<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234</id><updated>2012-02-16T05:40:14.987-08:00</updated><category term='julio cortazar'/><category term='TEXTO COMPLETO'/><category term='A METAMORFOSE'/><category term='FRANZ KAFKA'/><category term='TEXTO INTEGRAL'/><category term='realismo fantastico'/><category term='o perseguidor'/><title type='text'>CONTOS CITADOS - Oficina de Contos -</title><subtitle type='html'>pararaiodeloucos.blogspot.com</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contoscitados.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>?                      ?</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09677894121972171715</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234.post-2054443210296882391</id><published>2010-02-01T04:32:00.000-08:00</published><updated>2010-02-01T04:35:53.950-08:00</updated><title type='text'>CARTA AO PAI - FRANZ KAFKA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;CARTA AO PAI&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Franz Kafka&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883 na cidade de Praga, Boêmia (hoje Tchescolováquia), então pertencente ao império Austro-Húngaro. Era o filho mais velho de Herrmann Kafka; comerciante judeu, e de sua esposa Julie, nascida Löwy. Fez os seus estudos naquela Capital, primeiro no ginásio alemão, mais tarde na velha Universidade, onde se formou em Direito em 1906. Trabalhou como advogado a princípio na companhia particular "Assicurazioni Generali" e depois no semi-estatal Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho. Duas vezes noivo de uma mesma mulher - Felice Bauer - não se casou, nem com ela, nem com as outras figuras femininas que marcaram sua vida, como Milena Jesenská, Julie Wohryzek e Dora Diamant. Em 1917; aos 34 anos de idade, sofreu a primeira hemoptise de uma tuberculose pulmonar que deveria matá-lo 7 anos mais tarde. Alternando temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático, nunca deixou de escrever ("Tudo o que não é literatura me aborrece"), embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida; pedido ao amigo Max Brod que queimasse os seus escritos - no que evidentemente não foi atendido. Viveu praticamente a vida inteira em Praga, exceção feita ao período final (novembro de 1923 a março de 1924), passado em Berlim, onde ficou longe da presença esmagadora do pai, que não reconhecia a legitimidade da sua carreira de escritor. A maior parte de sua obra - contos, novelas, romances, cartas e diários, todos escritos em alemão - foi publicado postumamente. Falecido no sanatório de Kierling, perto de Viena, Áustria, no dia 3 de junho de 1924, um mês antes de completar 41 anos de idade. Franz Kafka está enterrado no cemitério judaico de Praga. Quase desconhecido em vida, o autor de O Processo, O Castelo, A Metamorfose e outras obras-primas da prosa universal, é considerado hoje - ao lado de Proust e Joyce - um dos maiores escritores do século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querido Pai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas conseqüências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.&lt;br /&gt;Para você a questão sempre se apresentou em termos muito simples, pelo menos considerando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente, na de muitos outros. Para você as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhou duro a vida toda, sacrificou tudo pelos filhos, especialmente por mim, e graças a isso eu vivi "à larga", desfrutei de inteira liberdade para estudar o que queria, não precisei ter qualquer preocupação com o meu sustento e portanto nenhuma preocupação; em troca você não exigiu gratidão - você conhece a "gratidão dos filhos" - mas pelo menos alguma coisa de volta, algum sinal de simpatia; ao invés disse sempre me escondi de você, no meu quarto, com meus livros, com amigos malucos, com idéias extravagantes, nunca falei abertamente com você, no templo não ficava a seu lado, nunca o visitei em Franzensbadi, aliás nunca tive sentido de família, não dei atenção à loja nem aos seus outros negócios, a fábrica eu deixei nas suas costas e depois o abandonei, apoiei a obstinação de Ottlaii e, se por um lado não movo um dedo por você (nem uma entrada de teatro eu lhe trago), pelos amigos eu faço tudo. Se você fizesse um resumo do que pensa de mim, o resultado seria que na verdade não me censura de nada abertamente indecoroso ou mau (exceto talvez meu último projeto de casamento), mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E de fato você me recrimina por isso como se fosse culpa minha, como se por acaso eu tivesse podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outra direção, ao passo que você não tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido bom demais para mim.&lt;br /&gt;Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida - para tanto nós dois estamos velhos demais - mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.&lt;br /&gt;Curiosamente você tem alguma intuição daquilo que eu quero dizer. Assim, por exemplo, me disse há pouco tempo: "Eu sempre gostei de você, embora na aparência não tenha sido como costumam ser os outros pais, justamente porque não sei fingir como eles". Ora, no que me diz respeito, pai, nunca duvidei da sua bondade, mas considero incorreta essa observação. Você não sabe fingir, é verdade, mas querer afirmar só por esse motivo que os outros pais fingem, é ou mera mania de ter razão e não se discute mais, ou então - como de fato acho - a expressão velada de que as coisas entre nós não vão bem e de que você tem a ver com isso, mas sem culpa. Se realmente pensa assim, estão estamos de acordo.&lt;br /&gt;Naturalmente não digo que me tornei o que sou só por influência sua. Seria muito exagerado (e até me inclino a esse exagero). E bem possível que, mesmo que tivesse crescido totalmente livre da sua influência, eu não pudesse me tornar um ser humano na medida do seu coração. Provavelmente seria um homem sem vigor, medroso, hesitante, inquieto, nem Robert Kafka nem Karl Hermanniii, mas completamente diferente do que sou na realidade - e teríamos podido nos tolerar um ao outro de uma forma magnífica. Eu teria sido feliz por tê-lo como amigo, chefe, tio, avô, até mesmo (embora mais hesitante) como sogro. Mas justo como pai você era forte demais para mim, principalmente porque meus irmãos morreram pequenos, minhas irmãs só vieram muito depois e eu tive, portanto, de suportar inteiramente só o primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais.&lt;br /&gt;Compare-nos um com o outro: eu, para expressá-lo bem abreviadamente, um Löwy com certo fundo Kafka, mas que não é acionado pela vontade de viver, fazer negócios e conquistar dos Kafka, e sim por um aguilhão dos Löwy, que age mais secreto, mais tímido, numa outra direção, e muitas vezes cessa por completo. Você, ao contrário, um verdadeiro Kafka na força, saúde, apetite, sonoridade de voz, dom de falar, auto-satisfação, superioridade diante do mundo, perseverança, presença de espírito, conhecimento dos homens, certa generosidade - naturalmente com todos os defeitos e fraquezas que fazem parte dessas qualidades e para as quais o precipitam seu temperamento e por vezes sua cólera. Talvez você não seja totalmente um Kafka na sua visão geral do mundo, até o ponto em que posso compará-lo com tio Philipp, Ludwig, Heinrichiv. Isso é curioso, aqui também não vejo muito claro. Todos eles eram sem dúvida mais alegres, mais dispostos, mais desenvoltos, mais despreocupados, menos severos que você. (Nisto, aliás, herdei muito de você e administrei bem demais a herança, sem no entanto ter no meu ser os contrapesos necessários, como você tem). Por outro lado, porém, você nesse sentido atravessou épocas diferentes, talvez fosse mais alegre antes que os filhos - eu em particular - o decepcionassem e oprimissem em casa (se vinham estranhos, você era outro) e talvez agora também tenha ficado de novo mais alegre, uma vez que os netos e o genro lhe devolvem algo daquele calor que os filhos não lhe puderam dar, a não ser talvez Valliv. Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular antecipadamente como eu, a criança que se desenvolvia devagar, e você o homem feito, se comportariam um com o outro, poderia supor que você simplesmente me esmagaria sob os pés e que não sobraria nada de mim. Ora, isso não aconteceu - o que é vivo não comporta cálculo - mas talvez tenha acontecido algo pior. Aqui, contudo, peço-lhe encarecidamente que não se esqueça de que nem de longe acredito numa culpa da sua parte. Você influiu sobre mim como tinha de influir, só que precisa deixar de considerar como uma maldade especial da minha parte o fato de eu ter sucumbido a essa influência.&lt;br /&gt;Eu era uma criança medrosa; é claro que apesar disso também era teimoso como o são as crianças; certamente também minha mãe me mimou, mas não posso crer que fosse um menino difícil de lidar, nem que uma palavra amável, um silencioso levar pela mão, um olhar bondoso não pudessem conseguir de mim tudo o que se quisesse. Ora, no fundo você é um homem bom e brando (o que se segue não vai contradizer isso, estou falando apenas da aparência na qual você influenciava o menino), mas nem toda criança tem a resistência e o destemor de ficar procurando até chegar à bondade. Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia, ruído e cólera, e neste caso isso lhe parecia, além do mais, muito adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso.&lt;br /&gt;Naturalmente, hoje não posso descrever sem mediações seus métodos pedagógicos nos primeiros anos, mas posso talvez imaginá-los por dedução dos anos posteriores e a partir da maneira como você trata Félixvi. Neste caso entra em consideração, como agravante, o fato de que naquele tempo você era mais jovem, portanto mais disposto, mais genuíno, mais despreocupado do que hoje, e de que, além disso, inteiramente ligado aos negócios, mal podia se mostrar uma vez ao dia para mim e por isso a impressão que me causava era mais profunda ainda, tanto que jamais se banalizou em hábito.&lt;br /&gt;De imediato eu só me recordo de um incidente dos primeiros anos. Talvez você também se lembre dele. Uma noite eu choramingava sem parar pedindo água, com certeza não de sede, mas provavelmente em parte para aborrecer, em parte para me distrair. Depois que algumas ameaças severas não haviam adiantado, você me tirou da cama, me levou para a pawlatschevii e me deixou ali sozinho, por um momento, de camisola de dormir, diante da porta fechada. Não quero dizer que isso não estava certo, talvez então não fosse realmente possível conseguir o sossego noturno de outra maneira; mas quero caracterizar com isso seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado. Segundo a minha índole, nunca pude relacionar direito a naturalidade daquele ato inconseqüente de pedir água, com o terror extraordinário de ser arrastado para fora. Anos depois eu ainda sofria com a torturante idéia de que o homem gigantesco, meu pai, a última instância, podia vir quase sem motivo me tirar da cama à noite para me levar à pawlatsche e de que, portanto, eu era para ele um nada dessa espécie.&lt;br /&gt;Na época isso foi só um pequeno começo, mas esse sentimento de nulidade que freqüentemente me domina (aliás, visto de outro ângulo, um sentimento nobre e fecundo) deriva por caminhos complexos da sua influência. Eu teria precisado de um pouco de estímulo, de um pouco de amabilidade, de um pouco de abertura para o meu caminho, mas ao invés disso você o obstruiu, certamente com a boa intenção de que eu devia seguir outro. Mas para isso eu não tinha condições. Você me estimulava, por exemplo, quando eu batia continência e marchava direito, no entanto eu não era um futuro soldado; ou me estimulava quando eu comia vigorosamente e além disso conseguia beber cerveja; ou quando sabia repetir canções que não compreendia, ou arremedar suas expressões prediletas; nada disso, entretanto, fazia parte do meu futuro. E é significativo que até hoje você si me encoraje de fato naquilo que o afeta pessoalmente, quando se trata do seu amor-próprio, que eu firo (por exemplo, com o meu projeto de casamento) ou que é ferido em mim (quando, por exemplo, Pepaviii me insulta). Então sou estimulado, lembrado do meu valor, remetido às partilhas que tenho o direito de fazer, e Pepa é inteiramente condenado. Mas deixando de lado o fato de que hoje, na minha idade, já estou quase inacessível ao encorajamento, no que iria ele me ajudar, se só se manifesta onde em primeira linha não se trata de mim?&lt;br /&gt;Era então, em tudo e por tudo, que eu teria precisado de estímulo. Já estava esmagado pela simples materialidade do seu corpo. Lembro-me por exemplo de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, você forte, grande, largo. Já na cabine me sentia miserável e na realidade não só diante de você, mas do mundo inteiro, pois para mim você era a medida de todas as coisas. Mas quando saíamos da cabine diante das pessoas, eu na sua mão, um pequeno esqueleto, inseguro, descalço sobre as pranchas de madeira, com medo da água, incapaz de imitar seus movimentos para nadar, que com boa intenção, mas de fato para minha profunda vergonha, você não parava de me mostrar - então nesses momentos eu ficava muito desesperado e todas as minhas mas experiências em todas as áreas confluíam em grande estilo. Só me sentia melhor quando você algumas vezes se despia primeiro e eu ficava sozinho, podendo adiar a vergonha da aparição pública até o momento em que você vinha ver o que estava acontecendo e me tirava da cabine. Ficava grato porque você parecia não notar minha aflição e também tinha orgulho do corpo do meu pai. Aliás, essa diferença entre nós subsiste ainda hoje de forma parecida.&lt;br /&gt;A isso correspondia, ademais, sua superioridade espiritual. Você havia subido tão alto, contando apenas com a própria força, que tinha confiança ilimitada na sua opinião pessoal. Enquanto criança, isso não foi para mim tão ofuscante como mais tarde para o jovem adolescente. Da sua poltrona você regia o mundo. Sua opinião era certa, todas as outras disparatadas, extravagantes, meshuggeix, anormais. Tão grande era sua autoconfiança, que você não precisava de modo algum ser conseqüente, sem no entanto deixar de ter razão. Podia também ser o caso de você não ter opinião alguma sobre um assunto, e, conseqüentemente, todas as opiniões possíveis relativas a ele precisavam ser sem exceção erradas. Você podia, por exemplo, xingar os tchecos, depois os alemães, depois os judeus, na verdade não sob este ou aquele aspecto, mas sob todos, e no final não sobrava mais ninguém além de você. Você assumia para mim o que há de enigmático em todos os tiranos, cujo direito está fundado, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me parecia.&lt;br /&gt;Ora, no que me dizia respeito, você efetivamente tinha razão com assombrosa freqüência; numa conversa isso era evidente, pois mal chegávamos a conversar; mas também na prática você tinha razão. Entretanto isso não era nada de especialmente incompreensível: em todos os meus pensamentos eu estava sob forte pressão da sua parte, mesmo naqueles que não coincidiam com os seus, e particularmente nesses. Todas aquelas idéias na aparência independentes de você estavam desde o início gravadas pelo seu juízo desfavorável: suportar isso até a exposição completa e duradoura do pensamento era quase impossível. Não falo aqui de pensamentos elevados de qualquer natureza, mas de todos os pequenos empreendimentos da infância. Bastava estar feliz com alguma coisa, ficar com a alma plena, chegar em casa e expressá-la, para que a resposta fosse um suspiro irônico, um meneio de cabeça, o bater do dedo sobre a mesa: "Já vi coisa melhor", ou "Para mim você vem contar isso?", ou "Minha cabeça não é tão fresca quanto a sua", ou "Dá para comprar alguma coisa com isso?", ou "Mas que acontecimento!". Naturalmente não se podia exigir de você entusiasmo por qualquer ninharia de criança, vivendo como vivia, cheio de preocupação e trabalho pesado. Nem era disso que se tratava. Pelo contrário, tratava-se do fato de que você precisava causar essas decepções ao filho, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório, mais ainda: de que o espírito de contradição se fortalecia incessantemente pela acumulação de material, de tal forma que no fim ele acabava se impondo até como costume, mesmo que às vezes você tivesse opinião igual à minha, e finalmente, já que essas decepções não eram as decepções da vida comum, elas acertavam no cerne, pois isso dizia respeito à sua pessoa, medida de todas as coisas. A coragem, a determinação, a confiança, a alegria em torno disto ou daquilo não se sustentavam até o fim quando você era contra ou quando a sua oposição podia ser meramente presumida; e ela podia sem dúvida ser presumida em praticamente tudo o que eu fazia.&lt;br /&gt;Isso se relacionava tanto a idéias quanto a pessoas. Bastava que eu tivesse um pouco de interesse por alguém - o que aliás não acontecia com freqüência por causa do meu modo de ser - para que você, sem qualquer respeito pelo meu sentimento e sem consideração pelo meu julgamento, interviesse logo com insulto, calúnia e humilhação. Gente inocente, ingênua, como por exemplo o ator judeu Löwy, teve de pagar por isso. Sem conhecê-lo, você o comparou, de uma maneira horrível, da qual já me esqueci, com inseto daninho e, como muitas vezes em relação a pessoas que me eram caras, você automaticamente tinha à mão o ditado sobre cães e pulgasx. Lembro-me aqui em particular do ator, porque anotei as coisas que então você disse dele para mim, com uma observação: "É assim que meu pai fala sobre o meu amigo (que absolutamente não conhece) só porque ele é meu amigo. Poderei sempre retrucar isso quando me recriminar por falta de amor e de gratidão filial". Para mim, sempre foi incompreensível sua total falta de sensibilidade em relação à dor e à vergonha que podia me infligir com palavras e juízos: era como se você não tivesse a menor noção da sua força. Também eu com certeza muitas vezes o magoei com palavras, mas depois sempre o reconheci, isso me doía mas eu não podia me dominar, refrear a palavra, já me arrependia enquanto a pronunciava. Mas você desfechava sem mais as suas, não se condoía de ninguém, nem durante nem depois, contra você estava-se completamente sem defesa.&lt;br /&gt;No entanto, toda a sua educação foi assim. Creio que você tem talento de educador; a uma pessoa da sua índole você certamente teria sido útil através da educação; ela teria percebido a sensatez daquilo que você lhe estava dizendo, não teria se preocupado com nada além disso e desse modo levaria as coisas calmamente a termo. Mas para mim, quando criança, tudo o que você bradava era logo mandamento do céu, eu jamais o esquecia, ficava sendo para mim o recurso mais importante para poder julgar o mundo, sobretudo para julgar você mesmo, e nisso o seu fracasso era completo. Como em criança eu ficava junto de você principalmente na hora das refeições, a sua lição principal era em grande parte uma lição sobre o comportamento correto à mesa. O que vinha à mesa precisava ser comido, não era permitido falar sobre a qualidade da comida - mas você freqüentemente achava a comida intragável; chamava-a de "grude", a "besta" (a cozinheira) a tinha estragado. Como você por natureza tinha um apetite vigoroso e uma predileção especial por comer tudo rápido, quente e em grandes bocados, o filho tinha de se apressar, reinava à mesa um silêncio sombrio, interrompido por admoestações: "Primeiro coma, depois fale", ou "Mais depressa, mais depressa", ou "Veja: já terminei de comer faz muito tempo". Não era permitido partir os ossos com os dentes, mas você podia. Não era permitido sorver o vinagre, mas você podia. O principal era que se cortasse o pão direito, mas o fato de que você o fizesse com uma faca pingando molho era indiferente. Era preciso prestar atenção para que não caíssem restos de comida no chão, no final a maioria deles ficava embaixo de você. À mesa não era permitido se ocupar de outra coisa a não ser da refeição, mas você polia e cortava as unhas, apontava lápis, limpava os ouvidos com o palito de dentes. Por favor, pai, me entenda bem, esses pormenores teriam sido em si mesmos totalmente insignificantes, eles só me oprimiam porque você, o homem tão imensamente decisivo, não atendia ele mesmo aos mandamentos que me impunha. Com isso o mundo se dividia para mim em três partes: uma onde eu, o escravo, vivia sob leis que tinham sido inventadas só para mim e às quais, além disso, não sabia por que, nunca podia corresponder plenamente; depois, um segundo mundo, infinitamente distante do meu, no qual você vivia, ocupado em governar, dar ordens e irritar-se com o seu não-cumprimento; e finalmente um terceiro mundo, onde as outras pessoas viviam felizes e livres de ordens e de obediência. Eu vivia imerso na vergonha: ou seguia as suas leis, e isso era vergonha porque elas só valiam para mim; ou ficava teimoso, e isso também era vergonha, pois como me permitia ser teimoso diante de você?, ou então não podia obedecer porque, por exemplo, não tinha a sua força, o seu apetite, a sua destreza, embora você exigisse isso de mim como algo natural: esta era com certeza a vergonha maior. Desse modo se moviam não as reflexões, mas os sentimentos do menino.&lt;br /&gt;Minha situação na época talvez fique mais clara se eu e a comparar com a de Félix. Você o trata de forma semelhante, até mesmo emprega contra ele um método de ensino particularmente terrível, na medida em que, quando ele faz durante a refeição alguma coisa que na sua opinião não é limpa, você não se contenta em dizer como antigamente para mim: "Você é um porcalhão", mas ainda acrescenta: "Você é um autêntico Hermann", ou "Igualzinho ao seu pai". Talvez porém - mais que "talvez" não se pode dizer - isso de fato não prejudique essencialmente Félix, pois para ele você é só um avô, embora especialmente importante, mas sem dúvida não é tudo, como foi para mim; além disso Félix é um caráter calmo e já agora, de certo modo, viril, que se deixa talvez aturdir por uma voz de trovão, mas não ser comandado por muito tempo; acima de tudo, ele só fica relativamente pouco com você e está sob outras influências; para ele você é muito mais algo caro e bizarro do qual pode escolher o que quer levar. Para mim você não era uma coisa bizarra, eu não podia escolher, tinha de levar tudo.&lt;br /&gt;E na verdade sem poder argumentar nada, pois lhe é de antemão impossível falar serenamente sobre uma coisa com a qual não concorda ou que simplesmente não parta de você: seu temperamento dominador não o permite. Nos últimos anos você explica isso pelo seu nervosismo cardíaco, eu não saberia dizer se você foi alguma vez em essência diferente, no máximo o nervosismo cardíaco é um meio para o exercício mais estrito da dominação, já que a lembrança da doença, deve sufocar nos outros a última réplica. Naturalmente isto não é uma censura, apenas a constatação de um fato. Por exemplo, em relação a Ottla você costuma dizer: "Com essa não se pode falar nada: ela logo pula no pescoço"; mas na realidade não é ela a primeira a fazer isso; você confunde a coisa com a pessoa; é a coisa que pula no seu pescoço e imediatamente você toma uma decisão sobre ela, sem ouvir a pessoa; o que depois ainda se argumenta só pode irritá-lo, jamais convencê-lo. Ouve-se então apenas o seguinte: "Faça o que quiser; por mim você está livre; você é maior de idade; não tenho conselhos para lhe dar" - e tudo naquela inflexão terrível e rouca da ira e da completa condenação, diante da qual eu hoje só tremo menos que na infância porque o sentimento de culpa exclusivo da criança foi em parte substituído pela compreensão do nosso comum desamparo.&lt;br /&gt;A impossibilidade do intercâmbio tranqüilo teve uma outra conseqüência na verdade muito natural: desaprendi a falar. Certamente eu não teria sido, em outro contexto, um grande orador, mas sem dúvida teria dominado a linguagem humana fluente e comum. No entanto, logo cedo você me interditou a palavra, sua ameaça: "Nenhuma palavra de contestação!" e a mão erguida no ato me acompanharam desde sempre. Na sua presença - quando se trata das suas coisas você é um excelente orador - adquiri um modo de falar entrecortado, gaguejante, para você também isso era demais, finalmente silenciei, a princípio talvez por teimosia, mais tarde porque já não podia pensar nem falar. E como você era meu verdadeiro educador, isso repercutiu em todos os aspectos da minha vida. No geral é um curioso equívoco você acreditar que nunca me submeti à sua vontade. "Sempre do contra em tudo" não foi realmente meu princípio de vida diante de você, como acredita e me recrimina por isso. Pelo contrário: se eu tivesse obedecido menos, você na certa estaria muito mais satisfeito comigo. O fato é que as suas medidas educativas acertaram no alvo; não me esquivei a nenhuma investida sua; assim como sou (naturalmente pondo de lado os fundamentos e a influência da vida), sou o resultado da sua educação e da minha docilidade. Que esse resultado apesar disso lhe seja penoso, que você se recuse inconscientemente a reconhecê-lo como produto da sua educação, se deve justamente ao fato de que a sua mão e o meu material eram tão estranhos um ao outro. Você dizia: "Nenhuma palavra de contestação!" e com isso queria silenciar em mim as forças contrárias que Ihe eram tão desagradáveis, mas essa influência era muito forte para mim, eu era dócil demais, emudecia por completo, me escondia de você e só ousava me mexer quando estava tão distante que o seu poder não me alcançava mais, pelo menos diretamente. Mas você estava ali, diante de mim, e tudo Ihe parecia ser novamente "do contra", quando era apenas a conseqüência natural da sua força e da minha fraqueza.