposa: -Me parece que a tua casa está cheia, já que vi muitas pegadas de animais entrando e nenhuma de algum que tenha saído. Por isso, vou indo.


O Carneiro Grande e os Carneiros Jovens

Andavam passeando três Carneiros Jovens e um Carneiro maior. De repente, o mais velho saiucorrendo em fuga. Os outros, ficaram parados e rindo da disparada do experiente Carneiro, o qual ao longe,vendo-os zombar, disse: - Estão loucos e ignorantes,porque vem vindo o açougueiro que sempre mata primeiro os maiores. Por isso fujo, mas quando ele se aproximar, com certeza matará os que estiverem mais perto.


O Leão e o Homem

O Homem e o Leão discutiam sobre qual dos dois era mais valente. O Homem, para provar que tinha razão, levou-o até a uma praça onde havia uma escultura de um homem estrangulando um leão e mostrou-lhe. O Leão, rindo, disse: - Se os leões soubessem esculpir haveriam muito mais representações de leões estraçalhando homens.


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Adaptação de Joseph Shafan, Copyright © 2008 A.José C.Coelho, Baseado na edição em língua portuguesa: "Fabulas de Esopo - com applicações moraes a cada fabula" - 1848 - Paris, Typographia de Pillet Fils Ainé [domínio público em http://pt.wikisource.org/] shafan@uol.com.br , http://www.recantodasletras.com.br/autores/shafan. 2008

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