&lt;br /&gt;Seus recursos oratórios extremamente eficazes e que nunca falhavam, pelo menos comigo, eram: insulto, ameaça, ironia, riso malévolo e - curiosamente - auto acusação.&lt;br /&gt;Não consigo me lembrar se você me insultava diretamente com impropérios explícitos. Também não era necessário, você dispunha de muitos outros meios, nas conversas em casa e especialmente na loja os xingamentos voavam em cima de outras pessoas ao meu redor numa tal quantidade, que quando eu era menino ficava quase anestesiado e não tinha motivo algum para não remetê-los também a mim, pois as pessoas que insultava certamente não eram piores que eu, e sem dúvida você não estava muito mais insatisfeito com elas do que comigo. E também aqui se manifestava mais uma vez a sua enigmática inocência e intangibilidade: xingava sem se importar com isso, no entanto condenava o insulto nos outros e o proibia.&lt;br /&gt;Você reforçava o xingamento com ameaças e então isso já valia para mim. Era terrível, por exemplo, aquele "Vou fazer picadinho de você",xi embora eu decerto soubesse que nada de mais grave se seguiria (quando pequeno, entretanto, eu não o sabia); mas quase correspondia à idéia que eu tinha do seu poder, o fato de que você também era capaz de chegar a tanto. Era terrível ainda quando você corria gritando em torno da mesa para agarrar um de nós: evidentemente você não queria agarrar, mas agia como se quisesse, e a aparência era de que a minha mãe finalmente chegava para salvar. À criança parecia que mais uma vez havia conservado a vida por clemência e que continuava a mantê-la como um presente imerecido da sua parte. Também faziam parte desse quadro as ameaças decorrentes da desobediência. Quando eu começava a fazer alguma coisa que não lhe agradava e você me ameaçava com o malogro, então o respeito pela sua opinião era tão grande que com ele o fracasso era inevitável, mesmo que só ocorresse numa época posterior. Perdi a confiança nos meus próprios atos. Tornei-me instável, indeciso. Quanto mais velho ficava, tanto maior era o material que você podia levantar como prova da minha falta de valor; aos poucos você num certo sentido acabou tendo realmente razão. Previno-me outra vez de afirmar que me tornei assim só por sua causa; você apenas reforçou o que existia, mas reforçou muito, justamente porque diante de mim você era muito poderoso e aplicou nisso todo o seu poder.&lt;br /&gt;Você tinha especial confiança na educação pela ironia, era ela a que melhor correspondia à sua superioridade sobre mim. Em você uma admoestação tinha comumente esta forma: "Será que você não pode fazer isto assim e assado? Será que é demais para você? Naturalmente para isso você não tem tempo, não é?", e coisas semelhantes. Nessa hora cada pergunta era acompanhada por um riso maldoso e uma cara feia. De certo modo a pessoa já estava punida antes mesmo de saber que tinha feito algo errado. Eram provocadoras também as repreensões em que se era tratado na terceira pessoa, ou seja, como alguém indigno até da interpelação malévola, na qual você se dirigia formalmente à minha mãe, mas na realidade a mim; assim, por exemplo: "Naturalmente não se pode exigir isso do senhor meu filho" e coisas do gênero. (A contrapartida foi que eu, por exemplo, não ousava e mais tarde nem mesmo cogitava de lhe fazer perguntas diretas quando minha mãe estava presente. Era muito menos arriscado para o filho perguntar por você à mãe sentada ao seu lado; então se indagava: "Como vai o meu pai?" e assim se evitavam surpresas). Evidentemente havia casos em que se estava muito de acordo com a ironia mais acerba, quando ela dizia respeito a outra pessoa, por exemplo Ellixii, com quem estive em más relações durante anos. Para mim era uma festa da maldade e do júbilo pela infelicidade alheia quando, em quase todas as refeições, se falava dela assim: "A ampla mocinha precisa ficar sentada a dez metros de distância da mesa", lance em que você, então, maldoso na sua cadeira, sem o menor vestígio de amabilidade ou de humor, mas sim na postura de um inimigo encarniçado, procurava imitar, com exagero, a maneira como ela se sentava, extremamente repulsiva para o seu gosto. Com que freqüência essa e outras coisas parecidas tiveram de se repetir, quão pouco você alcançou na prática efetiva? Acredito que isso se devia ao fato de que o dispêndio de ira e malevolência não parecia estar numa proporção certa com a coisa propriamente dita; não havia o sentimento de que a ira tivesse sido provocada por aquela ninharia de se sentar longe da mesa, mas que ela existia de antemão em toda a sua magnitude e que só casualmente fora tomada como pretexto para se desencadear. Uma vez que se estava convencido de que o pretexto seria encontrado de qualquer modo, não havia nenhuma preocupação especial com a conduta; além do que ficava-se insensibilizado com as constantes ameaças, pois aos poucos já se estava quase seguro de que ninguém iria apanhar. A criança se tornava rabugenta, desatenta, desobediente, sempre pensando numa fuga, a maioria das vezes numa fuga interior. Assim você sofria, assim sofríamos nós. Do seu ponto de vista você tinha toda razão quando, com os dentes cerrados e o riso gorgolejante, que haviam transmitido ao filho, pela primeira vez, as imagens do inferno, costumava dizer (como ainda recentemente a respeito de uma carta de Constantinopla): "Isto sim é que é companhia!".&lt;br /&gt;Totalmente incompatível com essa sua postura perante os filhos parecia ser o fato de que você se lamentava publicamente, o que acontecia com muita freqüência. Admito que quando criança eu não tinha empatia alguma por isso (mais tarde sim) e não entendia como pudesse de algum modo esperar que se condoessem de você. Você era tão gigantesco em todos os sentidos - que interesse podia ter pela nossa comiseração ou simplesmente pela nossa ajuda? Na realidade devia desprezá-las assim como nos desprezava. Por isso eu não acreditava nas queixas e procurava por trás delas alguma intenção secreta. Só mais tarde compreendi que você de fato sofria muito por causa dos filhos; mas naquela época, em que as lamentações poderiam, em circunstâncias diferentes, encontrar uma resposta infantil aberta, sem prevenção, disposta a qualquer ajuda, elas só poderiam ser, para mim, novos meios mais que manifestos de ensino e humilhação, não muito fortes como tais, mas com o efeito secundário nocivo de que a criança se acostumava a não levar a sério exatamente aquilo que deveria levar a sério.&lt;br /&gt;Felizmente havia também exceções a isso, sobretudo quando você sofria em silêncio e o amor e a bondade superavam com a sua força qualquer oposição e comoviam de forma imediata. Embora raro, era maravilhoso. Por exemplo, quando nas tardes quentes de verão eu o via dormir um pouco, cansado, na loja, com os cotovelos apoiados no balcão; ou quando você chegava aos domingos, esfalfado, para nos visitar nas férias de verão; ou a vez em que, durante uma doença grave da minha mãe, você se apoiou nas estantes de livros, trêmulo de tanto chorar; ou quando na minha última doença você veio em silêncio me ver no quarto de Ottla, ficou parado na soleira da porta, apenas esticou o pescoço para me avistar na cama e por consideração só fez um cumprimento com a mão. Naqueles momentos eu me estendia no leito e chorava de felicidade, e choro ainda agora enquanto escrevo.&lt;br /&gt;Você tinha também um jeito de sorrir particularmente belo, bem raro de se ver, um riso tranqüilo, satisfeito, afável, que podia tornar muito feliz aquele a quem se dirigia. Não consigo me lembrar de que ele tivesse sido expressamente concedido a mim na infância, mas isso sem dúvida deve ter acontecido, pois por que você o teria negado naquela época, já que eu ainda lhe parecia inocente e era a sua grande esperança? Aliás, também essas impressões amáveis não lograram com o tempo outra coisa senão aumentar a minha consciência de culpa e tornar o mundo ainda mais incompreensível para mim.&lt;br /&gt;Eu preferia ater-me ao que era concreto e duradouro. Só para me afirmar um pouco diante de você, em parte também por uma espécie de vingança, logo comecei a observar, colecionar e exagerar pequenos ridículos que notava em você, por exemplo, o modo como se deixava deslumbrar por pessoas na maioria das vezes apenas aparentemente em posição mais elevada, das quais você podia contar coisas sem parar - porventura algum conselheiro imperial ou algo do gênero (por outro lado, esse tipo de coisa me doía, pelo fato de que você, meu pai, acreditava precisar dessas confirmações fúteis do seu valor e se gabar delas). Ou observar a sua predileção por frases indecorosas, de preferência proferidas em voz alta, das quais ria como se tivesse dito alguma coisa particularmente brilhante, quando se tratava apenas de uma pequena e banal indecência (contudo, isso era ao mesmo tempo uma nova manifestação da sua força vital, que me envergonhava). Naturalmente havia uma grande variedade de observações como essas; eu ficava feliz com elas, pois me davam pretexto para mexerico e diversão; às vezes você percebia e se zangava com isso, tomava-o por maldade, falta de respeito; mas acredite-me, para mim não eram outra coisa senão um meio de resto inoperante de autoconservação, eram gracejos como os que se espalham sobre deuses e reis, gracejos que não só se associavam ao mais profundo respeito, como até faziam parte dele.&lt;br /&gt;Aliás, você também tentou uma espécie de contra-ataque, correspondente à situação semelhante que tinha diante de mim. Costumava apontar como as coisas iam exageradamente bem para mim e como, de fato, eu era bem tratado. É verdade, mas não creio que nas circunstâncias então reinantes isso tivesse sido uma ajuda substancial.&lt;br /&gt;É certo que minha mãe era de uma bondade ilimitada comigo, mas para mim tudo isso estava relacionado com você, ou seja, numa relação nada boa. Inconscientemente ela exercia o papel de isca na caça. Se nalguma hipótese improvável sua educação tivesse me tornado independente, ao engendrar obstinação, antipatia ou até mesmo ódio - então minha mãe iria restabelecer o equilíbrio pela bondade, pelo discurso sensato (na confusão da infância ela era o protótipo da razão), pelos rogos, e eu me veria trazido novamente de volta à sua órbita, da qual em outro em caso talvez tivesse me evadido para vantagem sua e minha. Ou então ocorria que não se chegava a nenhuma reconciliação de fato, que minha mãe me protegia de você às escondidas e me dava alguma coisa, me permitia algo em segredo; aí eu me tornava de novo, diante de você, a criatura que teme a luz, que engana, que está consciente da própria culpa, alguém que por causa da própria nulidade só pode chegar por caminhos tortuosos àquilo que considera o seu direito. Isso representava outra vez aumento da consciência de culpa.&lt;br /&gt;É fato também que você nunca me bateu de verdade. Mas os gritos, o enrubescimento do seu rosto, o gesto de tirar a cinta e deixá-la pronta no espaldar da cadeira para mim eram quase piores. É como quando alguém deve ser enforcado. Se ele é realmente enforcado, então morre e acaba tudo. Mas se precisa presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do seu indulto quando o laço pende diante do seu rosto, então ele pode ter de sofrer a vida toda com isso. Além do mais, das muitas vezes em que, na sua opinião declarada, eu teria merecido uma surra, mas escapara por um triz por causa da sua clemência, se acumulava de novo um grande sentimento de culpa. De todos os lados eu desembocava na sua culpa.&lt;br /&gt;Você sempre me recriminou (só na minha presença ou na de estranhos - para a humilhação que isso representava você não tinha sensibilidade, os assuntos dos seus filhos eram sempre públicos) que, graças ao seu trabalho, eu vivia sem qualquer privação, na tranqüilidade, no calor e na fartura. Penso aqui em certas observações que devem ter literalmente riscado sulcos no meu cérebro, como: "Já aos sete anos eu precisava levar a carroça pelas aldeias"; "Precisávamos dormir todos num cubículo"; "Ficávamos felizes quando tínhamos batatas"; "Durante anos, por falta de roupa de inverno suficiente, fiquei com feridas abertas nas pernas"; "Quando eu ainda era menino já precisava ir para a loja em Pisek"; "Dos meus eu não recebia nada, nem mesmo durante o serviço militar, ainda tinha que mandar dinheiro para casa"; "Mas apesar de tudo - de tudo - o pai era sempre o pai. Quem é que sabe disso hoje? O que é que os filhos sabem? Ninguém sofreu assim. Será que um filho entende isso hoje?" Essas histórias poderiam ter sido, em outras circunstâncias, um excelente recurso educativo, teriam podido oferecer estímulo e força ao filho para resistir às mesmas trabalheiras e privações pelas quais o pai tinha passado. Mas você não queria isso, pois graças justamente aos seus esforços a situação era outra, não havia chance para alguém se distinguir como você o tinha feito. Essa oportunidade só se poderia criar pela violência e pela subversão, seria preciso fugir de casa (supondo-se que tivesse existido capacidade de decisão e força para tanto e minha mãe, por seu lado, não tivesse trabalhado contra por outros meios). Mas você não queria nada disso, qualificava-o de ingratidão, extravagância, desobediência, traição, loucura. Portanto, se por um lado você induzia a isso através do exemplo, das narrativas e da vergonha, por outro o proibia da maneira mais rigorosa. Se não fosse assim, por exemplo, abstraídas as circunstâncias acessórias, você teria na verdade de ficar encantado com a aventura de Ottla em Zürauxiii. Ela queria ir para o campo de onde você tinha vindo, queria passar por trabalho e privações como você, não queria desfrutar dos seus êxitos no trabalho, do mesmo modo que você também tinha sido independente do seu pai. Eram intenções tão terríveis assim? Tão distantes do seu exemplo e ensinamento? Bem, as intenções de Ottla afinal falharam no resultado, tornaram-se talvez ridículas, foram executadas com muito barulho, ela não teve consideração suficiente pelos pais. Mas será que a culpa foi exclusivamente dela, não foi culpa também das condições e sobretudo do fato de você estar tão distanciado dela? Será por acaso que ela (como mais tarde você quis se convencer) estava menos distante de você na loja do que depois em Zürau? Será que você com toda certeza não teria tido força (supondo-se que tivesse conseguido superar a si mesmo) para fazer dessa aventura algo muito bom, através encorajamento, do conselho e da orientação, talvez até só da tolerância?&lt;br /&gt;Em seguida a essas experiências você costumava dizer, num gracejo amargo, que as coisas iam bem demais para nós. Mas em certo sentido não é um gracejo. Recebemos da sua mão aquilo que você precisou Iutar para conseguir, mas a luta pela vida material, que no seu caso foi imediata, e da qual naturalmente não somos poupados, essa nós só tivemos de travar mais tarde, com energia de criança na idade adulta. Não digo que por causa disso nossa situação seja necessariamente menos favorável do que foi a sua, provavelmente ela é equivalente (ainda que as situações de base não possam, é claro, ser comparadas); estamos em desvantagem no sentido de que não podemos nos vangloriar das nossas privações, nem humilhar ninguém com elas, como você fez com as suas. Também não nego que teria sido possível que eu fruísse e valorizasse na justa medida os frutos do seu grande e bem sucedido trabalho e pudesse levá-los em frente para Ihe dar alegria; mas justamente nosso distanciamento se opunha a isso. Eu podia desfrutar o que você me dava, mas só com vergonha, cansaço, fraqueza, consciência de culpa. Conseqüentemente, por tudo isso eu só conseguia ser grato como um mendigo, nunca através da ação.&lt;br /&gt;O resultado exterior imediato de toda essa educação foi que fugi de tudo o que, mesmo à distância, lembrasse você. Primeiro foi a loja. Em si mesma, particularmente na infância, enquanto era uma pequena loja, ela teria me agradado muito , era tão viva, iluminada à noite, a gente via e ouvia muita coisa, podia aqui e ali ajudar, chamar a atenção, mas sobretudo admirá-lo nos seus extraordinários talentos comerciais, o modo como você vendia, tratava as pessoas, fazia brincadeiras, se mostrava infatigável, em casos de dúvida sabia tomar logo uma decisão e assim por diante; além disso era um espetáculo digno de ser visto o jeito como você fazia um embrulho ou abria uma caixa, e tudo no conjunto não era a pior das escolas para uma criança. Mas quando aos poucos você foi me aterrorizando por todos os lados e a loja e a sua pessoa se tornaram para mim uma coisa só, então também ela já não era mais acolhedora. Coisas que no início eram naturais para mim me atormentavam, envergonhavam, principalmente o tratamento que você dispensava aos empregados. Não sei, talvez fosse assim na maioria das lojas (na "Assicurazioni Generali"xiv no meu tempo, por exemplo, o tratamento era de fato parecido, lá eu apresentei ao diretor minha demissão alegando de um modo não totalmente sincero, mas também não de todo falso, que não podia suportar os insultos, que aliás nunca me atingiram diretamente; nesse ponto eu era dolorosamente sensível desde pequeno), mas na infância não me importavam as outras lojas. Era na loja, porém, que eu o via e escutava xingar e se enfurecer de um modo que, na minha opinião da época, não acontecia em nenhuma outra parte do mundo. E não só xingar como também exercer as demais formas de tirania. Como, por exemplo, atirar do balcão, com um golpe, mercadorias que você não queria ver confundidas com outras - só o desculpava um pouco a irreflexão da sua cólera - e o caixeiro tinha de erguê-las do chão. Ou a expressão que você usava constantemente a respeito de um caixeiro doente dos pulmões: "Esse cachorro doente devia rebentar de uma vez!" Você chamava os empregados de "inimigos pagos", e eles com efeito o eram, mas antes ainda de terem se transformado nisso você me parecia ser o "inimigo pagante" deles. Lá também eu recebi o grande ensinamento de que você podia ser injusto; eu não o teria notado logo, se fosse comigo mesmo, porque tinha acumulado tanto sentimento de culpa, que lhe dava razão; mas ali, na minha opinião de criança - mais tarde naturalmente corrigida um pouco, embora não muito - ali havia pessoas estranhas, que afinal trabalhavam para nós, e em troca tinham de viver num medo permanente de você. Evidentemente aí eu exagerava, em verdade porque assumia, sem mais, que você agia sobre elas do mesmo modo aterrador que atuava sobre mim. Se tivesse sido assim, elas efetivamente não teriam podido viver; mas como eram pessoas adultas, a maioria com nervos excepcionais, descartavam sem esforço os impropérios e finalmente isso prejudicava mais a você do que a elas. Mas para mim essa circunstância tornava a loja insuportável, ela lembrava demais minha relação com você: pondo inteiramente de lado o interesse do empresário e o seu despotismo, já como comerciante você era tão superior a todos os que ali fizeram o seu aprendizado, que nenhuma realização deles podia satisfazê-lo; de forma semelhante, você tinha de estar eternamente insatisfeito comigo. Por isso eu pertencia necessariamente ao partido dos empregados, mesmo porque já por temor, não entendia como era possível insultar um estranho daquele jeito; daí que, por temor, eu quisesse de alguma maneira conciliar os empregados - a meu ver terrivelmente revoltados - com você e a nossa família; em nome da minha própria segurança. Para tanto não bastava mais o comportamento costumeiro, decente, diante do pessoal, nem mesmo o comportamento discreto: eu precisava, antes, ser humilde: não só cumprimentar primeiro, mas demonstrar, o quanto possível, que não exigia a retribuição do cumprimento. E mesmo que eu; personagem insignificante, tivesse, lá embaixo, lambido os pés deles, ainda assim não seria uma compensação pelos golpes que lá de cima você, o senhor, disparava sobre eles. O relacionamento que estabeleci na loja com os semelhantes foi além dela e repercutiu no meu futuro (algo parecido, mas não tão perigoso e profundo como o meu caso era, por exemplo, a predileção de Ottla pelo contato com gente pobre, a intimidade com as empregadas, que tanto o indignava, e coisas do gênero). No fim a loja quase me dava medo e, seja como for, antes ainda de começar o ginásio ela já não era assunto meu fazia muito tempo, e assim continuei a me distanciar cada vez mais. Parecia-me algo inteiramente inacessível às minhas forças, uma vez que, como você dizia, ela consumia até as suas energias. Você então procurou (ainda hoje isso me comove e envergonha) extrair da minha aversão à loja, à sua obra - aversão que lhe era muito dolorosa - um pouco de doçura, afirmando que me faltava tino comercial, que eu tinha na cabeça idéias mais elevadas e coisas desse estilo. Naturalmente minha mãe ficava satisfeita com essa explicação que você extorquia de si mesmo e até eu, na minha vaidade e aflição, me deixava influenciar por isso. Mas se tivessem sido realmente, ou principalmente, "idéias mais elevadas" as que me apartaram da loja (que agora, mas só agora, eu de fato odeio sinceramente), elas teriam de se manifestar de outro modo, em vez de me fazerem navegar calmo e medroso pelo secundário e pelo estudo de Direito, até desembarcar definitivamente na escrivaninha de funcionário.&lt;br /&gt;Se eu queria fugir de você, tinha também de fugir da família, até de minha mãe. Na realidade sempre era possível encontrar nela proteção, mas só em relação a você. Ela o amava demais e lhe dedicava demasiada fidelidade para que, na luta do filho, pudesse ter por muito tempo um poder espiritual autônomo. Aliás, um instinto certo do filho, pois com os anos minha mãe se tornou ligada a você ainda mais estreitamente; ao passo que sempre conservou, de um modo bonito e delicado, sua autonomia nos limites mínimos daquilo que dizia respeito a si mesma, ela com os anos assumiu cegamente, de uma maneira cada vez mais total, os seus juízos e preconceitos sobre os filhos, principalmente no caso sem dúvida difícil de Ottla. É preciso ter sempre em mente, é claro, como era desgastante ao extremo a posição de minha mãe na família. Ela tinha se estafado na loja, na casa, tinha sofrido em dobro todas as doenças na família, mas o coroamento de tudo foi o que padeceu na posição de intermediária entre nós e você. Você sempre foi afetivo e atencioso com ela, mas nesse aspecto você a poupou tão pouco como nós a poupamos. Sem contemplação assestamos nossos golpes sobre ela, você do seu lado, nós do nosso. Era um deslocamento, não havia nisso más intenções, só se pensava na luta que travávamos, você conosco, nós com você, e descarregávamos em cima de minha mãe. Tampouco foi uma boa contribuição para a educação dos filhos a maneira como você - naturalmente sem culpa - a atormentou por nossa causa. Na aparência isso até justificava o nosso comportamento com ela, de outro modo injustificável. Quanto ela sofreu de nós por sua causa e de você por nossa causa! Sem contar aqueles casos em que você tinha razão porque elas nos estragava com agrados, embora até essa indulgência pudesse às vezes ter sido apenas uma demonstração silenciosa e inconsciente contra o seu sistema. Evidentemente minha mãe não teria podido suportar tudo se não tivesse extraído do amor a todos nós e da felicidade desse amor a energia para suportar.&lt;br /&gt;Minhas irmãs só me acompanharam em parte. A mais feliz com a própria situação era Valli. Sendo dentre nós a que estava mais próxima da mãe, ela se sujeitava a você de modo análogo, sem muito esforço ou prejuízo. Justamente porque ela lembrava minha mãe, você a acolhia com mais amabilidade, embora nela existisse menos material típico dos Kafka. Mas do seu ponto de vista talvez fosse precisamente isso o certo: onde não havia matéria dos Kafka, nem mesmo você podia exigir uma coisa assim; aqui também não havia de sua parte o sentimento, válido para nós outros, de que se estava perdendo algo que precisava ser resgatado à força. Aliás o elemento Kafka talvez nunca tivesse sido do seu gosto quando ele se manifestava em mulheres. Quem sabe a relação de Valli com você teria sido mais amável se nós não tivéssemos interferido um pouco.&lt;br /&gt;Elli é o único exemplo de êxito quase total de uma evasão do seu círculo. Dela, na infância, era de quem eu menos teria esperado isso. Era uma criança tão morosa, cansada, medrosa, amuada, cheia de culpa, servil, maldosa, preguiçosa, voraz, avarenta, que eu mal podia olhar para ela, dirigir-lhe a palavra, de tanto que me fazia lembrar de mim mesmo, de tanto que se submetia, de um jeito semelhante ao meu, ao jugo da educação. Especialmente sua avareza me era repulsiva, uma vez que em mim ela era, se possível, mais forte ainda. A avareza é sem dúvida um dos sinais mais confiáveis de infelicidade profunda; eu estava tão inseguro de tudo, que só possuía, de fato, o que já segurava nas mãos ou na boca, ou que pelo menos estava a caminho, e era exatamente isso o que Elli, que se achava em situação parecida, mais gostava de me tirar. Mas tudo mudou quando, já moça - e isso é o mais importante - ela saiu de casa, se casou, teve filhos, tornou-se alegre, despreocupada, corajosa, generosa, altruísta, cheia de esperança. É quase inacreditável como você na verdade não notou absolutamente essa mudança, ou de qualquer modo não a avaliou como merecia, tão ofuscado está pelo rancor que sempre teve contra ela e que no fundo permanece inalterado; só que esse rancor agora ficou muito menos atual, uma vez que Elli não mora mais conosco, e da sua parte o amor por Félix e a simpatia por Karl tornaram-no irrelevante como sentimento. Apenas Gertixv precisa ainda às vezes pagar por ele.&lt;br /&gt;Sobre Ottla quase não me atrevo a escrever; sei que com isso ponho em jogo todo o efeito almejado desta carta. Em condições normais, ou seja, quando ela não está passando necessidade ou perigo especial, você tem só ódio por ela; pessoalmente já me confessou que, na sua opinião, ela lhe causa de propósito, permanentemente, dor e raiva que, quando você sofre por causa dela, ela fica satisfeita e se alegra. Ou seja, uma espécie de demônio. Que estranhamento monstruoso, maior ainda do que entre mim e você, deve ter se interposto entre os dois para que tamanha incompreensão seja possível! Ela está tão longe de você, que praticamente não a vê mais, mas coloca um fantasma onde supõe que ela esteja. Admito que os problemas que teve com ela foram particularmente difíceis. Não penetro na essência desse caso tão complicado, mas seja como for existia aqui algo como um Löwy equipado com as melhores armas dos Kafka. Entre nós não houve propriamente uma luta; fui logo liquidado; o que restou foi fuga, amargura, luto, luta interior. Mas vocês dois estavam sempre em pé de guerra, sempre dispostos, sempre providos de todas as forças. Uma visão tão grandiosa quanto desoladora. Nos primeiros tempos ambos certamente estiveram muito próximos, pois ainda hoje Ottla é, de nós quatro, talvez a representação mais pura do matrimônio entre você e minha mãe e das energias que nele se juntaram. Não sei o que os fez perder a felicidade da concórdia entre pai e filho; tendo a crer que a evolução foi semelhante à minha. Do seu lado, a tirania do temperamento, do lado dela a obstinação, a suscetibilidade, o sentimento de justiça, a inquietação dos Löwy, tudo isso sustentado pela consciência da força dos Kafka. Eu bem que a influenciei, embora não por iniciativa própria, mas pelo mero fato da minha existência. Aliás, ela entrou por último nas relações de força já fixadas e conseguiu formar o próprio julgamento a partir do grande material disponível. Posso até imaginar que o ser dela vacilou algum tempo entre lançar-se ao seu peito ou ao dos adversários; ao que parece você cometeu na época algum descuido e a repeliu, mas ambos teriam sido, caso fosse possível, um magnífico casal na concórdia. Eu perderia com isso um aliado, mas a visão de vocês dois iria me ressarcir regiamente; além do que, com a felicidade incomensurável de encontrar pelo menos em um filho a satisfação plena, você teria se transformado muito a meu favor. Entretanto tudo isso é hoje apenas um sonho. Ottla não tem nenhuma ligação com o pai; como eu, precisa procurar sozinha o seu caminho, e o grau a mais em firmeza, autoconfiança, saúde, despreocupação que ela tem em comparação comigo a torna aos seus olhos mais malvada e traiçoeira do que eu. Compreendo isso; do seu ponto de vista, Ottla não pode ser diferente. Decerto ela mesma é capaz de se enxergar com os seus olhos, de sentir a sua dor e de, não digo se desesperar - desespero é assunto meu - mas se entristecer muito. Em aparente contradição com isso você de fato nos vê muitas vezes juntos, cochichando, rindo, e aqui e ali ouve uma menção ao seu nome. A impressão que tem é a de atrevidos conspiradores. Estranhos conspiradores! Seja como for, você é desde sempre um tema central tanto das nossas conversas como dos nossos pensamentos, mas na realidade não nos reunimos para maquinar coisas contra a sua pessoa, e sim para analisar juntos, de longe e de perto, com todo empenho, brincadeira, seriedade, amor, obstinação, ira, aversão, resignação, consciência de culpa, com todas as energias da cabeça e do coração, esse processo terrível que paira entre nós e você, em todos os pormenores, por todos os lados, sob todos os pretextos - processo em que você afirma constantemente ser juiz, embora seja, ao menos no principal (aqui deixo aberta a porta para todos os equívocos, que naturalmente podem me suceder; uma parte tão fraca e ofuscada como nós.&lt;br /&gt;Um exemplo instrutivo da sua influência pedagógica nesse contexto geral foi Irmaxvi. Por um lado, ela era certamente uma estranha, já chegou adulta à sua loja, você era antes de mais nada um patrão, portanto ela estava apenas em parte exposta à sua influência e numa idade já apta a oferecer resistência, mas por outro lado era também uma parente consangüínea, respeitava em você o irmão do pai, o seu poder sobre ela era muito maior que o simples poder de um chefe. E apesar disso Irma, que com o seu corpo franzino era tão ativa, esperta, diligente, modesta, confiável, altruísta e fiel, que o amava como tio e admirava como chefe, que antes e depois provou o seu valor em outros empregos, não foi uma funcionária muito boa para você. De fato, diante de você - naturalmente também pressionada por nós - ela estava próxima à posição dos filhos; o poder impositivo da sua personalidade era ainda tão grande que se desenvolveram nela (contudo só diante de você e - espero - sem o sofrimento mais fundo do filho) falta de memória, negligência, humor acre, talvez até mesmo um pouco de teimosia, na medida em que era capaz disso - no que não levo em linha de conta nem o fato de que era doentia nem, de resto, muito feliz, e de que pesava sobre ela uma vida familiar sem consolo. Para mim, a riqueza de referências da sua relação com ela foi resumida numa frase quase blasfema, que se tornou clássica entre nós, mas que comprova precisamente a candura do seu modo de tratar as pessoas: "Essa bem-aventurada me deixou um monte de porcaria".&lt;br /&gt;Ainda poderia descrever outros círculos da sua influência e da luta em sentido contrário, mas aí já entraria em terreno inseguro e teria de inventar; além disso, quanto mais você se distancia dos negócios e da família, tanto mais amável, flexível, polido, atencioso (quero dizer: também exteriormente) você se torna, do mesmo modo, por exemplo, que um autocrata, quando está fora dos limites do seu país, não tem motivo para continuar sendo tirânico e estabelece relações bondosas até com as pessoas mais humildes. Com efeito, nas fotos em grupo tiradas em Franzensbad, por exemplo, você aparece sempre grande e alegre, entre as pequenas pessoas amuadas, como um rei em viagem. Também os filhos teriam na certa podido tirar proveito disso, se já na infância tivessem sido capazes - o que era impossível - de percebê-lo e se eu, por exemplo, não precisasse viver sempre de algum modo no círculo mais íntimo, mais estrito, mais sufocante da sua influência, como de fato fiz.&lt;br /&gt;Com isso não perdi apenas o sentido de família, como você diz; pelo contrário: sentido de família eu ainda tinha, só que ele era em essência negativo para me separar internamente de você (tarefa naturalmente interminável). Mas as relações com as pessoas fora da família sofriam talvez ainda mais com a sua influência. Você se equivoca por completo se acredita que, por amor e fidelidade, eu faço tudo pelos outros, e por frieza e traição, não faço nada por você e pela família. Repito pela décima vez: mesmo em outras circunstâncias eu teria me tornado um homem acanhado e medroso, mas daí até o ponto aonde realmente cheguei ainda existe um caminho longo e escuro. (Até aqui silenciei de propósito, nesta carta, relativamente pouca coisa, mas, agora e depois, terei de silenciar algumas que ainda me são difíceis demais de confessar. Digo isso para que você, caso a imagem do conjunto fique aqui e ali algo imprecisa, não julgue que a culpa é da falta de provas; pelo contrário, existem provas que poderiam tornar a imagem insuportavelmente crua. Não é fácil encontrar um meio-termo). Aliás, aqui basta recordar coisas ditas anteriormente: eu perdi a autoconfiança, que foi substituída por uma ilimitada consciência de culpa. (Lembrando-me dessa falta de limites, certa vez escrevi acertadamente sobre alguém: "Teme que a vergonha sobreviva a ele"xvii). Eu não podia sofrer uma súbita metamorfose, ao entrar em contato com outras pessoas; pelo contrário, ficava com uma consciência de culpa ainda mais profunda em relação a elas, pois, como disse, precisava reparar os danos que, com a minha cumplicidade, você lhes havia causado. Além disso, você sempre tinha alguma objeção aberta ou velada contra quem quer que eu freqüentasse, e também por isso eu precisava pedir desculpas. A desconfiança que você procurou me ensinar, na loja e na família, contra a maioria das pessoas (aponte-me uma só, de algum modo importante para mim na infância, que você ao menos uma vez não tenha criticado de alto a baixo) e que curiosamente não o incomodava nem um pouco (você era forte o suficiente para suportá-la e além do mais ela na realidade talvez não passasse de um emblema do soberano) - essa desconfiança, que enquanto eu era pequeno não se confirmou aos meus próprios olhos em lugar nenhum, uma vez que eu via em toda parte apenas pessoas incansavelmente distintas, transformou-se na minha cabeça em desconfiança de mim mesmo e em medo permanente dos outros. No geral, portanto, eu na certa não podia me salvar da sua influência. O fato de que nesse ponto você se enganava, talvez se devesse à circunstância de que na realidade não sabia de nada a respeito das minhas relações pessoais, supondo, desconfiado e ciumento (acaso nego que goste de mim?), que eu tinha de me compensar em alguma parte pela evasão da vida familiar, já que de fato seria impossível que eu vivesse da mesma maneira lá fora. Nesse sentido, aliás, ainda na minha infância eu tinha um certo consolo justamente na desconfiança pelo meu julgamento; eu me dizia: "Você decerto exagera, e como os jovens sempre fazem, sente demais que as pequenas coisas são grandes exceções". Mas depois que se ampliou minha visão do mundo, praticamente perdi esse consolo.&lt;br /&gt;Tampouco o judaísmo pôde me salvar de você. Aqui sem dúvida seria pensável a salvação em si mesma; mas teria sido ainda mais pensável que ambos tivéssemos nos encontrado no judaísmo, ou mesmo que nele tivéssemos um ponto de partida comum. Mas que judaísmo foi o que recebi de você! No decorrer dos anos eu me situei diante dele mais ou menos de três maneiras diferentes.&lt;br /&gt;Quando menino eu me recriminava, em consonância com você, porque não ia bastante ao templo, não jejuava e assim por diante. Acreditava desse modo cometer uma falta não só contra mim, mas também contra você, quando então me invadia a consciência de culpa, que estava sempre pronta.&lt;br /&gt;Mais tarde, quando adolescente, eu não entendia como você, com o nada de judaísmo de que dispunha, podia me recriminar pelo fato de não me esforçar (mesmo que fosse por piedade, como você se exprimia) para realizar um nada semelhante ao seu. Até onde posso ver, era realmente um nada, uma brincadeira, nem mesmo isso. Você ia ao templo quatro dias por ano e nele ficava no mínimo mais próximo dos indiferentes do que daqueles que o faziam a sério, livrando-se, pachorrento, das orações como formalidade, causando-me às vezes espanto por conseguir me mostrar no livro de orações a passagem que estava sendo recitada; de resto eu podia, quando estava no templo (o principal era isso), divagar como quisesse. Em meio, pois, a bocejos e cabeçadas de sono, eu passava horas e horas ali (só me entediei assim mais tarde, acho eu, nas aulas de dança), procurando na medida do possível me alegrar com as pequenas variações que lá ocorriam, por exemplo quando abriam a Arca-da-Aliança, o que sempre me lembrava as barracas de tiro ao alvo, onde também se abria uma porta de armário quando se acertava no alvo, só que lá de dentro sempre saía alguma coisa interessante, e aqui sempre as mesmas velhas bonecas sem cabeçaxviii. Aliás, no templo eu sentia também muito medo, não apenas, como era óbvio, das inúmeras pessoas com as quais se entrava em contato mais estreito, mas também porque certa vez você mencionou de passagem que até eu podia ser chamado para ler a Torá. Durante anos tremi diante dessa possibilidade. No mais, porém, meu tédio não foi essencialmente perturbado, a não ser no máximo pelo Barmitzváxix, que no entanto só exigia um ridículo esforço de decorar e que portanto só levava a uma prova ridícula; depois, no que dizia respeito a você, por pequenos incidentes pouco importantes, por exemplo, quando era chamado para ler a Torá e se saía bem nesse acontecimento que no meu modo de sentir era exclusivamente social, ou quando na Reza dos Mortos você permanecia no templo e eu era mandado embora, o que durante muito tempo, evidentemente por causa de ser mandado embora e da falta de uma participação mais profunda, suscitava em mim o sentimento - que mal chegava à consciência - de que aqui se tratava de algo indecente. Assim era no templo, e em casa se possível pior ainda, limitando-se ao primeiro Sederxx, que se tornava cada vez mais uma comédia com acessos de riso, decerto por influência dos filhos que cresciam. (Por que você precisava se submeter a essa influência? Porque a tinha provocado.) Esse, pois, o material de fé que me foi transmitido, ao qual se acrescentava no máximo a mão estendida apontando para "os filhos do milionário Fuchs", que iam ao templo nas grandes solenidades em companhia do pai. Eu não entendia que com esse material se pudesse fazer coisa melhor do que se desfazer dele o mais rápido possível; para mim justamente livrar-se disso parecia ser a ação mais piedosa.&lt;br /&gt;Ainda mais tarde, no entanto, encarei as coisas de outro modo e entendi por que você podia acreditar que também neste aspecto eu o traía malevolamente. Da pequena comunidade aldeã, semelhante a um gueto, você tinha de fato trazido um pouco de judaísmo; não era muito e um tanto se perdeu na cidade e no serviço militar; mesmo assim as impressões e as lembranças da juventude bastavam, em escassa medida, para uma espécie de vida judaica, especialmente porque você não necessitava desse tipo de ajuda: era de uma estirpe muito forte e dificilmente a sua pessoa podia ser abalada por escrúpulos religiosos quando estes não estavam muito misturados com escrúpulos sociais. No fundo, a fé que guiava sua vida consistia em acreditar na correção indiscutível das opiniões de uma determinada classe social judaica; portanto, na medida em que essas opiniões faziam parte do seu ser, você na realidade acreditava em si mesmo. Também aí ainda havia bastante judaísmo, mas para ser transmitido ao filho era muito pouco, e enquanto você o transmitia ele foi-se perdendo lentamente até a última gota. Eram em parte impressões intransferíveis da juventude, em parte o seu temido ser. Impossível também tornar compreensível a um filho com uma capacidade de observação exacerbada por puro medo que as poucas futilidades que você praticava em nome do judaísmo - com uma indiferença correspondente a elas - podiam ter um sentido mais alto. Para você elas tinham sentido como pequenas recordações dos tempos passados e por isso queria transmiti-las a mim; mas uma vez que também para você elas não tinham valor intrínseco, isso só era possível através da insistência ou da ameaça; por um lado, a coisa não podia dar certo, por outro, na medida em que aqui você não reconhecia de modo algum a fraqueza da sua posição, tinha de ficar furioso comigo por causa da minha aparente teimosia.&lt;br /&gt;Certamente esse conjunto não é um fenômeno isolado; sucedia coisa semelhante a uma grande parte dessa geração de transição de judeus que emigraram do campo ainda relativamente religioso para as cidades; era um resultado espontâneo, só que acrescentava à nossa relação, na qual por certo não faltavam atritos, mais um, bastante doloroso. Por outro lado, também aqui você deve, da mesma maneira que eu, acreditar na sua ausência de culpa, mas precisa explicá-la pelo seu modo de ser e pelas relações históricas, e não meramente pelas circunstâncias externas; portanto, não dizer que, por exemplo, teve trabalho e preocupações demais para poder além disso se ocupar dessas questões. Era desse modo que costumava virar as coisas e transformar a sua inquestionável ausência de culpa numa acusação injusta contra os outros. É muito fácil rebater isso em qualquer parte e aqui também. Sem dúvida não se tratava de algum ensinamento que você devesse ter dado aos seus filhos, mas sim de uma vida exemplar; se o seu judaísmo tivesse sido mais forte, o seu exemplo também teria sido mais convincente; isso é óbvio e mais uma vez não constitui, de modo algum, uma recriminação, apenas uma defesa contra as recriminações que você faz. Não faz muito tempo, você leu as memórias de juventude de Franklinxxi. Realmente eu as dei de propósito para que as lesse; não porém, como você observou com ironia, por causa de um pequeno trecho sobre vegetarianismo, mas por causa da relação entre o autor e seu pai, tal como ela é ali descrita, e da relação entre o autor e seu filho, tal como ela se manifesta claramente nessas recordações escritas para o filho. Mas não quero destacar nenhum detalhe.&lt;br /&gt;Recebi uma certa confirmação posterior dessa concepção do seu judaísmo também através do seu comportamento nos últimos anos, quando Ihe pareceu que eu me ocupava mais com os assuntos judaicos. Como você tem, de antemão, antipatia por qualquer ocupação minha, e particularmente pela maneira como esse interesse se expressa, também neste caso você a sentiu. Mas mesmo assim seria possível esperar que aqui você fizesse uma pequena exceção. Sem dúvida era o judaísmo do seu judaísmo que aí revivia e com ele também a possibilidade de estabelecer novas relações entre nós. Não nego que essas coisas, caso você tivesse mostrado interesse por elas, teriam, justamente por isso, se tornado suspeitas para mim. É claro que não me ocorre querer afirmar que neste aspecto eu seja de algum modo melhor que você. Mas à comprovação disto nunca se chegou. Por meu intermédio o judaísmo se tornou repulsivo para você, os escritos judaicos , "ilegíveis" , "causavam-lhe asco" . Isso podia significar que você insistia em que a única coisa certa era exatamente o judaísmo que me havia mostrado na minha infância; além dele não existia nada. Mas que você insistisse nisso era uma coisa quase inconcebível. Sendo assim o "asco" (sem levar em conta que ele se dirigia em primeiro lugar não contra o judaísmo, mas contra a minha pessoa) só podia significar que você reconhecia inconscientemente a fragilidade do seu judaísmo e da minha educação judaica, e não queria de forma alguma ser lembrado disso, reagindo a qualquer lembrança com ódio declarado. Aliás, a sua supervalorização negativa do meu novo judaísmo era muito exagerada; em primeiro lugar, ele já incluía a sua maldição e, em segundo - uma vez que a relação fundamental com os semelhantes era decisiva para o seu desenvolvimento - ele foi mortal no meu caso.&lt;br /&gt;Com a sua antipatia você atingiu, de modo mais certeiro, a minha atividade de escritor e as coisas relacionadas com ela, que lhe eram desconhecidas. Aqui de fato eu me havia distanciado com certa autonomia, embora lembrasse um pouco a minhoca que, esmagada por um pé na parte de trás, se liberta com a parte dianteira e se arrasta para o lado. De certa maneira eu estava em segurança, havia um sopro de alívio, a aversão que naturalmente você logo teve pelo que eu escrevia foi neste ponto excepcionalmente bem-vinda. É fato que minha vaidade e minha ambição sofriam com a acolhida que dava aos meus livros, famosa entre nós: "Ponha em cima do criado-mudo!" (em geral você estava jogando baralho quando chegava um livro), mas no fundo eu me sentia bem com isso, não só por uma maldade que se insurgia, não só por júbilo com uma nova confirmação do modo como eu concebia a nossa relação, mas sim porque, bem na sua origem, aquela fórmula soava para mim mais ou menos como: "Agora você está livre!" Tratava-se, é claro, de um engano: nem eu era livre nem, no melhor dos casos, ainda não o era. Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito. Eram uma despedida intencionalmente prolongada de você; só que ela, apesar de imposta por você, corria na direção definida por mim. Mas como tudo isso era pouco! Só vale a pena falar a respeito porque aconteceu na minha vida, em qualquer outro lugar essa atividade não seria absolutamente notada, e mesmo assim porque dominava minha vida, na infância como pressentimento, mais tarde como esperança, mais tarde ainda como desespero, ditando-me - se se quiser, novamente de acordo com o seu figurino - minhas poucas e pequenas decisões.&lt;br /&gt;Por exemplo, a escolha da profissão. Claro, aqui você me deu plena liberdade, à sua maneira generosa e neste sentido até paciente. Não obstante, também neste caso você seguiu o tratamento geral dispensado aos filhos pela classe média judaica, ou pelo menos os juízos de valor dessa classe, tratamento que lhe servia de modelo. No final, ainda aqui, interveio um dos seus mal-entendidos sobre a minha pessoa. É que por orgulho de pai, por desconhecimento da minha verdadeira natureza, por influência da minha fragilidade você sempre me considerou particularmente trabalhador. Na sua opinião, estudei sem parar quando era criança e mais tarde escrevi sem parar. Ora, nem de longe isso é verdade. Pode-se dizer, pelo contrário, com muito menos exagero, que estudei pouco e não aprendi nada; não é de admirar muito que alguma coisa tenha ficado, em tantos anos, com uma memória mediana e uma capacidade de compreensão que não é das piores; mas de qualquer forma o resultado geral em conhecimento, e sobretudo em fundamentação do conhecimento, é extremamente lastimável diante do dispêndio de tempo e dinheiro, em meio a uma vida externa despreocupada e tranqüila, principalmente em comparação com quase todas as pessoas que eu conheço. E lastimável, mas para mim compreensível. Desde que comecei a pensar, tive uma preocupação tão profunda com a afirmação espiritual da minha existência, que tudo o mais me foi indiferente. Os ginasianos judeus entre nós são muito estranhos, encontra-se aí o que há de mais inverossímil, mas a minha indiferença - fria, apenas velada, indestrutível, infantilmente desamparada, chegando às raias do ridículo, de uma auto-satisfação animal, num menino parcamente dotado de fantasia como eu - isso não voltei a ver em lugar nenhum; no entanto aqui ela era a única proteção contra o desgaste dos nervos provocado pelo medo e pela consciência de culpa. Eu só cuidava da preocupação comigo mesmo, mas ela assumia diversas formas. Por exemplo, preocupação com a minha saúde; começou leve, de vez em quando me assaltava um pequeno temor por causa da digestão, da queda dos cabelos, de um desvio da coluna e assim por diante; ela aumentava em gradações incontáveis, até no fim acabar numa doença real. Mas uma vez que eu não estava seguro de coisa alguma, como precisava obter de cada instante uma nova confirmação da minha existência e não possuía nada de um modo próprio, indubitável, exclusivo, decidido apenas por mim - um filho deserdado, na verdade - era natural que até a coisa mais próxima, o próprio corpo, se tornasse incerto para mim; cresci e espichei para cima, mas não sabia o que fazer com isso, o fardo era pesado demais, a coluna ficou encurvada; mal ousava me mover, menos ainda fazer exercícios, e permaneci fraco; tudo aquilo de que dispunha me espantava como um milagre, por exemplo minha boa digestão; isso foi o bastante para perdê-la, e assim ficou aberto o caminho para toda hipocondria, até que, com o esforço sobre-humano de querer casar (vou ainda falar sobre isso), o sangue me saiu dos pulmões, para o que deve ter contribuído o apartamento do palácio Schönbornxxii - do qual eu precisava só porque o achava necessário para escrever, e é por isso que ele também deve constar desta carta. Portanto nada provinha do trabalho excessivo, como você sempre imagina. Houve anos em que, com plena saúde, passei vegetando no canapé mais tempo do que você a vida inteira, incluindo todas as doenças. Quando eu corria de você, sumamente atarefado, era, na maioria das vezes para ficar deitado no meu quarto. Tanto no escritório (onde entretanto a preguiça não chama muito a atenção e onde, além disso, ela era mantida dentro de limites pelo meu medo), como em casa, meu rendimento geral era mínimo; você ficaria horrorizado se tivesse uma idéia geral a esse respeito. Provavelmente não sou preguiçoso por natureza, mas eu não tinha nada para fazer. Onde quer que vivesse, eu me sentia recriminado, condenado, batido, e na verdade o meu maior esforço era fugir para qualquer outro lugar, mas isso não era trabalho, pois se tratava de algo impossível e, com raras exceções, inacessível às minhas forças.&lt;br /&gt;Foi nesse estado, pois, que recebi a liberdade de escolher uma profissão. Mas será que eu ainda era realmente capaz de usar essa liberdade? Julgava-me ainda em condições de chegar a ter uma verdadeira profissão? Minha auto-avaliação era muito mais dependente de você do que de qualquer outra coisa, por exemplo de um êxito externo. Este era o reforço de um instante, mais nada, no entanto do outro lado o seu peso me puxava para baixo com muito mais vigor. Eu pensava: nunca vou passar do primeiro ano primário, mas consegui e até recebi um prêmio; certamente porém não vou ser aprovado na admissão ao ginásio, mas fui bem-sucedido; agora entretanto vou sem dúvida fracassar no primeiro ano ginasial - não, não fracassei, e assim continuei sempre em frente. Mas o efeito não foi um incremento de confiança; pelo contrário, sempre estive convencido - e tinha a prova formal disso na sua cara de rejeição - de que quanto mais êxito tivesse, pior deveria ser o resultado final. Muitas vezes eu via mentalmente a medonha assembléia de professores (o ginásio é apenas o exemplo mais homogêneo, mas por toda parte ao meu redor era parecido), que iria se reunir quando eu tivesse passado a primeira série, ou seja, estivesse na segunda; quando tivesse passado esta, ou seja, na terceira, e assim por diante - para investigar esse caso único, que clamava ao céu, e perguntar como eu, o mais incapaz e seja como for o mais ignorante, tinha conseguido chega sub-repticiamente até aquela série; e uma vez que a atenção geral estava voltada para mim, eles naturalmente me cuspiriam fora sem mais delongas, para júbilo de todos os justos libertados desse pesadelo. Para uma criança não é fácil viver com essas imagens. Em tais circunstâncias, que me importavam as aulas? Quem era capaz de arrancar de mim uma fagulha de interesse? A mim as aulas - e não só elas, mas tudo em volta, nessa idade decisiva - interessavam mais ou menos como interessam a um funcionário de banco que deu um desfalque, mas que ainda está no emprego e treme de medo de ser descoberto, as pequenas operações correntes do negócio bancário que ele ainda precisa realizar como funcionário. Tudo tão pequeno, tão distante em relação ao essencial. Assim continuaram as coisas até o exame final do curso secundário, no qual realmente só fui aprovado graças em parte à fraude, e então tudo estacou: agora eu estava livre. Se a despeito da coerção do ginásio e do colégio eu já me preocupava só comigo mesmo, como seria agora, que estava livre? Para mim, portanto, não houve propriamente liberdade de escolha da profissão, pois eu sabia que diante do essencial tudo me seria tão indiferente como todas as matérias letivas do secundário; tratava-se pois de encontrar uma profissão que, sem ferir demais a minha vaidade, permitisse, mais que qualquer outra, essa indiferença. O mais natural, portanto, era Direito. Pequenas tentativas em sentido contrário, nascidas da vaidade e da esperança insensata, como duas semanas de estudo de Química, meio ano de estudos germanísticos, só fortaleciam aquela convicção básica. Estudei, pois, Direito. Isso significava que nos poucos meses antes das provas, com régio prejuízo dos nervos, eu alimentava o espírito literalmente de serragem, que além do mais já tinha sido mastigada por mil bocas antes de mim. Mas em certo sentido isso me sabia bem - justamente como antes, num certo sentido, também o secundário e, mais tarde, a profissão de burocrata, pois tudo correspondia perfeitamente à minha situação. Seja como for, mostrei aqui uma previsão espantosa: quando menino já tinha pressentimentos suficientemente claros a respeito de estudos e profissão. A partir daí não esperava nenhuma salvação, fazia muito tempo que havia renunciado a ela.&lt;br /&gt;Mas não mostrei previsão alguma a respeito do significado e da possibilidade de um casamento: para mim esse terror, até agora o maior da minha vida, sobreveio de maneira quase inteiramente inesperada. O menino tinha evoluído tão devagar, essas coisas estavam tão apartadas dele, de vez em quando se manifestava a necessidade de pensar nisso, mas não era possível reconhecer que aqui se preparava uma prova duradoura, decisiva, até mesmo a mais amarga de todas. Mas na realidade as tentativas de casamento se tornaram a tentativa de salvação mais grandiosa e mais cheia de esperança, e o fracasso depois foi com certeza de uma grandiosidade correspondente.&lt;br /&gt;Uma vez que nessa área tudo me sai mal, temo que também não vou conseguir tornar compreensível a você minhas tentativas de casamento. E no entanto o êxito de toda esta carta depende disso, pois por um lado tudo aquilo de que eu dispunha em forças positivas se reunia nessas tentativas e, por outro, aqui também se juntavam, com verdadeira fúria, todas as forças negativas que eu descrevi como seqüela da sua educação, ou seja, a fraqueza, a falta de autoconfiança, a consciência de culpa, que literalmente estendiam um cordão de isolamento entre mim e o casamento. A explicação também será difícil porque repensei e revolvi tudo sem cessar, durante dias e noites, de tal modo que agora a visão é confusa até para mim. A explicação só me fica facilitada pela compreensão, a meu ver totalmente equivocada, que você tem do problema; não parece demasiado difícil corrigir, um pouco, mal-entendido tão completo.&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, você inclui na lista dos meus outros fracassos o malogro diante do casamento; eu não teria nada contra isso desde que você aceitasse a explicação que dei até agora do meu insucesso. De fato ele entra na lista só porque você deprecia o significado da questão - e o deprecia de tal forma que nós, quando conversamos a respeito, na verdade falamos de coisas inteiramente diferentes. Ouso dizer que em toda a sua vida não aconteceu nada que tivesse assumido um tal significado para você como, para mim, as tentativas de casamento. Não quero dizer com isso que não tenha vivido nada tão importante; pelo contrário, sua vida foi muito mais rica, cheia de preocupações e densa do que a minha, mas exatamente por isso não lhe aconteceu nada dessa natureza. É como se alguém tivesse de subir cinco degraus de escada e uma segunda pessoa apenas um degrau, mas que, pelo menos para ela, é tão alto quanto aqueles cinco juntos; o primeiro vai vencer não só os cinco degraus, mas também centenas e milhares de outros, terá levado uma vida ampla e muito fatigante, porém nenhum dos degraus que subiu terá sido para ele tão importante como, para o segundo, aquele degrau único, primeiro, alto, impossível de escalar com as forças todas de que dispõe, e que ele não só não pode subir, como também passar por cima.&lt;br /&gt;Estou convencido de que casar, fundar uma família, acolher todos os filhos que vierem, mantê-los neste mundo inseguro e guiá-los um pouco, é o máximo que um homem pode em geral conseguir. O fato de serem tantos os que o conseguem não é uma prova em contrário, pois em primeiro lugar efetivamente não são muitos os que conseguem, e em segundo esses poucos não o "fazem", simplesmente "acontece" com eles; na verdade não é aquele máximo, mas é algo muito grande e muito honroso (principalmente porque "fazer" e "acontecer" não se deixam distinguir nitidamente um do outro). E afinal também não se trata de modo algum desse máximo, e sim de alguma aproximação remota, porém decente; sem dúvida não é necessário voar para o meio do sol, mas ir rastejando até um lugarzinho limpo sobre a terra, onde ele às vezes brilha e onde é possível se aquecer um pouco.&lt;br /&gt;Como é que eu estava preparado para isso? Da pior maneira possível. Já se pode deduzi-lo do que foi dito até aqui. Mas até o ponto em que existe uma preparação direta do indivíduo e uma criação direta das condições básicas gerais, você exteriormente interveio pouco. Também não há outra possibilidade, pois aqui decidem os costumes sexuais gerais da classe, do povo e da época. Seja como for, também aí você interveio, não muito, pois o pressuposto para essa intervenção só pode ser a forte confiança mútua, e ela nos faltou a ambos já muito antes do momento decisivo; e não foi uma intervenção muito feliz porque nossas necessidades eram completamente diferentes: o que me arrebata é capaz de deixá-lo quase insensível e vice-versa; o que em você é inocência, em mim pode ser culpa e vice-versa; o que para você não tem conseqüências pode ser a tampa do meu caixão.&lt;br /&gt;Eu me recordo: certa vez estava passeando à noite com você e minha mãe; era na Josefsplatz, perto do atual Banco das Províncias e eu comecei a falar tolamente, com empáfia, superioridade, orgulho, sobriedade (falsa), frieza (autêntica) e gaguejando, como na maioria das vezes falava com você, sobre coisas de interesse, recriminei-os pelo fato de ter sido deixado na ignorância, de que só os meus colegas de classe precisaram se dar conta de que eu tinha chegado perto de grandes perigos (aqui, à minha maneira, menti vergonhosamente, para me mostrar corajoso, pois em decorrência da minha timidez não tinha uma idéia mais precisa dos "grandes perigos"), mas para concluir insinuei que agora felizmente já sabia de tudo, não precisava mais de conselho e as coisas estavam em ordem. Seja como for, eu tinha começado a falar daquilo porque me dava gosto, pelo menos de falar a respeito, mas depois também por curiosidade e finalmente para de algum modo me vingar em vocês de alguma coisa.&lt;br /&gt;De acordo com a sua natureza, você conduziu o assunto de um modo muito simples, disse apenas mais ou menos que poderia me dar um conselho sobre como eu poderia fazer essas coisas sem perigo. Talvez eu tivesse querido justamente provocar uma resposta assim, que sem dúvida correspondia à lubricidade do menino supernutrido de carne e de todas as coisas boas, fisicamente inativo e eternamente preocupado consigo mesmo, mas apesar disso o meu pudor ficou tão ferido - ou então eu acreditava que devia estar tão ferido assim - que contra a minha vontade não pude mais falar sobre aquilo com você e interrompi a conversa com uma altiva insolência.&lt;br /&gt;Não é fácil julgar a resposta que então você me deu: por um lado ela sem dúvida tinha algo de brutalmente franco, de certo modo primitivo, mas por outro, quanto ao ensinamento propriamente dito, ela é de uma desenvoltura muito do nosso tempo. Não sei que idade eu então tinha, certamente não mais que dezesseis anos. Mas para um rapaz como eu era uma resposta muito curiosa - e a distância entre nós dois se mostra também no fato de que era em verdade o primeiro ensinamento direto, de alcance para a vida, que eu recebia de você. Mas o seu verdadeiro sentido, que já então mergulhou no meu ser e que só muito mais tarde me veio pela metade à consciência, era o seguinte: aquilo que me aconselhava - na sua opinião e mais ainda na minha opinião da época - era a coisa mais suja que havia. O fato de você querer impedir que eu trouxesse para casa sujeira no corpo era secundário; com isso protegia só a si próprio e a sua casa. O essencial era muito mais que você ficava fora do seu conselho, um homem casado, um homem limpo, superior a essas coisas; para mim, provavelmente, naquela época, isso se agravava mais ainda pela circunstância de que também o casamento me parecia desavergonhado e que, portanto, era impossível que eu aplicasse aos meus pais o que eu tinha ouvido sobre o casamento em geral. Desse modo você se tornava mais puro ainda, elevava-se ainda mais. A idéia de que tivesse podido dar, também a si mesmo, um conselho semelhante antes do casamento, me era totalmente impensável. Assim, pois, não havia quase nenhum restinho de sujeira terrena em você. E no entanto, com algumas palavras francas você me atirava nessa sujeira como se eu estivesse destinado a ela. Pois se o mundo consistia apenas em mim e você - uma idéia a que muito me inclinava - então essa pureza do mundo acabava em você e comigo começava a sujeira, por força do seu conselho. A rigor era incompreensível que você me condenasse assim; a única coisa que me poderia tornar isso claro era a antiga culpa e o mais profundo desprezo da sua parte. Desse modo, portanto, eu era outra vez arrebatado no mais íntimo do meu ser - e muito duramente.&lt;br /&gt;Talvez seja aqui também o ponto em que a ausência de culpa de ambos fica mais clara. A dá a B um conselho franco, correspondente à sua concepção de vida, não muito bonito, mas de qualquer modo ainda hoje perfeitamente usual na cidade e que talvez impeça prejuízos à saúde. Moralmente esse conselho não é muito reconfortante para B, mas não há razão alguma para que, no curso dos anos, ele não se recupere do dano; de mais a mais, ele certamente não precisa seguir o conselho e, seja como for, não há no próprio conselho nenhum motivo para que todo o mundo futuro de B desmorone. E no entanto alguma coisa assim aconteceu, mas só porque você é A e eu sou B.&lt;br /&gt;Consigo ter uma visão global particularmente boa dessa ausência de culpa de ambos os lados porque, cerca de vinte anos mais tarde, voltou a ocorrer, em condições completamente diferentes, uma colisão semelhante entre nós - horrenda como fato concreto, mas em si mesma muito menos danosa, pois afinal onde havia em mim, aos trinta e seis anos de idade, alguma coisa que ainda pudesse ser danificada? Refiro-me a um breve pronunciamento seu num dos dias agitados depois da comunicação do meu último projeto de casamento. Você me disse mais ou menos o seguinte: "Provavelmente ela vestiu alguma blusa escolhida, como sabem fazer as judias de Praga, e naturalmente você logo decidiu casar com ela. E na verdade o mais rápido possível, numa semana, amanhã, hoje. Eu não o entendo, você já é uma pessoa adulta, vive na cidade, e não lhe ocorre coisa melhor do que se casar imediatamente com qualquer uma que aparece. Será que não existem outras possibilidades? Se você tem medo, eu o acompanho pessoalmente". Você falou isso de um modo mais minucioso e mais claro, mas já não consigo me lembrar dos pormenores, talvez a minha vista tenha ficado um pouco nublada, minha mãe quase me despertava mais interesse quando - não obstante estivesse completamente de acordo com você - pegou alguma coisa da mesa e saiu com ela da sala. Dificilmente você me humilhou mais fundo com palavras do que dessa vez, nem nunca o seu desprezo se mostrou mais nítido para mim. Quando, vinte anos antes, você falou comigo de forma semelhante, seria possível ver naquilo, inclusive com os seus olhos, um pouco de respeito pelo jovem precoce da cidade que, na sua opinião, já podia ser introduzido sem rodeios na vida. Hoje essa consideração poderia aumentar ainda mais o desprezo, pois o jovem, que na época tomava impulso, ficou empacado nele, e atualmente você o vê não mais rico em experiências, mas sim vinte anos mais deplorável. O fato de eu ter me decidido por uma moça não significa absolutamente nada para você. Você (inconscientemente) sempre manteve lá embaixo minha capacidade de decisão, e acreditava agora (inconscientemente) saber o que ela valia. Das minhas tentativas de salvação em outras direções você não sabia nada, por isso também não podia saber nada dos processos de pensamento que me haviam levado a essa decisão de me casar; precisava tentar adivinhá-los e, de acordo com o julgamento geral que tinha a meu respeito, me aconselhou o que há de mais abominável, grosseiro e ridículo. E não hesitou um só instante em me dizer isso exatamente daquela maneira. A vergonha que assim me causou não era nada em comparação com a vergonha que, na sua opinião, eu iria infligir ao seu nome com esse casamento.&lt;br /&gt;Ora, você pode me responder muitas coisas - e já o fez - a respeito das minhas tentativas de casamento: não seria possível ter muito respeito pela minha decisão, já que duas vezes desfiz e duas vezes assumi o noivado com F.xxiii , e já que arrastei inutilmente a Berlim você e minha mãe para o noivado e coisas desse gênero. É tudo verdade, mas como se chegou a isso?&lt;br /&gt;A idéia básica das duas tentativas de casamento era inteiramente correta: estabelecer um lar, ficar independente. Uma idéia que certamente lhe é simpática, só que na realidade ela não se realiza, à maneira do jogo infantil em que um segura a mão do outro, inclusive apertando-a, e grita: "Vá embora, vá embora! Por que você não vai embora?" O que, neste caso, se complicou, porque o "vá embora!" sempre foi dito com sinceridade, uma vez que desde sempre, sem o saber, apenas pela força do seu temperamento, você me retinha, ou melhor: me subjugava.&lt;br /&gt;As duas moçasxxiv foram de fato escolhidas por casualidade, mas extremamente bem escolhidas. Mais um indício da sua compreensão totalmente equivocada é o fato de que você possa crer que eu, o medroso, o hesitante, o desconfiado, me decida de um golpe por um casamento, fascinado talvez por uma blusa. Pelo contrário, ambos os casamentos teriam se tornado casamentos dirigidos pela razão, na medida em que toda a força do meu raciocínio foi dia e noite empregada nesse plano, a primeira vez durante anos, a segunda vez durante meses.&lt;br /&gt;Nenhuma das moças me decepcionou, só eu as decepcionei. Meu juízo sobre elas é exatamente o mesmo do tempo em que queria desposá-las.&lt;br /&gt;Não é que na segunda tentativa de casamento em tenha desconsiderado as experiências da primeira, ou seja: que tenha sido leviano. Os dois casos eram completamente diferentes um do outro, justamente as experiências anteriores podiam ter-me dado esperança no segundo caso, que tinha perspectivas mais ricas. Não quero aqui entrar em detalhes.&lt;br /&gt;Por que então não me casei? Havia obstáculos específicos, como em toda parte, mas a vida consiste exatamente em aceitar tais obstáculos. O obstáculo essencial, porém - infelizmente autônomo em relação ao caso individual - era que, do ponto de vista espiritual, sou manifestamente incapaz de me casar. Isso se expressa no fato de que, a partir do momento em que decido me casar, não consigo dormir, a cabeça arde dia e noite, isto já não é vida, fico oscilando desesperado de um lado para outro. Não são propriamente as preocupações que provocam isso, na verdade correm juntas inúmeras preocupações, de acordo com a minha melancolia e meticulosidade, mas não são elas o decisivo; de fato, elas levam a cabo, como os vermes, o trabalho no cadáver; o que me atinge de modo decisivo é uma outra coisa. É a pressão generalizada do medo, da fraqueza, do autodesprezo.&lt;br /&gt;Quero tentar explicá-lo melhor: na tentativa de casamento confluem, nas minhas relações com você, duas coisas aparentemente opostas, tão fortes como em nenhuma outra parte. O casamento é certamente a garantia da mais nítida autolibertação e independência. Eu teria uma família, o máximo que na minha opinião se pode alcançar, ou seja: também o máximo que você alcançou; eu seria igual a você, a velha e eternamente nova vergonha seria apenas uma história. Com certeza seria fabuloso, mas é justamente aí que está o problema. É algo excessivo, não se pode conseguir tanto assim. É como se alguém estivesse aprisionado e tivesse não só a intenção de fugir - o  que talvez fosse realizável - mas também, e na verdade ao mesmo tempo, a de transformar, para uso próprio, a prisão num castelo de prazeres. Mas se ele foge, não pode fazer essa transformação, e se a faz, não pode fugir. Se eu quiser me tornar independente, na relação especial de infelicidade em que me encontro com você, preciso fazer alguma coisa que não tenha a menor ligação possível com a sua pessoa; o casamento é sem dúvida o que há de maior, e confere a autonomia mais honrosa; mas também está, ao mesmo tempo, na mais estreita vinculação com você. Por esse motivo, querer sair daí tem algo de delirante, e qualquer tentativa é quase punida com a loucura.&lt;br /&gt;É justamente essa relação estreita que em parte também me atrai para o casamento. A igualdade que então surgiria entre nós, e que você poderia compreender como nenhuma outra, eu a imagino tão bela porque então seria um filho livre, grato, sem culpa, sincero, e você um pai sem angústia, não despótico, compreensivo, satisfeito. Mas para chegar a esse objetivo, tudo o que aconteceu teria de ser desfeito, isto é: nós mesmos teríamos de ser apagados. Assim como somos, porém, o casamento me está vedado pelo fato de que ele é precisamente o seu domínio mais próprio. As vezes imagino um mapa-múndi aberto e você estendido transversalmente sobre ele. Para mim, então, é como se entrassem em consideração apenas as regiões que você não cobre ou que não estão ao seu alcance. De acordo com a imagem que tenho do seu tamanho, essas regiões não são muitas nem muito consoladoras, e o casamento não está entre elas.&lt;br /&gt;Já esta comparação prova que não quero de modo algum dizer que, com o seu exemplo, você me expulsou do casamento, mais ou menos do mesmo modo que me afugentou da loja. Pelo contrário - a despeito de qualquer remota semelhança. Para mim, o casamento de vocês era, em muitos aspectos, um modelo, na fidelidade, na ajuda mútua, no número de filhos; e mesmo depois, quando os filhos ficaram grandes e perturbaram cada vez mais a paz, o casamento como tal permaneceu incólume. Talvez tenha sido exatamente nesse exemplo que também se formou o meu alto conceito do casamento; o fato de que o anseio por ele foi impotente, certamente tinha outros motivos. Eles estavam radicados na sua relação com os filhos, que na verdade é o tema de toda esta carta.&lt;br /&gt;Existe uma opinião segundo a qual o medo ao casamento às vezes deriva do temor de que os filhos mais tarde farão a pessoa pagar pelos pecados que cometeu contra os próprios pais. Creio que no meu caso isso não tem maior significado, pois a minha consciência de culpa na verdade provém de você e também está demasiadamente impregnada da própria singularidade; esse sentimento de singularidade com certeza faz parte da sua torturante natureza, e uma repetição é inimaginável. Devo contudo dizer que um filho assim, mudo, apático, seco, arruinado, seria insuportável para mim; se não houvesse nenhuma outra possibilidade, eu sem dúvida fugiria dele, emigraria, como você queria fazer por causa do meu casamento. Portanto, a minha incapacidade para casar também pode estar influenciada por isso.&lt;br /&gt;Mas muito mais importante é o receio por mim mesmo. Ele deve ser entendido assim: já insinuei que na minha atividade literária e naquilo que se relaciona com ela efetuei pequenas tentativas de independência e evasão com um resultado quase nulo; muita coisa me confirma que dificilmente elas terão continuidade. Apesar disso é meu dever, ou antes: minha vida consiste em velar por elas, em não deixar que se aproxime perigo algum que eu possa repelir - com efeito, nem mesmo a possibilidade desse perigo. O casamento é a possibilidade desse perigo, muito embora seja também a possibilidade do maior progresso; a mim porém basta a circunstância de que ele é a possibilidade de um perigo. O que então eu faria se de fato fosse um perigo? Como poderia continuar a viver dentro do casamento com o sentimento talvez indemonstrável, mas de qualquer modo irretorquível, desse perigo? Diante disso posso em verdade oscilar, mas a saída final é certa: preciso renunciar. A comparação do pássaro na mão e os outros dois voandoxxv só se aplica aqui muito remotamente. Na mão eu não tenho nada, todos os pássaros estão voando e no entanto eu preciso - assim o determinam as condições da luta e a miséria da vida - escolher o nada. Também na escolha da profissão tive que fazer uma opção semelhante.&lt;br /&gt;Mas o obstáculo mais importante ao casamento é a convicção já inextirpável de que tudo o que é necessário ao sustento da família ou mesmo à sua direção é aquilo que reconheci em você - na verdade tudo junto, o bom e o mau, tal como isso está organicamente unificado em você, ou seja: força e desdém pelo outro, saúde e uma certa falta de medida, dom oratório e insuficiência, autoconfiança e insatisfação com todos, superioridade diante do mundo e tirania, conhecimento dos homens e desconfiança em relação à maioria; depois, virtudes sem qualquer desvantagem, como operosidade, perseverança, presença de espírito, esperança, intrepidez. De tudo isso eu não tinha comparativamente quase nada, ou só muito pouco; e no entanto, como queria me atrever a casar, vendo que mesmo você precisava trabalhar duramente no casamento e diante dos filhos até fracassava? Como é natural, não me colocava explicitamente essa pergunta, nem a respondia de maneira explícita; caso contrário, o modo usual de pensar teria se apoderado da questão e me mostrado outros homens distintos de você (para citar um que está próximo e é muito diferente: tio Richardxxvi) que se casaram e pelo menos não se arruinaram com isso, o que já é muito e teria me bastado fartamente. Mas não coloquei essa questão, e sim a vivi desde a infância. De início certamente não testei a mim mesmo diante do casamento, mas de qualquer insignificância; e diante de qualquer insignificância você me convencia, pelo exemplo e pela sua educação - tal como tentei descrevê-la - da minha incapacidade; e o que era válido em qualquer insignificância e lhe dava razão, tinha, é claro, de ser monstruosamente válido diante da coisa mais importante, ou seja: diante do casamento. Até as minhas tentativas de casamento, cresci mais ou menos como um homem de negócios que de fato vive o dia-a-dia com preocupações e maus pressentimentos, mas sem uma contabilidade precisa. Tudo é registrado, mas nunca submetido a um balanço. Chega porém o momento em que o balanço é forçoso, ou seja: a tentativa de casamento. E no que diz respeito às grandes somas com que é preciso contar, é como se aqui nunca tivesse existido o mínimo ganho e tudo fosse tão-somente uma grande dívida. Agora case, sem ficar louco!&lt;br /&gt;Assim termina minha vida até agora com você - e ela carrega consigo essas perspectivas para o futuro.&lt;br /&gt;Caso abarcasse com o olhar minha fundamentação do medo que tenho de você, então você poderia responder: "Você afirma que eu simplifico a meu favor quando explico minha relação com você apenas através da sua culpa; mas acredito que, apesar do esforço aparente, você a torna, se não mais difícil, pelo menos bem mais em conta naquilo que lhe diz respeito. Em primeiro lugar, rejeita qualquer culpa e responsabilidade da sua parte e nisso, portanto, nosso comportamento é o mesmo. Mas ao passo que atribuo toda a culpa a você, com a franqueza que está nos meus propósitos, a sua vontade é ser 'supersensato' e 'superafetuoso', absolvendo-me também de qualquer culpa. Naturalmente só na aparência você consegue essa última absolvição (mais que isso você também não quer) e o resultado é que, nas entrelinhas, e a despeito de todos os 'discursos' sobre modo de ser, natureza, oposição e desamparo, fui eu o agressor, enquanto tudo o que você fez foi apenas autodefesa. Portanto, agora você já teria conseguido o bastante com sua insinceridade, pois provou três coisas: primeiro, que você é inocente; segundo, que sou culpado, e terceiro, que por pura grandiosidade você está disposto não só a me perdoar, mas - o que é mais ou menos o mesmo - demonstrar e crer pessoalmente que eu, seja como for contra a verdade, também sou inocente. Isso poderia por ora lhe bastar, mas ainda não basta. De fato você pôs na cabeça que quer viver inteiramente às minhas custas. Admito que lutamos um com o outro, mas há dois tipos de luta: o combate cavalheiresco, onde se medem as forças de contendores independentes e cada qual responde por si, perde por si e ganha por si.  E a lura do inseto daninho, que não só pica, mas também suga simultaneamente o sangue para conservar a vida. Este é o verdadeiro soldado profissional, e você é isso. Está inadaptado para a vida; para poder se instalar confortavelmente nela, despreocupado e sem auto-recriminações, você demonstra que eu lhe tirei toda a capacidade para a vida e a enfiei no meu bolso. Que importa agora que você seja incapaz para ela? A responsabilidade é minha, mas você se espreguiça tranqüilamente e se faz arrastar física e espiritualmente por mim. Um exemplo: quando há pouco você queria se casar, não queria ao mesmo tempo se casar - é o que admite nesta carta; mas para não ter muito trabalho, queria que eu o ajudasse a não se casar, na medida em que, por causa da 'vergonha' que a ligação infligiria ao meu nome, eu o proibia desse casamento. Ora, isso não me ocorreu de maneira alguma. Em primeiro lugar, tanto aqui como noutra parte, nunca quis ser 'um obstáculo à sua felicidade', e em segundo, não quero jamais ouvir de um filho meu uma censura dessa natureza. Mas será que a auto-superação, com a qual lhe abri caminho ao casamento, ajudou alguma coisa? Absolutamente nada. Minha aversão ao seu casamento não o teria impedido; pelo contrário, teria sido um estímulo para você se casar com a moça, pois a 'tentativa de evasão', conforme você se expressa, teria assim se tornado sem dúvida completa. E minha permissão para o casamento não teria evitado suas recriminações, pois você certamente demonstra que de qualquer modo sou culpado por não se casar. No fundo, porém, aqui e em toda parte, você não me provou nada a não ser que todas as minhas recriminações eram justificadas e que faltou entre elas uma especialmente legítima, ou seja: a recriminação da insinceridade, da bajulação, do parasitismo. Se não me equivoco muito, você ainda está parasitando em mim com esta carta" .&lt;br /&gt;A isso respondo que, em primeiro lugar, toda essa objeção, que pode em parte também se voltar contra você, não vem de você mas de mim. Nem mesmo sua desconfiança dos outros é tão grande quanto a minha autodesconfiança, para a qual me educou. Não nego à objeção uma cerca legitimidade, que além do mais contribui com algo novo para a caracterização do nosso relacionamento. É claro que na realidade as coisas não se encaixam tão bem como as provas contidas na minha carta, pois a vida é mais que um jogo de paciência; mas com a correção que resulta dessa réplica - que não posso nem quero estender aos detalhes - alcançou a meu ver alguma coisa tão próxima da verdade, que pode nos tranqüilizar um pouco e tornar a vida e a morte mais leves para ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;i Balneário no noroeste da Boêmia, onde os pais de Kafka costumavam passar as férias de verão. (N. T.)&lt;br /&gt;ii Irmã caçula de Kafka, sua predileta. (N. T.)&lt;br /&gt;iii Robert Kafka era tio do escrito e Karl Hermann seu cunhado, casado com Elli, a irmã mais velha. (N. T.)&lt;br /&gt;iv Irmãos do pai de Kafka. O primeiro era comerciante, o segundo agente de seguros e o terceiro também comerciante. (N. T.)&lt;br /&gt;v A "irmã do meio" de Kafka, entre Elli e Ottla. (N. T.)&lt;br /&gt;vi Sobrinho de Kafka, filho da irmã Elli. (N. T.)&lt;br /&gt;vii Assim no original. Termo tcheco que designa o balcão ou a varanda de uma casa. (N. T.)&lt;br /&gt;viii Apelido familiar de Joseph Pollak, cunhado de Kafka, casado com a irmã Valli. (N. T.)&lt;br /&gt;ix Assim no original. Termo iídiche que significa "absurdo", "amalucado". (N. T.)&lt;br /&gt;x Kafka refere-se aqui a um ditado mencionado em outra parte de sua obra, que afirma: "Quem dorme com cães, acorda com pulgas". (N. T.)&lt;br /&gt;xi A expressão corresponde ao espírito, mas não à letra, da fala original: "Vou estraçalhá-lo como a um peixe". (N. T.)&lt;br /&gt;xii Elli era a mais velha das três irmãs de Kafka. (N. T.)&lt;br /&gt;xiii Ottla, a irmã caçula de Kafka, decidiu administrar sozinha uma propriedade rural em Zürau, onde o próprio escritor passou longas temporadas em 1917 e 1918·(N.·T.)&lt;br /&gt;xiv Companhia particular de seguros em Praga, onde Kafka trabalhou por algum tempo, logo depois de ter se formado em Direito. (N. T.)&lt;br /&gt;xv Filho de Elli e Karl Hermann. (N. T.)&lt;br /&gt;xvi Prima de Kafka, filha do seu tio Ludwig, que trabalhou na loja do pai do escritor durante a Primeira Guerra Mundial. (N. T.)&lt;br /&gt;xvii Referência à frase final do romance O Processo, quando o personagem Joseph K. é morto. (N. T.)&lt;br /&gt;xviii Alusão metafórica aos rolos da Torá conservados na Arca Sagrada. (N. T.)&lt;br /&gt;xix Assim no original. Maioridade do jovem judeu aos 13 anos de idade. (N. T.)&lt;br /&gt;xx Assim no original. Nome das duas primeiras noites da festa de Páscoa (Pessach) judaica. (N. T.)&lt;br /&gt;xxi Referência à autobiografia do político, cientista e escritor norte-americano Benjamin Franklin (1706-1790). (N. T.)&lt;br /&gt;xxii Edifício de Praga onde Kafka morou em 1917. (N. T.)&lt;br /&gt;xxiii Felice Bauer. Em maio de 1914 Kafka ficou noivo de Felice Bauer e em julho do mesmo ano rompeu o noivado. A história se repetiu nos mesmos termos em julho e dezembro de 1917. (N. T.)&lt;br /&gt;xxiv Felice Bauer e Julie Wohryzek. (N. T.)&lt;br /&gt;xxv O provérbio aqui usado por Kafka tem o mesmo sentido, embora o teor verbal seja um pouco diferente: "O pardal na mão e a pomba no telhado". (N. T.)&lt;br /&gt;xxvi Richard Löwy. advogado em Praga. (N. T.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3909042165508243234-2054443210296882391?l=contoscitados.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contoscitados.blogspot.com/feeds/2054443210296882391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/02/carta-ao-pai-franz-kafka.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/2054443210296882391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/2054443210296882391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/02/carta-ao-pai-franz-kafka.html' title='CARTA AO PAI - FRANZ KAFKA'/><author><name>?                      ?</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09677894121972171715</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234.post-5846791317358043887</id><published>2010-02-01T04:11:00.000-08:00</published><updated>2010-02-01T04:13:46.280-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A METAMORFOSE'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='TEXTO INTEGRAL'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='FRANZ KAFKA'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='TEXTO COMPLETO'/><title type='text'>A METAMORFOSE - FRANZ KAFKA</title><content type='html'>&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 9"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 9"&gt;&lt;link rel="File-List" href="file:///C:/DOCUME%7E1/MARGAR%7E1/CONFIG%7E1/Temp/msoclip1/01/clip_filelist.xml"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:donotoptimizeforbrowser/&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Font Definitions */ @font-face 	{font-family:Verdana; 	panose-1:2 11 6 4 3 5 4 4 2 4; 	mso-font-charset:0; 	mso-generic-font-family:swiss; 	mso-font-pitch:variable; 	mso-font-signature:536871559 0 0 0 415 0;}  /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-parent:""; 	margin:0cm; 	margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} h1 	{margin-right:0cm; 	mso-margin-top-alt:auto; 	mso-margin-bottom-alt:auto; 	margin-left:0cm; 	mso-pagination:widow-orphan; 	mso-outline-level:1; 	font-size:24.0pt; 	font-family:"Times New Roman";} p.MsoList, li.MsoList, div.MsoList 	{margin-right:0cm; 	mso-margin-top-alt:auto; 	mso-margin-bottom-alt:auto; 	margin-left:0cm; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} p.MsoBodyText, li.MsoBodyText, div.MsoBodyText 	{margin-right:0cm; 	mso-margin-top-alt:auto; 	mso-margin-bottom-alt:auto; 	margin-left:0cm; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} a:link, span.MsoHyperlink 	{color:blue; 	text-decoration:underline; 	text-underline:single;} a:visited, span.MsoHyperlinkFollowed 	{color:purple; 	text-decoration:underline; 	text-underline:single;} @page Section1 	{size:21.0cm 842.0pt; 	margin:70.9pt 3.0cm 70.9pt 3.0cm; 	mso-header-margin:35.45pt; 	mso-footer-margin:35.45pt; 	mso-vertical-page-align:middle; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A Metamorfose&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoList" style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Franz Kafka&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;h1 style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Que me aconteceu? - pensou. Não era um sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado - ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico.  Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? - cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas.  Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi!  Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, - mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era capaz de ser bom para mim - quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido.  Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem - o que deve levar outros cinco ou seis anos -, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda.  Pai do Céu! - pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado?  Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora?  O próximo trem saía às sete; para apanhá-lo tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregor sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama - o despertador acabava de indicar quinze para as sete -, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor - disse uma voz, que era a da mãe -, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Aquela voz suave! Gregor teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregor queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação, afastando se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da família notarem que Gregor estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor, Gregor - chamou -, o que você tem?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor! Gregor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Junto da outra porta lateral, a irmã chamava, em tom baixo e quase lamentoso:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Respondeu a ambos ao mesmo tempo:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Estou quase pronto - e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas a irmã segredou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor, abre esta porta, anda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ele não tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A sua intenção imediata era levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posições incômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer nada, perguntou Gregor a si próprio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma idéia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Visto isso, tentou extrair primeiro a parte superior, deslizando cuidadosamente a cabeça para a borda da cama.  Descobriu ser fácil e, apesar da sua largura e volume, o corpo acabou por acompanhar lentamente o movimento da cabeça. Ao conseguir, por fim, mover a cabeça até à borda da cama, sentiu-se demasiado assustado para prosseguir o avanço, dado que, no fim de contas caso se deixasse cair naquela posição, só um milagre o salvaria de magoar a cabeça. E, custasse o que custasse, não podia perder os sentidos nesta altura, precisamente nesta altura; era preferível ficar na cama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Quando, após repetir os mesmos esforços, ficou novamente deitado na posição primitiva, suspirando, e viu as pequenas pernas a entrechocarem-se mais violentamente que nunca, se possível, não divisando processo de introduzir qualquer ordem naquela arbitrária confusão, repetiu a si próprio que era impossível ficar na cama e que o mais sensato era arriscar tudo pela menor esperança de libertar-se dela. Ao mesmo tempo, não se esquecia de ir recordando a si mesmo que era muito melhor a reflexão fria, o mais fria possível, do que qualquer resolução desesperada. Nessas alturas, tentava focar a vista tão distintamente quanto podia na janela, mas, infelizmente, a perspectiva da neblina matinal, que ocultava mesmo o outro lado da rua estreita, pouco alívio e coragem lhe trazia. Sete horas, disse, de si para si, quando o despertador voltou a bater, sete horas, e um nevoeiro tão denso, por momentos, deixou-se ficar quieto, respirando suavemente, como se porventura esperasse que um repouso tão completo devolvesse todas as coisas à sua situação real e vulgar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A seguir, disse a si mesmo: Antes de baterem as sete e quinze, tenho que estar fora desta cama. De qualquer maneira, a essa hora já terá vindo alguém do escritório perguntar por mim, visto que abre antes das sete horas. E pôs-se a balouçar todo o corpo ao mesmo tempo, num ritmo regular, no intuito de rebocá-lo para fora da cama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Caso se desequilibrasse naquela posição, podia proteger a cabeça de qualquer pancada erguendo-a num ângulo agudo ao cair. O dorso parecia ser duro e não era provável que se ressentisse de uma queda no tapete. A sua preocupação era o barulho da queda, que não poderia evitar, o qual, provavelmente, causaria ansiedade, ou mesmo terror, do outro lado e em todas as portas. Mesmo assim, devia correr o risco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Quando estava quase fora da cama - o novo processo era mais um jogo que um esforço, dado que apenas precisava rebolar, balouçando-se para um lado e para outro -, veio-lhe à idéia como seria fácil se conseguisse ajuda. Duas pessoas fortes - pensou no pai e na criada - seriam largamente suficientes; não teriam mais que meter-lhe os braços por baixo do dorso convexo, levantá-lo para fora da cama, curvarem-se com o fardo e em seguida ter a paciência de colocá-lo direito no chão, onde era de esperar que as pernas encontrassem então a função própria. Bem, à parte o fato de todas as portas estarem fechadas à chave, deveria mesmo pedir auxílio? A despeito da sua infelicidade não podia deixar de sorrir ante a simples idéia de tentar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Tinha chegado tão longe que mal podia manter o equilíbrio quando se balouçava com força e em breve teria de encher-se de coragem para a decisão final, visto que daí cinco minutos seriam sete e um quarto... Quando soou a campainha da porta. É alguém do escritório, disse, com os seus botões, e ficou quase rígido, ao mesmo tempo em que as pequenas pernas sé limitavam a agitar-se ainda mais depressa.  Por instantes, tudo ficou silencioso. Não vão abrir a porta, disse Gregor, de si para si, agarrando-se a qualquer esperança irracional. A seguir, a criada foi à porta, como de costume, com o seu andar pesado e abriu-a. Gregor apenas precisou ouvir o primeiro bom dia do visitante para imediatamente saber quem era: o chefe de escritório em pessoa. Que sina, estar condenado a trabalhar numa firma em que a menor omissão dava imediatamente asa à maior das suspeitas! Seria que todos os empregados em bloco não passavam de malandros, que não havia entre eles um único homem devotado e leal que, tendo uma manhã perdido uma hora de trabalho na firma ou coisa parecida, fosse tão atormentado pela consciência que perdesse a cabeça e ficasse realmente incapaz de levantar-se da cama? Não teria bastado mandar um aprendiz perguntar - se era realmente necessária qualquer pergunta -, teria que vir o próprio chefe de escritório, dando assim a conhecer a toda a família, uma família inocente, que esta circunstância suspeita não podia ser investigada por ninguém menos versado nos negócios que ele próprio? E, mais pela agitação provocada por tais reflexões do que por qualquer desejo, Gregor rebolou com toda a força para fora da cama. Houve um baque sonoro, mas não propriamente um estrondo. A queda foi, até certo ponto, amortecida pelo tapete; também o dorso era menos duro do que ele pensava, de modo que foi apenas um baque surdo, nem por isso muito alarmante. Simplesmente, não tinha erguido a cabeça com cuidado suficiente e batera com ela; virou-a e esfregou-a no tapete, de dor e irritação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Alguma coisa caiu ali dentro - disse o chefe de escritório na sala contígua do lado esquerdo. Gregor tentou supor no seu íntimo que um dia poderia acontecer ao chefe de escritório qualquer coisa como a que hoje lhe acontecera a ele; ninguém podia negar que era possível. Como em brusca resposta a esta suposição, o chefe de escritório deu alguns passos firmes na sala ao lado, fazendo ranger as botas de couro envernizado. Do quarto da direita, a irmã segredava para informá-lo da situação:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor, está aqui o chefe de escritório.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Eu sei, murmurou Gregor, de si para si; mas não ousou erguer a voz o suficiente para a irmã o ouvir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor - disse então o pai, do quarto à esquerda -, está aqui o chefe de escritório e quer saber porque é que não apanhou o primeiro trem. Não sabemos o que dizer pra ele. Além disso, ele quer falar contigo pessoalmente. Abre essa porta, faz-me o favor. Com certeza não vai reparar na desarrumação do quarto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bom dia, Senhor Samsa -, saudava agora amistosamente o chefe de escritório.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Ele não está bem - disse a mãe ao visitante, ao mesmo tempo em que o pai falava ainda através da porta -, ele não está bem, senhor, pode acreditar. Se assim não fosse, ele alguma vez ia perder um trem! O rapaz não pensa senão no emprego. Quase me zango com a mania que ele tem de nunca sair à noite; há oito dias que está em casa e não houve uma única noite que não ficasse em casa. Senta-se ali à mesa, muito sossegado, a ler o jornal ou a consultar horários de trens. O único divertimento dele é talhar madeira.  Passou duas ou três noites a cortar uma moldurazinha de madeira; o senhor ficaria admirado se visse como ela é bonita. Está pendurada no quarto dele. Num instante vai vê-la, assim que o Gregor abrir a porta. Devo dizer que estou muito satisfeita por o senhor ter vindo. Sozinhos, nunca conseguiríamos que ele abrisse a porta; é tão teimoso...  E tenho a certeza de que ele não está bem, embora ele não o reconhecesse esta manhã.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Já vou - disse Gregor, lenta e cuidadosamente, não se mexendo um centímetro, com receio de perder uma só palavra da conversa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Não imagino qualquer outra explicação, minha senhora - disse o chefe de escritório. - Espero que não seja nada de grave. Embora, por outro lado, deva dizer que nós, homens de negócios, feliz ou infelizmente, temos muitas vezes de ignorar, pura e simplesmente, qualquer ligeira indisposição, visto que é preciso olhar pelo negócio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bem, o chefe de escritório pode entrar? - perguntou impacientemente o pai de Gregor, tornando a bater à porta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Não - disse Gregor. Na sala da esquerda seguiu-se um doloroso silêncio a esta recusa, enquanto no compartimento da direita a irmã começava a soluçar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Porque não se juntava a irmã aos outros? Provavelmente tinha-se levantado da cama há pouco tempo e ainda nem começara a vestir-se. Bem, porque chorava ela? Por ele não se levantar e não abrir a porta ao chefe de escritório, por ele estar em perigo de perder o emprego e porque o patrão havia de começar outra vez atrás dos pais para eles pagarem as velhas dívidas? Eram, evidentemente, coisas com as quais, nesse instante, ninguém tinha de preocupar-se.  Gregor estava ainda em casa e nem por sombras pensava abandonar a família. É certo que, de momento, estava deitado no tapete e ninguém conhecedor da sua situação poderia seriamente esperar que abrisse a porta ao chefe de escritório. Mas, por tão pequena falta de cortesia, que poderia ser plausivelmente explicada mais tarde, Gregor não iria por certo ser despedido sem mais nem quê. E parecia-lhe que seria muito mais sensato deixarem-no em paz por agora do que atormentá-lo com lágrimas e súplicas. É claro que a incerteza e a desorientação deles desculpava aquele comportamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Senhor Samsa - clamou então o chefe de escritório, em voz mais alta -, que se passa consigo? Fica aí enclausurado no quarto, respondendo só por sins e nãos, a dar uma série de preocupações desnecessárias aos seus pais e - diga-se de passagem - a negligenciar as suas obrigações profissionais de uma maneira incrível! Estou a falar em nome dos seus pais e do seu patrão e peco-lhe muito a sério uma explicação precisa e imediata. O senhor me espanta, me espanta. Julgava que o senhor era uma pessoa sossegada, em quem se podia ter confiança, e de repente parece apostado em fazer uma cena vergonhosa. Realmente, o patrão sugeriu-me esta manhã uma explicação possível para o seu desaparecimento - relacionada com o dinheiro dos pagamentos que recentemente lhe foi confiado - mas eu quase dei a minha solene palavra de honra de que não podia ser isso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado, não tenho o menor desejo de tomar a sua defesa. E a sua posição na firma não é assim tão inexpugnável. Vim com a intenção de dizer-lhe isto em particular, mas, visto que o senhor está a tomar tão desnecessariamente o meu tempo, não vejo razão para que os seus pais não ouçam igualmente.  Desde há algum tempo que o seu trabalho deixa muito a desejar; esta época do ano não é ideal para uma subida do negócio, claro, admitamos isso, mas, uma época do ano para não fazer negócio absolutamente nenhum, essa não existe, Senhor Samsa, não pode existir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Mas, senhor - gritou Gregor, fora de si e, na sua agitação, esquecendo todo o resto -, vou abrir a porta agora mesmo. Tive uma ligeira indisposição, um ataque de tonturas, que não me permitiu levantar-me. Ainda estou na cama.  Mas me sinto bem outra vez. Estou a levantar-me agora.  Dê-me só mais um minuto ou dois! Não estou, realmente, tão bem como pensava. Mas estou bem, palavra. Como uma coisa destas pode repentinamente deitar uma pessoa abaixo. Ainda ontem à noite estava perfeitamente, os meus pais que o digam; ou, antes, de fato, tive um leve pressentimento.  Deve ter mostrado indícios disso. Porque não o comuniquei eu ao escritório! Mas uma pessoa pensa sempre que uma indisposição há de passar sem ficar em casa.  Olha, senhor, poupe os meus pais! Tudo aquilo por que me repreende não tem qualquer fundamento; nunca ninguém me disse uma palavra sobre isso. Talvez o senhor não tenha visto as últimas encomendas que mandei. De qualquer maneira, ainda posso apanhar o trem das oito; estou muito melhor depois deste descanso de algumas horas. Não se prenda por mim, senhor; daqui a pouco vou para o escritório e hei de estar suficientemente bom para o dizer ao patrão e apresentar-lhe desculpas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ao mesmo tempo em que tudo isto lhe saía tão desordenadamente de jacto que Gregor mal sabia o que estava a dizer, havia chegado facilmente à cômoda, talvez devido à prática que tinha tido na cama, e tentava agora erguer-se em pé, socorrendo-se dela. Tencionava, efetivamente, abrir a porta, mostrar-se realmente e falar com o chefe de escritório; estava ansioso por saber, depois de todas as insistências, o que diriam os outros ao vê-lo à sua frente. Se ficassem horrorizados, a responsabilidade já não era dele e podia ficar quieto. Mas, se o aceitassem calmamente, também não teria razão para preocupar-se, e podia realmente chegar à estação a tempo de apanhar o trem das oito, se andasse depressa. A princípio escorregou algumas vezes pela superfície envernizada da cômoda, mas, aos poucos, com uma última elevação, pôs-se de pé; embora o atormentassem, deixou de ligar importância às dores na parte inferior do corpo. Depois deixou-se cair contra as costas de uma cadeira próxima e agarrou-se às suas bordas com as pequenas pernas. Isto devolveu-lhe o controlo sobre si mesmo e parou de falar, porque agora podia prestar atenção ao que o chefe de escritório estava a dizer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Perceberam uma única palavra? - perguntava o chefe de escritório. - Com certeza não está a tentar fazer de nós parvos?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Oh, meu Deus - exclamou a mãe, lavada em lágrimas -, talvez ele esteja terrivelmente doente e estejamos a atormentá-lo. Grete! Grete! - chamou a seguir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Sim, mãe? - respondeu a irmã do outro lado. Chamavam uma pela outra através do quarto de Gregor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Tens de ir imediatamente chamar o médico. O Gregor está doente. Vai chamar o médico, depressa. Ouviste como ele estava a falar?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Aquilo não era voz humana - disse o chefe de escritório, numa voz perceptivelmente baixa ao lado da estridência da mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Ana! Ana! - chamava o pai, através da parede para a cozinha, batendo as palmas -, chama imediatamente um serralheiro!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;E as meninas corriam pelo corredor, com um silvo de saias - como podia a irmã ter-se vestido tão depressa?-, e abriam a porta da rua de par em par. Não se ouviu o som da porta a ser fechada a seguir; tinham-na deixado, evidentemente, aberta, como se faz em casas onde aconteceu uma grande desgraça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Mas Gregor estava agora muito mais calmo. As palavras que pronunciava já não eram inteligíveis, aparentemente, embora a ele lhe parecessem distintas, mais distintas mesmo que antes, talvez porque o ouvido se tivesse acostumado ao som delas. Fosse como fosse, as pessoas julgavam agora que ele estava mal e estavam prontas a ajudá-lo. A positiva certeza com que estas primeiras medidas tinham sido tomadas confortou-o. Sentia-se uma vez mais impelido para o círculo humano e confiava em grandes e notáveis resultados, quer do médico, quer do serralheiro, sem, na verdade, conseguir fazer uma distinção clara entre eles. No intuito de tornar a voz tão clara quanto possível para a conversa que estava agora iminente, tossiu um pouco, o mais silenciosamente que pôde, claro, uma vez que também o ruído podia não soar como o da tosse humana, tanto quanto podia imaginar. Entrementes, na sala contígua havia completo silêncio. Talvez os pais estivessem sentados à mesa com o chefe de escritório, a segredar, ou talvez se encontrassem todos encostados à porta, à escuta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Lentamente, Gregor empurrou a cadeira em direção à porta, após o que a largou, agarrou-se à porta para se amparar as plantas das extremidades das pequenas pernas eram levemente pegajosas- e descansou, apoiado contra ela por um momento, depois destes esforços. A seguir empenhou-se em rodar a chave na fechadura, utilizando a boca. Infelizmente, parecia que não possuía quaisquer dentes - com que havia de segurar a chave?-, mas, por outro lado, as mandíbulas eram indubitavelmente fortes; com a sua ajuda, conseguiu pôr a chave em movimento, sem prestar atenção ao fato de estar certamente a danificá-las em qualquer zona, visto que lhe saía da boca um fluído castanho, que escorria pela chave e pingava para o chão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Ouçam só - disse o chefe de escritório na sala contígua - esta dando volta na chave .&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Isto foi um grande encorajamento para Gregor; mas todos deviam tê-lo animado com gritos de encorajamento, o pai e a mãe também: Não, Gregor, deviam todos ter gritado, - Continua, agarra-te bem a essa chave!  E, na crença de que estavam todos a seguir atentamente os seus esforços, cerrou imprudentemente as mandíbulas na chave com todas as forças de que dispunha. À medida que a rotação da chave progredia, ele torneava a fechadura, segurando-se agora só com a boca, empurrando a chave, ou puxando-a para baixo com todo o peso do corpo, consoante era necessário. O estalido mais sonoro da fechadura, finalmente a ceder, apressou literalmente Gregor.  Com um fundo suspiro de alívio, disse, de si para si: Afinal, não precisei do serralheiro, e encostou a cabeça ao puxador, para abrir completamente a porta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Como tinha de puxar a porta para si, manteve-se oculto, mesmo quando a porta ficou escancarada. Teve de deslizar lentamente para contornar a portada mais próxima da porta dupla, manobra que lhe exigiu grande cuidado, não fosse cair em cheio de costas, mesmo ali no limiar. Estava ainda empenhado nesta operação, sem ter tempo para observar qualquer outra coisa, quando ouviu o chefe de escritório soltar um agudo Oh!, que mais parecia um rugido do vento; foi então que o viu, de pé junto da porta, com uma mão a tremer tapando a boca aberta e recuando, como se impelido por qualquer súbita força invisível. A mãe, que apesar da presença do chefe de escritório tinha o cabelo ainda em desalinho, espetado em todas as direções, começou por retorcer as mãos e olhar para o pai, após o que deu dois passos em direção a Gregor e tombou no chão, num torvelinho de saias, o rosto escondido no peito. O pai cerrou os punhos com um ar cruel, como se quisesse obrigar Gregor a voltar para o quarto com um murro; depois, olhou perplexo em tomo da sala de estar, cobriu os olhos com as mãos e desatou a chorar, o peito vigoroso sacudido por soluços.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor não entrou na sala, mantendo-se encostado à parte interior da portada fechada, deixando apenas metade do corpo à vista, a cabeça a tombar para um e outro lado, por forma a ver os demais. Entretanto, a manhã tornara-se mais límpida. Do outro lado da rua, divisava-se nitidamente uma parte do edifício cinzento-escuro, interminavelmente comprido, que era o hospital, abruptamente interrompido por uma fila de janelas iguais. Chovia ainda, mas eram apenas grandes pingos bem visíveis que caíam literalmente um a um. Sobre a mesa espalhava-se a louça do breve almoço, visto que esta era para o pai de Gregor a refeição mais importante, que prolongava durante horas percorrendo diversos jornais. Mesmo em frente de Gregor, havia uma fotografia pendurada na parede que o mostrava fardado de tenente, no tempo em que fizera o serviço militar, a mão na espada e um sorriso despreocupado na face, que impunha respeito pelo uniforme e pelo seu porte militar.  A porta que dava para o vestíbulo estava aberta, vendo-se também aberta a porta de entrada, para além da qual se avistava o terraço de entrada e os primeiros degraus da escada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bem - disse Gregor, perfeitamente consciente de ser o único que mantinha uma certa compostura -, vou me vestir, embalar as amostras e sair. Desde que o senhor me dê licença que saia. Como vê, não sou obstinado e tenho vontade de trabalhar. A profissão de caixeiro- viajante é dura, mas não posso viver sem ela. Para onde vai o senhor?  Para o escritório? Sim? Não se importa de contar lá exatamente o que aconteceu? Uma pessoa pode estar temporariamente incapacitada, mas essa é a altura indicada para recordar os seus serviços anteriores e ter em mente que mais tarde, vencida a incapacidade, a pessoa certamente trabalhará com mais diligência e concentração. Tenho uma dívida de lealdade para com o patrão, como o senhor bem sabe. Além disso, tenho de olhar pelos meus pais e pela minha irmã. Estou a passar por uma situação difícil, mas acabarei vencendo. Não me torne as coisas mais complicadas do que elas já são. Eu bem sei que os caixeiros-viajantes não são muito bem vistos no escritório. As pessoas pensam que eles levam uma vida estupenda e ganham rios de dinheiro. Trata-se de um preconceito que nenhuma razão especial leva a reconsiderar. Mas o senhor vê as coisas profissionais de uma maneira mais compreensiva do que o resto do pessoal, isso vê, aqui para nós, deixe que lhe diga, mais compreensiva do que o próprio patrão, que, sendo o proprietário, facilmente se deixa influenciar contra qualquer dos empregados. E o senhor bem sabe que o caixeiro-viajante, que durante todo o ano raramente está no escritório, é muitas vezes vítima de injustiças, do azar e de queixas injustificadas, das quais normalmente nada sabe, a não ser quando regressa, exausto das suas deslocações, e só nessa altura sofre pessoalmente as suas funestas conseqüências; para elas, não consegue descobrir as causas originais. Peço-lhe, por favor, que não se vá embora sem uma palavra sequer que mostre que me dá razão, pelo menos em parte!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Logo às primeiras palavras de Gregor, o chefe de escritório recuara e limitava-se a fitá-lo embasbacado, retorcendo os lábios, por cima do ombro crispado. Enquanto Gregor falava, não estivera um momento quieto, procurando, sem tirar os olhos de Gregor, esgueirar-se para a porta, centímetro a centímetro, como se obedecesse a qualquer ordem secreta para abandonar a sala. Estava junto ao vestíbulo, e a maneira súbita como deu um último passo para sair da sala de estar levaria a crer que tinha posto o pé em cima duma brasa. Chegado ao vestíbulo, estendeu o braço direito para as escadas, como se qualquer poder sobrenatural ali o aguardasse para libertá-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor apercebeu-se de que, se quisesse que a sua posição na firma não corresse sérios risco não podia de modo algum permitir que o chefe de escritório saísse naquele estado ’ de espírito. Os pais não ligavam tão bem deste acontecimento; tinham-se convencido, ao longo dos anos, de que Gregor estava instalado na firma para toda a vida e, além disso, estavam tão consternados com as suas preocupações imediatas que nem lhes corria pensar no futuro.  Gregor, porém, pensava. Era preciso deter, acalmar, persuadir e, por fim, conquistar o chefe de escritório. Quer o seu futuro, quer o da família, dependiam disso! Se, ao menos, a irmã ali estivesse! Era inteligente; começara a chorar quando Gregor estava ainda deitado de costas na cama. E por certo o chefe de escritório, parcial como era em relação às mulheres, acabaria se deixando levar por ela. Ela teria fechado a porta de entrada e, no vestíbulo, dissiparia o horror. Mas ela não estava e Gregor teria de enfrentar sozinho a situação. E, sem refletir que não sabia ainda de que capacidade de movimentos dispunha, sem se lembrar sequer de que havia todas as possibilidades, e até todas as probabilidades, de as suas palavras serem mais uma vez ininteligíveis, afastou-se do umbral da porta, deslizou pela abertura e começou a encaminhar-se para o chefe de escritório, que estava agarrado com ambas as mãos ao corrimão da escada para o terraço; subitamente, ao procurar apoio, Gregor tombou, com um grito débil, por sobre as inúmeras pernas. Mas, chegado a essa posição, experimentou pela primeira vez nessa manhã uma sensação de conforto físico. Tinha as pernas em terra firme; obedeciam-lhe completamente, conforme observou com alegria, e esforçavam-se até por impeli-lo em qualquer direção que pretendesse. Sentia-se tentado a pensar que estava ao seu alcance um alívio final para todo o sofrimento. No preciso momento em que se encontrou no chão, balançando-se com sofrida ânsia para mover-se, não longe da mãe, na realidade mesmo defronte dela, esta, que parecia até aí completamente aniquilada, pôs-se de pé de um salto, de braços e dedos estendidos, aos gritos: Socorro, por amor de Deus, socorro! Baixou a cabeça, como se quisesse observar melhor Gregor, mas, pelo contrário, continuou a recuar em disparada e, esquecendo-se de que tinha atrás de, si a mesa ainda posta, sentou-se precipitadamente nela, como se tivesse perdido momentaneamente a razão, ao esbarrar contra o obstáculo imprevisto. Parecia igualmente indiferente ao acontecimento de a cafeteira que tinha ter tombado e estava derramando um fio sinuoso de café no tapete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Mãe, mãe - murmurou Gregor, erguendo a vista para ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Nessa altura, o chefe de escritório estava já completamente tresloucado; Gregor, não resistiu ao ver o café a correr, cerrou as mandíbulas com um estalo. Isto fez com que a mãe gritasse outra vez, afastando-se precipitadamente da mesa e atirando-se para os braços do pai, que se apressou a acolhê-la. Mas agora Gregor não tinha tempo a perder com os pais. O chefe de escritório nas escadas; com o queixo apoiado no corrimão, dava uma última olhadela para trás de si. Gregor deu um salto, para ter melhor a certeza de ultrapassá-lo; o chefe de escritório devia ter-lhe adivinhado as intenções, pois, de um salto, venceu vários degraus e desapareceu, sempre aos gritos, que ressoavam pelas escadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Infelizmente a fuga do chefe de escritório pareceu pôr o pai de Gregor completamente fora de si, embora até então se tivesse mantido relativamente calmo. Assim, em lugar de correr atrás do homem ou de, pelo menos, não interferir na perseguição de Gregor, agarrou com a mão direita na bengala que o chefe de escritório tinha deixado numa cadeira, juntamente com um chapéu e um sobretudo, e, com a esquerda, num jornal que estava em cima da mesa e, batendo com os pés e brandindo a bengala e o jornal, tentou forçar Gregor a regressar ao quarto. De nada valeram os rogos de Gregor, que, aliás, nem sequer eram compreendidos; por mais que baixasse humildemente a cabeça, o pai limitava-se a bater mais fortemente com os pés no chão. Por trás do pai, a mãe tinha escancarado uma janela, apesar do frio, e debruçava-se a ela segurando a cabeça com as mãos. Uma rajada de vento penetrou pelas escadas, agitando as cortinas da janela e agitando os jornais que estavam sobre a mesa, o que fez que se espalhassem algumas páginas pelo chão. Impiedosamente, o pai de Gregor obrigava-o a recuar, assobiando e gritando como um selvagem. Mas Gregor estava pouco habituado a andar para trás, o que se revelou um processo lento.  Se tivesse uma oportunidade de virar sobre si mesmo, poderia alcançar imediatamente o quarto, mas receava exasperar o pai com a lentidão de tal manobra e temia que a bengala que o pai brandia na mão pudesse desferir-lhe uma pancada fatal no dorso ou na cabeça. Finalmente, reconheceu que não lhe restava alternativa, pois verificou, aterrorizado, que, ao recuar, nem sequer conseguia controlar a direção em que se deslocava-se, assim, sempre observando ansiosamente o pai, de soslaio, começou a virar o mais rapidamente que pôde, o que, na realidade, era muito moroso.  Talvez o pai tivesse registrado as suas boas intenções, visto que não interferiu, a não ser para, de quando em quando e à distância, lhe auxiliar a manobra com a ponta da bengala. Se ao menos ele parasse com aquele insuportável assobio! Era uma coisa que estava a pontos de fazê-lo perder a cabeça. Quase havia completado a rotação quando o assobio o desorientou de tal modo que tornou a virar ligeiramente na direção errada. Quando, finalmente, viu a porta em frente da cabeça, pareceu-lhe que o corpo era demasiadamente largo para poder passar pela abertura. É claro que o pai, no estado de espírito atual, estava bem longe de pensar em qualquer coisa que se parecesse com abrir a outra portada, para dar espaço à passagem de Gregor. Dominava-o a idéia fixa de fazer Gregor regressar para o quarto o mais depressa possível. Não agüentaria de modo algum que Gregor se entregasse aos preparativos de erguer o corpo e talvez deslizar através da porta. Nesta altura, o pai estava porventura a fazer mais barulho que nunca para obrigá-lo a avançar, como se não houvesse obstáculo nenhum que o impedisse; fosse como fosse, o barulho que Gregor ouvia atrás de si não lhe soava aos ouvidos como a voz de pai nenhum.  Não sendo caso para brincadeiras, Gregor lançou-se, sem se preocupar com as conseqüências, pela abertura da porta.  Um dos lados do corpo ergueu-se e Gregor ficou entalado no umbral da porta ferindo-se no flanco, que cobriu a porta branca de horrorosas manchas. Não tardou em ficar completamente preso, de tal modo que, por si só, não poderia mover-se, com as pernas de um dos lados a agitarem-se tremulamente no ar e as do outro penosamente esmagadas de encontro ao soalho. Foi então que o pai lhe deu um violento empurrão, que constituiu literalmente um alívio, e Gregor voou até ao meio do quarto, sangrando abundantemente. Empurrada pela bengala, a porta fechou-se violentamente atrás de si e, por fim, fez-se o silêncio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;h1 style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;II&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Foi apenas ao anoitecer que Gregor acordou do seu sono profundo, que mais parecera um desmaio. Ainda que nada o tivesse feito, de certo teria acordado pouco mais tarde por si só, visto que se sentia suficientemente descansado e bem dormido, mas parecia-lhe ter sido despertado por um andar cauteloso e pelo fechar da porta que dava para o vestíbulo. Os postes da rua projetavam aqui e além um reflexo pálido, no teto e na parte superior dos móveis, mas ali em baixo, no local onde se encontrava, estava escuro.  Lentamente, experimentando de modo desajeitado as antenas, cuja utilidade começava pela primeira vez a apreciar, arrastou-se até à porta, para ver o que acontecera. Sentia todo o flanco esquerdo convertido numa única cicatriz, comprida e incomodamente repuxada, e tinha efetivamente de coxear sobre as duas filas de pernas. Uma delas ficara gravemente atingida pelos acontecimentos dessa manhã - era quase um milagre ter sido afetada apenas uma e arrastava-se, inútil, atrás de si.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Só depois de chegar à porta percebeu o que o tinha atraído para ela: o cheiro da comida. Com efeito, tinham lá posto uma tigela de leite dentro do qual flutuavam pedacinhos de pão. Quase desatou a rir de contentamento, porque sentia ainda mais fome que de manhã, e imediatamente enfiou a cabeça no leite, quase mergulhando também os olhos. Depressa, a retirou, desanimado: além de ter dificuldade em comer, por causa do flanco esquerdo magoado, que o obrigava a ingerir a comida à força de sacudidelas, recorrendo a todo o corpo, não gostava do leite, conquanto tivesse sido a sua bebida preferida e fosse certamente essa a razão que levara a irmã a pôr-lho ali, Efetivamente, foi quase com repulsa que se afastou da tigela e se arrastou até meio do quarto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Através da fenda da porta, verificou que tinham acendido o gás na sala de estar. Embora àquela hora o pai costumasse ler o jornal em voz alta para a mãe e eventualmente também para a irmã, nada se ouvia. Bom, talvez o pai tivesse recentemente perdido o hábito de ler em voz alta, hábito esse que a irmã tantas vezes mencionara em conversa e por carta. Mas por todo o lado reinava o mesmo silêncio, embora por certo estivesse alguém em casa. Que vida sossegada a minha família tem levado! , disse Gregor, de si para si. Imóvel, a fitar a escuridão, sentiu naquele momento um grande orgulho por ter sido capaz de proporcionar aos pais e à irmã uma tal vida numa casa tão boa. Mas que sucederia se toda a calma, conforto e satisfação acabas sem em catástrofe? Tentando não se perder em pensamentos, Gregor refugiou-se no exercício físico e começou a rastejar para um lado e para o outro, ao longo do quarto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A certa altura, durante o longo fim de tarde, viu as portas laterais abrir-se ligeiramente e ser novamente fechada; mais tarde, sucedeu o mesmo com a porta do outro lado. Alguém pretendera entrar e mudara de idéias. Gregor resolveu postar-se ao pé da porta que dava para a sala de estar, decidido a persuadir qualquer visitante indeciso a entrar ou, pelo menos, a descobrir quem poderia ser. Mas esperou em vão, pois ninguém tornou a abrir a porta. De manhã cedo, quando todas as portas estavam fechadas à chave, todos tinham querido entrar; agora, que ele tinha aberto uma porta e a outra fora aparentemente aberta durante o dia, ninguém entrava e até as chaves tinham sido transferidas para o lado de fora das portas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Só muito tarde apagaram o gás na sala; Gregor tinha quase a certeza de que os pais e a irmã tinham ficado acordados até então, pois ouvia-os afastarem-se, caminhando nos bicos dos pés. Não era nada provável que alguém viesse visitá-lo até à manhã seguinte, de modo que tinha tempo de sobra para meditar sobre a maneira de reorganizar a sua vida. O enorme quarto vazio dentro do qual era obrigado a permanecer deitado no chão enchia-o de uma apreensão cuja causa não conseguia descobrir, pois havia cinco anos que o habitava. Meio inconscientemente, não sem uma leve sensação de vergonha, meteu-se debaixo do sofá, onde imediatamente se sentiu bem, embora ficasse com o dorso um tanto comprimido e não lhe fosse possível levantar a cabeça, lamentando apenas que o corpo fosse largo de mais para caber totalmente debaixo do sofá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ali passou toda a noite, grande parte da qual mergulhado num leve torpor, do qual a fome constantemente o despertava com um sobressalto, preocupando-se ocasionalmente com a sua sorte e alimentando vagas esperanças, que levavam todas à mesma conclusão: devia deixar-se estar e, usando de paciência e do mais profundo respeito, auxiliar a família a suportar os incômodos que estava destinado a causar-lhes nas condições presentes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;De manhã bem cedo, Gregor teve ocasião de pôr à prova o valor das suas recentes resoluções, dado que a irmã, quase totalmente vestida, abriu a porta que dava para o vestíbulo e espreitou para dentro do quarto. Não o viu imediatamente, mas, ao apercebê-lo debaixo do sofá - que diabo, tinha de estar em qualquer sítio, não havia de ter-se sumido, pois não? -, ficou de tal modo assustada que fugiu precipitadamente, batendo com a porta. Mas, teria que arrependida desse comportamento, tornou a abrir a porta e entrou nos bicos dos pés, como se estivesse de visita a um inválido ou a um estranho. Gregor estendeu a cabeça para fora do sofá e ficou a observá-la. Notaria a irmã que ele deixara o leite intacto, não por falta de fome, e traria qualquer outra comida que lhe agradasse mais ao paladar?  Se ela o não fizesse de moto próprio, Gregor preferiria morrer de fome a chamar-lhe a atenção para o acontecimento, muito embora sentisse um irreprimível desejo de saltar do seu refúgio debaixo do sofá e rojar-se-lhe aos pés, pedindo de comer. A irmã notou imediatamente, com surpresa, que a tigela estava ainda cheia, à exceção de uma pequena porção de leite derramado em tomo dela; ergueu logo a tigela, não diretamente com as mãos, é certo, mas sim com um pano, e levou-a. Gregor sentia uma enorme curiosidade de saber o que traria ela em sua substituição, multiplicando conjecturas. Não poderia de modo algum adivinhar o que a irmã, em toda a sua bondade, fez a seguir. Para descobrir do que gostaria ele, trouxe-lhe toda uma quantidade de alimentos, sobre um pedaço velho de jornal. Eram hortaliças velhas e meio podres, ossos do jantar da noite anterior, cobertos de um molho branco solidificado; uvas e amêndoas, era um pedaço de queijo que Gregor dois dias antes teria considerado intragável, era uma côdea de pão duro, um pão com manteiga sem sal e outro com manteiga salgada. Além disso, tornou a pôr no chão a mesma tigela, dentro da qual deixou água, e que pelos vistos ficaria reservada para seu exclusivo uso. Depois, cheia de tacto, percebendo que Gregor não comeria na sua presença, afastou-se rapidamente e deu mesmo volta chave, dando-lhe a entender que podia ficar completamente à vontade. Todas as pernas de Gregor se precipitaram em direção à comida. As feridas deviam estar completamente curadas, além de tudo, porque não sentia qualquer incapacidade, o que o espantou e o fez lembrar-se de que havia mais de um mês tinha feito um golpe num dedo com uma faca e ainda dois dias antes lhe doía a ferida.  - Estarei agora menos sensível? Pensou, ao mesmo tempo em que sugava vorazmente o queijo, que, de toda a comida, era a que mais forte e imediatamente o atraía. Pedaço a pedaço, com lágrimas de satisfação nos olhos, devorou rapidamente o queijo, as hortaliças e o molho; por outro lado, a comida fresca não tinha atrativos para si; não podia sequer suportar-lhe o cheiro, que o obrigava até a arrastar para uma certa distância os pedaços que era capaz de comer.  Tinha acabado de comer havia bastante tempo e estava apenas preguiçosamente quieto no mesmo local, quando a irmã rodou lentamente a chave como que a fazer-lhe sinal para se retirar. Isto fez com que ele se levantasse de súbito, embora estivesse quase adormecido, e precipitar-se novamente para debaixo do sofá. Foi-lhe necessária uma considerável dose de autodomínio para permanecer ali debaixo, dado que a pesada refeição lhe tinha feito inchar um tanto o corpo e estava tão comprido que mal podia respirar, Atacado de pequenos surtos de sufocação, sentia os olhos saírem um bocado para fora da cabeça ao observar a irmã, que de nada suspeitava, varrendo não apenas os restos do que comera, mas também as coisas em que não tocara, como se não fossem de utilidade fosse para quem fosse, e metendo-as, apressadamente, com a pá, num balde, que cobriu com uma tampa de madeira e retirou do quarto. Mal a irmã virou costas, Gregor saiu de baixo do sofá, dilatando e esticando o corpo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Assim era Gregor alimentado, uma vez de manhã cedo, enquanto os pais e a criada estavam ainda a dormir, e outra vez depois de terem todos almoçado, pois os país faziam uma curta sesta e a irmã podia mandar a criada fazer um ou outro recado. Não que eles desejassem que ele morresse de fome, claro está, mas talvez porque não pudessem suportar saber mais sobre as suas refeições do que aquilo que sabiam pela boca da irmã, e talvez ainda porque a irmã os quisesse poupar a todas as preocupações, por menores que fossem, visto o que eles tinham de suportar ser mais do que suficiente. Uma coisa que Gregor nunca pôde descobrir foi que pretexto tinha sido utilizado para se libertarem do médico e do serralheiro na primeira manhã, já que, como ninguém compreendia o que ele dizia, nunca lhes passara pela cabeça, nem sequer à irmã, que ele pudesse percebê-los; assim, sempre que a irmã ia ao seu quarto, Gregor contentava-se em ouvi-la soltar um ou outro suspiro ou exprimir uma ou outra invocação aos seus santos. Mais tarde, quando se acostumou um pouco mais à situação - é claro que nunca poderia acostumar-se inteiramente -, fazia por vezes uma observação que revelava uma certa simpatia, ou que como tal podia ser interpretada. - Bom, hoje ele gostou do jantar - disse enquanto Gregor tinha consumido boa parte da comida; quando ele não comia, o que ia acontecendo com freqüência cada vez maior, dizia, quase com tristeza: - Hoje tornou a deixar tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Embora não pudesse manter-se diretamente a par do que ia acontecendo, Gregor apanhava, muitas conversas nas salas contíguas e, assim que elas se tornavam audíveis, corria para a porta em questão, colando-se todo a ela.  Durante os primeiros dias, especialmente, não havia conversa alguma que se lhe não referisse de certo modo, ainda que indiretamente. Durante dois dias houve deliberações familiares sobre o que devia fazer-se; mas o assunto era igualmente discutido fora das refeições visto que estavam sempre, pelo menos, dois membros da família em casa: ninguém queria ficar lá sozinho e deixá-la sem ninguém estava inteiramente fora da questão. Logo nos primeiros dias, a criada, cujo verdadeiro conhecimento da situação não era para Gregor perfeitamente claro, caíra de joelhos diante da mãe, suplicando-lhe que a deixasse ir embora. Quando saiu, um quarto de hora mais tarde, agradeceu de lágrimas nos olhos o favor de ter sido dispensada, como se fosse a maior graça que pudesse ser-lhe concedida e, sem que ninguém lho sugerisse, prestou um solene juramento de que nunca contaria a ninguém o que se passara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Agora a irmã era também obrigada a cozinhar para ajudar a mãe. É certo que não era trabalho de monta, pois pouco se comia naquela casa. Gregor ouvia constantemente um dos membros da família a insistir com outro para que comesse e a receber invariavelmente a resposta: Não, muito obrigado, estou satisfeito, ou coisa semelhante. Talvez não bebessem, sequer. Muitas vezes a irmã perguntava ao pai se não queria cerveja e oferecia-se amavelmente para lha ir comprar; se ele não respondia, dava a entender que podia pedir à porteira que fosse buscá-la, para que ele não se sentisse em dívida, mas nessa altura o pai retorquia com um rotundo: Não! e ficava o assunto arrumado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Logo no primeiro dia, o pai explicara a situação financeira e as perspectivas da família a mãe e a irmã. De quando em quando, erguia-se da cadeira para ir buscar qualquer recibo ou apontamento a um pequeno cofre que tinha conseguido salvar do colapso financeiro em que mergulhara cinco anos atrás. Ouviam-no abrir a complicada fechadura e a remexer em papéis, depois a fechá-la novamente. Tais informações do pai foram as primeiras notícias agradáveis que Gregor teve desde o início do cativeiro. Sempre julgara que o pai tinha perdido tudo, ou, pelo menos, o pai nunca dissera nada em contrário e é evidente que Gregor nunca lho perguntara diretamente. Na altura em que a ruína tinha desabado sobre o pai, o único desejo de Gregor era fazer todos os possíveis para que a família se esquecesse com a maior rapidez de tal catástrofe, que mergulhara todos no mais completo desespero. Assim, começara a trabalhar com invulgar ardor e, quase de um dia para outro, passou de simples empregado de escritório a caixeiro-viajante, com oportunidades conseguiu entre melhores de ganhar bem, êxito esse que depressa se converteu em metal sonante que depositava na mesa, ante a surpresa e a alegria da família. Tinha sido uma época feliz, que nunca viria a ser igualada, embora mais tarde Gregor ganhasse o suficiente para sustentar inteiramente a casa. Tinham-se, pura e simplesmente, habituado ao acontecimento, tanto a família corno ele próprio: ele dava o dinheiro de boa vontade e eles aceitavam-no com gratidão, mas não havia qualquer efusão de sentimentos. Só com a irmã mantivera uma certa intimidade, alimentando a secreta esperança de poder mandá-la para o Conservatório no ano seguinte, apesar das grandes despesas que isso acarretaria, às quais de qualquer maneira haveria de fazer face, já que ela, ao contrário de Gregor, gostava imenso de música e tocava violino de tal modo que comovia quantos a ouviam. Durante os breves dias que passava em casa, falava muitas vezes do Conservatório nas conversas com a irmã, mas sempre apenas como um belo sonho irrealizável; quanto aos pais, procuravam até evitar essas inocentes referências à questão.  Gregor tomara a firme decisão de levar a idéia avante e tencionava anunciar solenemente o acontecimento no dia de Natal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Essas eram as idéias - completamente fúteis, na sua atual situação - que lhe povoavam a mente enquanto se mantinha ereto, encostado à porta, à escuta. Por vezes, o cansaço obrigava-o a interrompê-la, limitando-se então a encostar a cabeça à porta, mas imediatamente obrigado a endireitar-se de novo, pois até o leve ruído que fazia ao mexer a cabeça era audível na sala ao lado e fazia parar todas as conversas. Que estará ele a fazer agora, perguntou o pai decorridos alguns instantes, virando-se decerto para a porta; só então ressuscitava gradualmente a conversa antes interrompida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Dado que o pai se tomava repetitivo nas explicações - por um lado, devido ao acontecimento de há muito não se encarregar de tais assuntos; por outro, graças à circunstância de a mãe nem sempre perceber tudo à primeira - , Gregor ficou por fim a saber que um certo número de investimentos, poucos, é certo, tinham escapado à ruína e tinham até aumentado ligeiramente, pois, entretanto, ninguém tocara nos dividendos. Além disso, nem todo o dinheiro dos ordenados mensais de Gregor - de que guardava para si apenas uma pequena parte - tinha sido gasto, o que originara economias que constituíam um pequeno capital. Do outro lado da porta, Gregor acenava ansiosamente com a cabeça, satisfeito perante aquela demonstração de inesperado espírito de poupança e previsão. A verdade é que, com aquele dinheiro suplementar, podia ter pago uma porção maior da dívida do pai ao patrão, apressando assim o dia em que poderia deixar o emprego, mas sem dúvida o pai fizera muito melhor assim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Apesar de tudo, aquele capital não era de modo nenhum suficiente para que a família vivesse dos juros. Talvez o pudessem fazer durante um ano ou dois, quando muito.  Era, pura e simplesmente, uma quantia que urgia deixar de parte para qualquer emergência. Quanto ao dinheiro para fazer face às despesas normais, havia que ganhá-lo. o pai era ainda saudável, mas estava velho e não trabalhava havia cinco anos, pelo que não era de esperar que fizesse grande coisa. Ao longo desses cinco anos, os primeiros anos de lazer de uma vida de trabalho, ainda que mal sucedido, tinha engordado e tornara-se um tanto lento. Quanto à velha mãe, como poderia ganhar a vida com aquela asma, que até o simples andar agravava, obrigando-a muitas vezes a deixar-se cair num sofá, a arquejar junto de uma janela aberta? E seria então justo encarregar do sustento da casa a irmã, ainda uma criança com os seus dezessete anos e cuja vida tinha até aí sido tão agradável e se resumia a vestir-se bem, dormir bastante tempo, ajudar a cuidar da casa, ir de vez em quando a diversões modestas e, sobretudo, tocar violino? A principio, sempre que ouvia menções à necessidade de ganhar dinheiro, Gregor afastava-se da porta e deixava-se cair no fresco sofá de couro ao lado dela, rubro de vergonha e desespero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Muitas vezes ali se deixava estar durante toda a noite, sem dormir a esfregar-se no couro, durante horas a fio. Quando não, reunia a coragem necessária para se entregar ao violento esforço de empurrar uma cadeira de braços para junto da janela, trepava para o peitoril e, arrimando-se à cadeira, encostava-se às vidraças, certamente obedecendo a qualquer reminiscência da sensação de liberdade que sempre experimentava ao ver à janela. De fato, dia após dia, até as coisas que estavam relativamente pouco afastadas se tornavam pouco nítidas; o hospital do outro lado da rua, que antigamente odiava por ter sempre à frente dos olhos, ficava agora bastante para além do seu alcance visual e, se não soubesse que vivia ali, numa rua sossegada, de qualquer maneira, uma rua de cidade, bem poderia julgar que a janela dava para um terreno deserto onde o cinzento do céu e da terra se fundiam indistintamente. Esperta como era, a irmã só precisou ver duas vezes a cadeira junto da janela: a partir de então, sempre que acabava de arrumar o quarto, tornava a colocar a cadeira no mesmo, sítio e até deixava as portadas interiores da janela abertas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Se ao menos pudesse falar com ela e agradecer-lhe tudo o que fazia por ele, suportaria melhor os seus cuidados; mas naquelas condições, sentia-se oprimido. É certo que ela tentava fazer, o mais despreocupadamente possível, tudo o que lhe fosse desagradável, o que, com o correr do tempo, cada vez o conseguia melhor, mas também Gregor, aos poucos, se ia apercebendo mais lucidamente da situação.  Bastava a maneira de ela entrar para o angustiar. Mal penetrava no quarto, corria para a janela, sem sequer dar-se ao trabalho de fechar a porta atrás de si, apesar do cuidado que costumam ter em ocultar aos outros a visão de Gregor, e, como se estivesse pontos de sufocar, abria precipitadamente a janela e ali ficava a apanhar ar durante um minuto, por mais frio que fizesse, respirando profundamente.  Duas vezes por dia, incomodava Gregor com a sua ruidosa precipitação, que o fazia refugiar-se, a tremer, debaixo do sofá, durante todo o tempo, ciente de que a irmã certamente o pouparia a tal incômodo se lhe fosse possível permanecer na sua presença sem abrir a janela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Certa vez, coisa de um mês após a metamorfose de Gregor, quando já não havia por certo motivo para assustar-se com o seu aspecto, apareceu ligeiramente mais cedo do que era habitual e deu com ele a ver à janela, imóvel, numa posição em que parecia um espectro. Gregor não se surpreenderia se ela não entrasse pura e simplesmente, pois não podia abrir imediatamente a janela enquanto ele ali estivesse, mas ela não só evitou entrar como deu um salto para trás, diria que alarmada, e bateu com a porta em retirada. Um estranho que observasse a cena julgaria com certeza que Gregor a esperava para lhe morder. É claro que imediatamente se escondeu debaixo do sofá, mas ela só voltou ao meio-dia com um ar bastante mais perturbado do que era vulgar. Este acontecimento revelou a Gregor a repulsa que o seu aspecto provocava ainda à irmã e o esforço que devia custar-lhe não desatar a correr mal via a pequena porção do seu corpo que aparecia sob o sofá. Nestas condições, decidiu um dia poupá-la a tal visão e, à custa de quatro horas de trabalho, pôs um lençol pelas costas e dirigiu-se para o sofá, dispondo-o de modo a ocultar-lhe totalmente o corpo, mesmo que a irmã se baixasse para espreitar. Se ela achasse desnecessário o lençol, decerto o tiraria do sofá, visto ser evidente que aquela forma de ocultação e confinamento em nada contribuíam para o conforto de Gregor; neste instante, ela deixou o lençol onde estava e ele teve mesmo a impressão de surpreender-lhe um olhar de gratidão, ao levantar cuidadosamente uma ponta do lençol para ver qual a reação da irmã àquela nova disposição.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Durante os primeiros quinze dias, os pais não conseguiram reunir a coragem necessária para entrarem no quarto de Gregor, que freqüentemente os ouvia elogiarem a atividade da irmã, que anteriormente costumavam repreender, por a considerarem, até certo ponto, uma lia inútil.  Agora, era freqüente esperarem ambos à porta, enquanto a irmã procedia à limpeza do quarto, perguntando-lhe logo que saía como corriam as coisas lá dentro, o que tinha Gregor comido, como se comportara desta vez e se porventura não melhorara um pouco. A mãe, essa, começou relativamente cedo a pretender visitá-lo, mas o pai e a irmã tentaram logo dissuadi-la, contrapondo argumentos que Gregor escutava atentamente, e que ela aceitou totalmente.  Mais tarde, só conseguiam removê-la pela forca e, quando ela exclamava, a chorar: Deixem-me ir ver o Gregor, o meu pobre filho! Não percebem que tenho de ir vê-lo, Gregor pensava que talvez fosse bom que ela lá fosse, não todos os dias, claro, mas talvez uma vez por semana; no fim de contas, ela havia de compreender, muito melhor que a irmã, que não passava de uma criança, apesar dos esforços que fazia e aos quais talvez se tivesse entregado por mera consciência infantil.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O desejo que Gregor sentia de ver a mãe não tardou em ser satisfeito. Durante o dia evitava mostrar-se à janela, por consideração para com os pais, mas os poucos metros quadrados de chão de que dispunha não davam para grandes passeios, nem lhe seria possível passar toda a noite imóvel; por outro lado, perdia rapidamente todo e qualquer gosto pela comida. Para se distrair, adquirira o hábito de se arrastar ao longo das paredes e do teto. Gostava particularmente de manter-se suspenso do teto, coisa muito melhor do que estar no chão: sua respiração se tornava mais livre, o corpo oscilava e coleava suavemente e, quase beatificamente absorvido por tal suspensão, chegava a deixar-se cair ao chão. Possuindo melhor coordenação dos movimentos do corpo, nem uma queda daquela altura tinha conseqüências. A irmã notara imediatamente esta nova distração de Gregor, visto que ele deixava atrás de si, ao deslocar-se, marcas da substância pegajosa das extremidades das pernas, e meteu na cabeça a idéia de arranjar-lhe a maior porção de espaço livre possível para os passeios, retirando as peças de mobiliário que constituíssem obstáculos para o irmão, especialmente a cômoda e a secretária. A tarefa era demasiado pesada para si e, se não se atrevia a pedir ajuda ao pai, estava fora de questão recorrer à criada, uma menina de dezesseis anos que havia tido a coragem de ficar após a partida da cozinheira, visto que a moça tinha pedido o especial favor de manter a porta da cozinha fechada à chave e abri-la apenas quando expressamente a chamavam. Deste modo, só lhe restava apelar para a mãe numa altura em que o pai não estivesse em casa. A mãe anuiu-se, entre exclamações de ávida satisfação, que diminuíram junto à porta do quarto de Gregor. É claro que a irmã entrou primeiro, para verificar se estava tudo em ordem antes de deixar a mãe entrar.  Gregor puxou precipitadamente o lençol para baixo e dobrou-o mais, de maneira a parecer que tinha sido acidentalmente atirado para cima do sofá. Desta vez não deitou a cabeça de fora para espreitar, renunciando ao prazer de ver a mãe pela satisfação de ela ter decidido afinal visitá-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Entre, que ele não está à vista - disse a irmã, certamente guiando-a pela mão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor ouvia agora as duas mulheres a esforçarem-se por deslocar a pesada cômoda e a irmã a chamar a si a maior parte do trabalho, sem dar ouvidos às admoestações da mãe, receosa de que a filha estivesse a fazer esforços demasiados. A manobra foi demorada. Passado, pelo menos, um quarto de hora de tentativas, a mãe objetou que o melhor seria deixar a cômoda onde estava, em primeiro lugar, porque era pesada de mais e nunca conseguiriam deslocá-la antes da chegada do pai e, se ficasse no meio do quarto, como estava, só dificultaria os movimentos de Gregor; em segundo lugar, nem sequer havia a certeza de que a remoção da mobília lhe prestasse um serviço. Tinha a impressão do contrário; a visão das paredes nuas deprimia-a, e era natural que sucedesse o mesmo a Gregor, dado que estava habituado à mobília havia muito tempo e a sua ausência poderia fazê-lo sentir-se só.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Não é verdade - disse em voz baixa, aliás pouco mais que murmurara, durante todo o tempo, como se quisesse evitar que Gregor, cuja localização exata desconhecia, lhe reconhecesse sequer o tom de voz, pois estava convencida de que ele não percebia as palavras -, não é verdade que, retirando-lhe a mobília, lhe mostramos não ter já qualquer esperança de que ele se cure e que o abandonamos impiedosamente à sua sorte? Acho que o melhor é deixar o quarto exatamente como sempre esteve, para que ele, quando voltar para nós, encontre tudo na mesma e esqueça com mais facilidade o que aconteceu entretanto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ao ouvir as palavras da mãe, Gregor apercebeu-se de que a falta de conversação direta com qualquer ser humano, durante os dois últimos meses, aliada à monotonia da vida em família, lhe deviam ter perturbado o espírito; se assim não fosse, não teria genuinamente ansiado pela retirada da mobília do quarto. Quereria, efetivamente, que o quarto acolhedor, tão confortavelmente equipado com a velha mobília da família, se transformasse numa caverna nua onde decerto poderia arrastar-se livremente em todas as direções, à custa do simultâneo abandono de qualquer reminiscência do seu passado humano? Sentia-se tão perto desse esquecimento total que só a voz da mãe, que há tanto tempo não ouvia, não lhe permitira mergulhar completamente nele. Nada devia ser retirado do quarto. Era preciso que ficasse tudo como estava, pois não podia renunciar à influência positiva da mobília, no estado de espírito em que se encontrava, e, mesmo que o mobiliário lhe perturbasse as voltas sem sentido, isso não redundava em prejuízo, mas sim em vantagem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Infelizmente a irmã era de opinião contrária; habituara-se, e não sem motivos, a considerar-se uma autoridade no que respeitava a Gregor, em contradição com os pais, de modo que a presente opinião da mãe era suficiente para a decidir a retirar, não só a cômoda e a secretária, mas toda a mobília, à exceção do indispensável sofá. É certo que esta decisão não era conseqüência da simples teimosia infantil nem da autoconfiança que recentemente adquirira, tão inesperada como penosamente; tinha, efetivamente, percebido que Gregor precisava de uma porção de espaço para vaguear e, tanto quanto lhe era dado observar, Gregor nunca usara sequer a mobília. Outro fator terá porventura sido igualmente o temperamento entusiástico de qualquer menina adolescente, que tende a manifestar-se em todas as ocasiões possíveis e que agora levava Grete a exagerar o drama da situação do irmão, a fim de poder auxiliá-lo mais ainda. Num quarto onde Gregor reinasse rodeado de paredes nuas, havia fortes probabilidades de ninguém alguma vez entrar, a não ser ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Assim, não se deixou dissuadir pela mãe, que parecia cada vez menos à vontade no quarto, estado de espírito que só contribuía para sentir-se mais insegura. Rapidamente reduzida ao silêncio, limitou-se, pois, a ajudar a filha a retirar a cômoda, na medida do possível. Ora, sem a cômoda podia Gregor muito bem passar, mas era forçoso que conservasse a secretária. Logo que as mulheres removeram a cômoda, à força de arquejantes arrancos, Gregor pôs a cabeça de fora, para ver como poderia intervir da maneira mais delicada e cuidadosa. Quis o destino que fosse a mãe a primeira a regressar, enquanto Grete, no quarto contíguo, tentava deslocar sozinha a cômoda, evidentemente debalde. Como a mãe não estava habituada ao seu aspecto, era provável que sofresse um grande choque ao vê-lo.  Receando que tal acontecesse, Gregor recuou precipitadamente para a outra extremidade do sofá, mas não conseguiu evitar que o lençol se agitasse ligeiramente. Esse movimento foi o bastante para alertar a mãe, que ficou imóvel por um instante e em seguida se refugiou junto de Grete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Embora Gregor tentasse convencer-se de que nada de anormal se passava, que se tratava apenas de uma mudança de algumas peças de mobiliário, acabou por reconhecer que as idas e vindas das mulheres, os sons momentâneos que produziam e o arrastar de móveis o afetavam como se tratasse de uma indisposição que viesse de todos os lados ao mesmo tempo e, por mais que encolhesse a cabeça e as pernas e se acachapasse no chão, viu-se perante a certeza de que não poderia continuar a suportar tudo aquilo por muito tempo. Tiravam-lhe tudo do quarto, privavam-no de tudo o que lhe agradava: a cômoda onde guardava a serra de recorte e as outras ferramentas tinha sido retirada, e agora tentavam remover a secretária, que quase parecia colada ao chão, na qual fizera todos os trabalhos de casa quando freqüentara a escola comercial, e, antes disso, o liceu e, pois era, até a escola primária... Não conseguia deter-se a analisar as boas intenções das duas mulheres, cuja existência quase tinha esquecido nessa altura, visto estarem tão exaustas que se dedicavam ao trabalho em silêncio, ouvindo-se apenas o pesado arrastar dos pés de ambas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Nestas condições, apressou-se a sair do esconderijo, ao mesmo tempo que as mulheres, no quarto ao lado, se apoiavam na secretária, tomando fôlego. Quatro vezes mudou de direção, pois não sabia o que salvar primeiro. De repente, avistou na parede oposta, totalmente liberta de mobiliário, a figura da mulher envolta em peles; trepou rapidamente pela parede e colou-se ao vidro da moldura, que constituía uma superfície à qual o seu corpo aderia bem e que lhe refrescava agradavelmente o ventre escaldante. Pelo menos o quadro, que o corpo de Gregor ocultava totalmente, ninguém havia de retirar. Voltou a cabeça para a porta da sala de estar, a fim de poder observar as mulheres quando regressassem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Pouco tinham descansado, visto que regressavam nesse momento, a mãe quase apoiada a Grete, que lhe passara o braço em torno da cintura.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bem, que havemos de tirar agora? perguntou Grete, olhando em volta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Foi então que deparou com Gregor. Manteve a compostura, provavelmente em atenção à mãe, e inclinou a cabeça para ela, a fim de evitar que levantasse a vista. Ao mesmo tempo, perguntou-lhe, em voz trêmula e desabrida:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Não será melhor voltarmos um instante ao refeitório?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor adivinhou facilmente as intenções de Grete: queria pôr a mãe a salvo e enxotá-lo seguidamente da parede.  Muito bem, ela que experimentasse! Agarraria ao quadro e não cederia. Preferia avançar sobre o rosto de Grete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Mas as palavras de Grete não haviam logrado senão desassossegar a mãe, que deu um passo para o lado e encarou o enorme vulto castanho no florido papel da parede.  Antes de tomar perfeita consciência de que se tratava de Gregor, gritou roucamente:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!- e deixou-se desmaiar de braços abertos no sofá, não dando mais sinal de vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Gregor! - gritou a irmã, fitando-o com um punho cerrado erguido na sua direção.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Era a primeira vez que se lhe dirigia diretamente depois da metamorfose. Correu à sala contígua em busca de um frasco de sais para reanimar a mãe. Gregor quis igualmente ajudar, pois havia tempo para salvar o quadro, mas teve de fazer grande esforço para se descolar do vidro. Ao consegui-lo, correu atrás da irmã para a sala contígua, como se pudesse aconselhá-la, a exemplo do que costumava fazer, mas não teve outro remédio senão deixar-se ficar desamparadamente atrás dela. Grete remexia por entre vários frascos e, ao virar-se, entrou em pânico ante a visão de Gregor. Um dos frascos caiu ao chão, partindo-se.  Ao saltar, um caco cortou o focinho de Gregor, ao mesmo tempo que uma droga corrosiva lhe salpicava o corpo. Sem mais delongas, Grete agarrou em todos os frascos que lhe era possível transportar e correu para a mãe, fechando violentamente a porta com o pé. Gregor via-se assim separado da mãe, que talvez estivesse à beira da morte, por sua culpa. Não se atrevia a abrir a porta, receando assustar Grete, que tinha de cuidar da mãe. Só lhe restava esperar. Consumido pelo remorso e cuidado, começou a andar para um lado e para o outro, trepando tudo, paredes, mobília e teto. Finalmente, acossado pelo desespero, viu a sala a andar à roda e caiu no meio da grande mesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Decorridos alguns instantes, Gregor estava ainda impotentemente deitado na mesa, cercado pelo silêncio, que constituía talvez um bom sintoma. Depois soou a campainha da porta. A criada estava certamente fechada na cozinha e tinha que ser Grete a abrir a porta. Era o pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Que aconteceu? - foram as suas primeiras palavras. A expressão de Grete deve ter sido suficientemente elucidativa. Respondeu em voz abafada, aparentemente com a cabeça oculta no peito:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- A mãe teve um desmaio, mas está melhor. Foi o Gregor que se soltou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bem me parecia - replicou o pai. - Eu bem vos avisei, mas vocês, as mulheres, nunca ligam.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Era evidente para Gregor que o pai tinha interpretado da pior maneira possível a explicação demasiado curta de Grete e imaginava Gregor culpado de qualquer ato violento. Urgia, portanto, deixar o pai acalmar-se, visto que não tinha tempo nem processo de dar explicações. Precipitou-se assim para a porta do quarto e comprimiu-se contra ela, para que o pai visse, ao passar do vestíbulo, que o filho tinha tido a louvável intenção de regressar imediatamente ao quarto e que, por conseguinte, não era preciso obrigá-lo a recolher-se ali, pois desapareceria num ápice, se simplesmente a porta estivesse aberta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O pai não estava em estado de espírito que lhe permitisse essas substituições. Mal o avistou, gritou um Ali simultaneamente irado e exultante. Gregor afastou a cabeça da porta e virou-a para o pai. Para dizer a verdade, não era o pai que imaginara; tinha de admitir que ultimamente se deixara absorver de tal modo pela diversão de caminhar pelo teto que não dava a atenção de outros tempos ao que se passava no resto da casa, embora fosse obrigação sua estar preparado para certas alterações. Mas, ao mesmo tempo, seria aquele realmente o seu pai? Seria o mesmo homem que costumava ver pesadamente deitado na cama quando partia para cada viagem? Que o cumprimentava quando ele voltava, à noite, deitado, de pijama, numa cadeira de braços? Que não conseguia ter-se de pé e se limitava a erguer os braços para o saudar? Que, nas raras vezes em que saía com o resto da família, um ou dois domingos por ano, nas férias, caminhava entre Gregor e a mãe; andavam bem devagar, o pai ainda mais vagarosamente do que eles, abafado dentro do velho sobretudo, arrastando-se laboriosamente com o auxílio da bengala, que pousava cautelosamente em cada degrau e que, sempre que tinha alguma coisa para dizer, quase sempre era obrigado a parar e a juntá-los todos à sua volta?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Agora estava ali de pé firme, envergando urna bela farda azul de botões dourados, das que os contínuos dos bancos usam; o vigoroso duplo queixo espetava-se para fora da dura gola alta do casaco e, sob as espessas sobrancelhas, brilhavam-lhe os olhos pretos, vívidos e penetrantes. Os cabelos brancos outrora emaranhados dividiam-se agora, bem lisos, para um e outro lado de uma risca ao meio, impecavelmente traçada. Lançou vigorosamente o boné, que tinha bordado o monograma de qualquer banco, para cima de um sofá, no outro extremo da sala e, corri as largas abas do casaco, avançou ameaçadoramente para Gregor. Provavelmente, nem ele próprio sabia o que ia fazer, mas, fosse corno fosse, ergueu o pé a uma altura pouco natural, aterrando Gregor ante o tamanho descomunal das solas dos sapatos. Mas Gregor não podia arriscar-se a enfrentá-lo, pois desde o primeiro dia da sua nova vida se tinha apercebido de que o pai considerava que só se podia lidar com ele adotando as mais violentas medidas.  Nestas condições, desatou a fugir do pai, parando quando ele parava e precipitando-se novamente em frente ao menor movimento do pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Foi assim que deram várias voltas ao quarto, sem que nada de definido sucedesse; aliás, tudo aquilo estava longe de assemelhar-se sequer a uma perseguição, dada a lentidão com que se processava. Gregor resolveu manter-se no chão, não fosse o pai interpretar como manifestação declarada de perversidade qualquer excursão pelas paredes ou pelo teto. Apesar disso, não podia suportar aquela corrida por muito mais tempo, uma vez que, por cada passada do pai, era obrigado a empenhar-se em toda uma série de movimentos e, da mesma maneira que na vida anterior nunca tivera uns pulmões famosos, começava a perder o fôlego. Prosseguia ofegante, tentando concentrar todas as energias na fuga, mal mantendo os olhos abertos, tão apatetado que não conseguia sequer imaginar qualquer processo de escapar a não ser continuar em frente, quase esquecendo que podia utilizar as paredes, repletas de mobílias ricamente talhadas, cheias de saliências e reentrâncias.  De súbito, sentiu embater perto de si e rolar à sua frente qualquer coisa que fora violentamente arremessada. Era uma maçã, à qual logo outra se seguiu. Gregor deteve-se, assaltado pelo pânico. De nada servia continuar a fugir, uma vez que o pai resolvera bombardeá-lo. Tinha enchido os bolsos de maçãs, que tirara da fruteira do aparador, e atirava-lhas uma a uma, sem grandes preocupações de pontaria. As pequenas maçãs vermelhas rebolavam no chão como que magnetizadas e engatilhadas umas nas outras.  Uma delas, arremessada sem grande força, roçou o dorso de Gregor e ressaltou sem causar-lhe dano. A que se seguiu, penetrou-lhe nas costas. Gregor tentou arrastar-se para a frente, como se, fazendo-o, pudesse deixar para trás a incrível dor que repentinamente sentiu, mas sentia-se pregado ao chão e só conseguiu acaçapar-se, completamente desorientado. Num último olhar, antes de perder a consciência, viu a porta abrir-se de repente e a mãe entrar de roldão à frente da filha, em trajos menores, pois Grete tinha-a libertado da roupa para lhe permitir melhor respiração e reanimá-la. Viu ainda a mãe correr para o pai, deixando cair no chão as saias de baixo, uma após outra, tropeçar nelas e cair nos braços do pai, em completa união com ele nesse instante, a vista de Gregor começou a falhar, enclavinhando-lhe as mãos em redor do pescoço e pedindo-lhe que poupasse a vida ao filho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;h1 style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt; Como ninguém se aventurava a retirá-la, a maçã manteve-se cravada no corpo de Gregor como recordação visível da agressão, que lhe causara um grave ferimento, afetando-o havia mais de um mês. A ferida parecia ter feito que o próprio pai se lembrasse de que Gregor era um membro da família, apesar do seu desgraçado e repelente aspecto atual, não devendo, portanto, ser tratado como inimigo; pelo contrário, o dever familiar impunha que esquecessem o desgosto e tudo suportassem com paciência.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O ferimento tinha-lhe diminuído, talvez para sempre, a capacidade de movimentos e eram-lhe agora precisos longos minutos para se arrastar ao longo do quarto, como um velho inválido; nas presentes condições, estava totalmente fora de questão a possibilidade de trepar pela parede.  Parecia-lhe que este agravamento da sua situação era suficientemente compensado pelo fato de terem passado a deixar aberta, ao anoitecer, a porta que dava para a sala de estar, a qual fitava intensamente desde uma a duas horas antes, aguardando o momento em que, deitado na escuridão do quarto, invisível aos outros, podia vê-los sentados à mesa, sob a luz, e ouvi-los conversarem, numa espécie de comum acordo, bem diferente da escuta que anteriormente escutara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;É certo que faltava às suas relações com a família a animação de outrora, que sempre recordara com certa saudade nos acanhados quartos de hotel em cujas camas úmidas se acostumara a cair, completamente esgotado.  Atualmente, passavam a maior parte do tempo em silêncio.  Pouco tempo após o jantar, o pai adormecia na cadeira de braços; a mãe e a irmã exigiam silêncio uma à outra.  Enquanto a mãe curvada sob o candeeiro, bordava para uma firma de artigos de roupa interior, a irmã, que se empregara como caixeira, estudava estenografia e francês, na esperança de melhor situação. De vez em quando, o pai acordava e, como se não tivesse consciência de que estivera a dormir, dizia à mãe:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Hoje tens cosido que te fartas! - caindo novamente no sono, enquanto as duas mulheres trocavam um sorriso cansado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Por qualquer estranha teimosia, o pai persistia em manter-se fardado, mesmo em casa, e, enquanto o pijama repousava, inútil, pendurado no cabide, dormia completamente vestido onde quer que se sentasse, como se estivesse sempre pronto a entrar em ação e esperasse apenas uma ordem do superior. Em conseqüência, a farda, que, para começar, não era nova, principiava a ter um ar sujo, malgrado os desvelados cuidados a que a mãe e a irmã se entregavam para a manter limpa. Não raro, Gregor passava a noite a fitar as muitas nódoas de gordura do uniforme, cujos botões dourados se mantinham sempre brilhantes, dentro do qual o velho dormia sentado, por certo desconfortavelmente, mas com a maior das tranqüilidades.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Logo que o relógio batia as dez, a mãe tentava despertar o marido com palavras meigas e convencê-lo depois a ir para a cama, visto que assim nem dormia descansado, que era o mais importante para quem tinha de entrar ao serviço às seis da manhã. Não obstante, com a teimosia que o não largava desde que se empregara no banco, insistia sempre em ficar à mesa até mais tarde, embora tornasse invariavelmente a cair no sono e por fim só a muito custo a mãe conseguisse que ele se levantasse da cadeira e fosse para a cama. Por mais que mãe e filha insistissem com brandura, ele mantinha-se durante um quarto de hora a abanar a cabeça, de olhos fechados, recusando-se a abandonar a cadeira. A mãe sacudia-lhe a manga, sussurrando-lhe ternamente ao ouvido, mas ele não se deixava levar. Só quando ambas o erguiam pelas axilas, abria os olhos e as fitava, alternadamente, observando quase sempre: Que vida a minha! Chama-se a isto uma velhice descansada, apoiando-se na mulher e na filha, erguia-se com dificuldade, como se não pudesse com o próprio peso, deixando que elas o conduzissem até à porta, após o que as afastava, prosseguindo sozinho, enquanto a mãe abandonava a costura e a filha pousava a caneta para correrem a ampará-lo no resto do caminho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Naquela família assoberbada de trabalho e exausta, havia lá alguém que tivesse tempo para se preocupar com Gregor mais do que o estritamente necessário! As despesas da casa eram cada vez mais reduzidas. A criada fora despedida; uma grande empregada ossuda vinha de manhã e à tarde para os trabalhos mais pesados, encarregando-se a mãe de Gregor de tudo o resto, incluindo a dura tarefa de bordar. Tinham-se visto até na obrigação de vender as jóias da família, que a mãe e a irmã costumavam orgulhosamente pôr para as festas e cerimônias, conforme Gregor descobriu uma noite, ouvindo-os discutir o preço por que haviam conseguido vendê-las. Mas o que mais lamentava era o fato de não poderem deixar a casa, que era demasiado grande para as necessidades atuais, pois não conseguiam imaginar meio algum de deslocar Gregor. Gregor bem via que não era a consideração pela sua pessoa o principal obstáculo à mudança, pois facilmente poderiam metê-lo numa caixa adequada, com orifícios que lhe permitissem respirar; o que, na verdade, os impedia de mudarem de casa era o próprio desespero e a convicção de que tinham sido isolados por uma infelicidade que nunca sucedera a nenhum dos seus parentes ou conhecidos.  Passavam pelas piores provações que o mundo impõe aos pobres; o pai ia levar o pequeno almoço aos empregados de menor categoria do banco, a mãe gastava todas as energias a confeccionar roupa interior para estranhos e a irmã saltava de um lado para outro, atrás do balcão, às ordens dos fregueses, mas não dispunham de forças para mais. E a ferida que Gregor tinha no dorso parecia abrir-se de novo quando a mãe e a irmã, depois de meterem o pai na cama, deixavam os seus trabalhos no local e se sentavam, com a cara encostada uma à outra. A mãe costumava então dizer, apontando para o quarto de Gregor:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Fecha a porta, Grete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;E lá ficava ele novamente mergulhado na escuridão, enquanto na sala ao lado as duas mulheres misturavam as lágrimas ou, quem sabe, se deixavam ficar à mesa, de olhos enxutos, a contemplar o vazio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;De dia ou de noite, Gregor mal dormia. Muitas vezes assaltava-o a idéia de que, ao tornar a abrir-se a porta, voltaria a tomar a seu cargo os assuntos da família, como sempre fizera; depois deste longo intervalo, vinham-lhe mais uma vez ao pensamento as figuras do patrão e do chefe de escritório, dos caixeiros-viajantes e dos aprendizes, do estúpido do porteiro, de dois ou três amigos empregados noutras firmas, de uma criada de quarto de um dos hotéis da província, uma recordação, doce e fugaz, de uma caixeira de uma loja de chapéus que cortejara com ardor, mas demasiado lentamente - todas lhe vinham à mente, juntamente com estranhos ou pessoas que tinha esquecido completamente. Mas nenhuma delas podia ajudá-lo a ele nem à família, pois não havia maneira de contatar com elas, pelo que se sentiu feliz quando se desvaneceram. Outras vezes não estava com disposição para preocupar-se com a família e apenas sentia raiva por nada se ralarem com ele e, embora não tivesse idéias assentes sobre o que lhe agradaria comer, arquitetava planos de assaltar a despensa, para se apoderar da comida que, no fim de contas, lhe cabia, apesar de não ter fome. A irmã não se incomodava a trazer-lhe o que mais lhe agradasse; de manhã e à tarde, antes de sair para o trabalho, empurrava com o pé, para dentro do quarto, a comida que houvesse à mão, e à noite retirava de novo com o auxílio da vassoura, sem se preocupar em verificar se ele a tinha simplesmente prova do ou - como era vulgar acontecer - havia deixado intacta.  A limpeza do quarto, procedia sempre à noite, não podia ser feita mais apressadamente. As paredes estavam cobertas de manchas de sujidade e, aqui e além, viam-se bolas de sujidade e de pó no soalho. A princípio, Gregor costumava colocar-se a um canto particularmente sujo, quando da chegada da irmã, como que a repreendê-la pelo fato. Podia ter passado ali semanas sem que ela fizesse fosse o que fosse para melhorar aquele estado de coisas; via a sujidade tão bem como ele; simplesmente, tinha decidido deixá-la tal como estava. E numa disposição pouco habitual e que parecia de certo modo ter contagiado toda a família, reservava-se, ciumenta e exclusivamente, o direito de tratar do quarto de Gregor. Certa vez a mãe procedeu a uma limpeza total do quarto, o que exigiu vários baldes de água - é claro que esta baldeação também incomodou Gregor, que teve de manter-se estendido no sofá, perturbado e imóvel -, mas isso custou-lhe bom castigo. A noite, mal a filha chegou e viu a mudança operada no quarto, correu ofendidíssima para a sala de estar e, indiferente aos braços erguidos da mãe, entregou-se a uma crise de lágrimas. Tanto o pai, que, evidentemente, saltara da cadeira, como a mãe ficaram momentaneamente a olhar para ela, surpresos e impotentes. A seguir, reagiram ambos: o pai repreendeu, por um lado, a mulher por não ter deixado a limpeza do quarto para a filha e, por outro lado, gritou com Grete, proibindo-a de tomar a cuidar do quarto; enquanto isso, a mãe tentava arrastar o marido para o quarto respectivo, uma vez que estava fora de si. Agitada por soluços, Grete batia com os punhos na mesa. Gregor, entretanto, assobiava furiosamente, por ninguém ter tido a idéia de fechar-lhe a porta, para o poupar a tão ruidoso espetáculo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Admitindo que a irmã, exausta pelo trabalho diário, se tivesse cansado de tratar de Gregor como anteriormente fazia, não havia razão para a mãe intervir, nem para ele ser esquecido. Havia a empregada, uma velha viúva cuja vigorosa ossatura lhe tinha permitido resistir às agruras de uma longa vida, que não temia Gregor. Conquanto nada tivesse de curiosa, tinha certa vez aberto acidentalmente a porta do quarto de Gregor, o qual, apanhado de surpresa, desatara a correr para um lado e para outro, mesmo que ninguém o perseguisse, e, ao vê-lo, deixara-se estar de braços cruzados. De então em diante nunca deixara de Abrir um pouco a porta, de manhã e à tarde, para o espreitar.  A princípio até o chamava, empregando expressões que certamente considerava simpáticas, tais como: Venha cá, sua barata velha! Olhem-me só para esta barata velha do Gregor não respondia a tais chamados, permanecendo imóvel, como se nada fosse com ele. Em vez de a deixarem incomodá-lo daquela maneira sempre que lhe dava na gana, bem podiam mandá-la fazer todos os dias a limpeza ao quarto! Numa ocasião, de manhã cedo, num dia em que a chuva fustigava as vidraças, talvez anunciando a chegada da Primavera. Gregor ficou tão irritado quando ela principiou de novo que correu no seu encalço, como se estivesse disposto a atacá-la, embora com movimentos lentos fracos. A empregada, em vez de assustar-se, limitou-se a erguer uma cadeira que estava junto da porta e ali ficou de boca aberta, na patente intenção de só a fechar depois de a abater sobre o dorso de Gregor.  - Então, não te aproximas mais?, perguntou, ao ver Gregor afastar-se novamente. Depois, voltou a colocar calmamente a cadeira no seu canto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ultimamente, Gregor quase não comia. Só quando passava por acaso junto da comida que lhe tinham posto abocanhava um pedaço, à guisa de distração, conservando-o na boca durante coisa’ de uma hora, após o que normalmente acabava por cuspi-lo. Inicialmente pensara que era o desagrado pelo estado do quarto que lhe tirara o apetite. Depressa se habituou às diversas mudanças que se haviam registrado no quarto. A família adquirira o hábito de atirar para o seu quarto tudo o que não cabia noutro sítio e presentemente havia lá uma série delas, pois um dos quartos tinha sido alugado a três hóspedes. Tratava-se de homens de aspecto grave, qualquer deles barbado, conforme Gregor verificara um dia, ao espreitar através de uma fenda na porta, que tinham a paixão da arrumação, não apenas no quarto que ocupavam, mas também, como habitantes da casa, em toda ela, especialmente na cozinha.  Não suportavam objetos supérfluos, para não falar de imundícies. Acresce que tinham trazido consigo a maior parte do mobiliário de que necessitavam. Isso tornava dispensáveis muitas coisas, que, insusceptíveis de venda mas mal empregadas para deitar fora, iam sendo acumuladas no quarto de Gregor, juntamente com o balde da cinza e a lata do lixo da cozinha. Tudo o que não era preciso de momento, era, pura e simplesmente, atirado para o quarto de Gregor pela empregada, que fazia tudo às pressas.  Por felicidade, Gregor só costumava ver o objeto, fosse qual fosse, e a mão que o segurava. Talvez ela tivesse intenção de tornar a levar as coisas quando fosse oportuno, ou de juntá-las para um dia mais tarde as deitar fora ao mesmo tempo; o que é fato é que as coisas lá iam ficando no próprio local para onde ela as atirava, exceto quando Gregor abria caminho por entre o monte de trastes e as afastava um pouco, primeiramente por necessidade, por não ter espaço suficiente para rastejar, mas mais tarde por divertimento crescente, embora após tais excursões, morto de tristeza e cansaço, permanecesse inerte durante horas.  Por outro lado, como os hóspedes jantavam freqüentemente lá em casa, na sala de estar comum, a porta entre esta e o seu quarto ficava muitas noites fechada;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor sempre aceitara facilmente esse isolamento, pois muitas noites em que a deixavam aberta tinha-se alheado completamente do acontecimento, enfiando-se no recanto mais escuro do quarto, inteiramente fora das vistas da família. Numa ocasião, a empregada deixou a porta ligeiramente aberta, assim tendo ficado até à chegada dos hóspedes para jantar, altura em que se acendeu o candeeiro.  Sentaram-se à cabeceira da mesa, nos lugares antigamente ocupados por Gregor, pelo pai e pela mãe, desdobraram os guardanapos e levantaram o garfo e a faca. A mãe assomou imediatamente à outra porta com uma travessa de carne, seguida de perto pela filha, que transportava outra com um montão de batatas. Desprendia-se da comida um fumo espesso. Os hóspedes curvaram-se sobre ela, como a examiná-la antes de se decidirem a comer.  Efetivamente, o do meio, que parecia dispor de uma certa autoridade sobre os outros, cortou um pedaço da carne da travessa, certamente para verificar se era tenra ou se havia que mandá-la de volta à cozinha. Mostrou um ar de aprovação, que teve o dom de provocar na mãe e na irmã, que os observavam ansiosamente, um suspiro de alívio e um sorriso de entendimento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A família de Gregor comia agora na cozinha. Antes de dirigir-se à cozinha, o pai de Gregor vinha à sala de estar e, com uma rasgada vênia, de boné na mão, dava a volta à mesa. Os hóspedes levantavam-se todos e murmuravam qualquer coisa por entre as barbas. Quando tomavam a ficar sós, punham-se a comer, em quase completo silêncio.  Gregor estranhou que, por entre os vários sons provenientes da mesa, fosse capaz de distinguir o som dos dentes a mastigarem a comida. Era como se alguém pretendesse demonstrar-lhe que para comer era preciso dispor de dentes e que, com mandíbulas que os não tivessem, por melhores que elas fossem, ninguém podia fazê-lo. Fome, tenho eu, disse tristemente Gregor, de si para si, mas não é de comida desta. Estes hóspedes a empanturrarem-se e eu para aqui a morrer de fome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Durante todo o tempo que ali passara, Gregor não se lembrava de alguma vez ter ouvido a irmã a tocar; nessa mesma noite, ouviu o som do violino na cozinha. Os hóspedes tinham acabado de jantar. O do meio trouxera um jornal e dera uma página a cada um dos outros; reclinados para trás, liam-no, enquanto fumavam. Quando se ouviu o som do violino, apuraram os ouvidos, levantaram-se e dirigiram-se nos bicos dos pés até à porta do vestíbulo, onde se detiveram, colados uns aos outros, à escuta. Sem dúvida apercebendo-se, na cozinha, dos seus movimentos, o pai de Gregor perguntou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Incomoda-os o som do violino, meus senhores? Se incomoda, paro agora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Pelo contrário - replicou o hospede do meio -, não poderá a Menina Samsa vir tocar ali para a sala ao pé de nós?  Sempre é mais apropriado e está-se muito melhor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Oh, com certeza - respondeu o pai de Gregor, como se fosse ele o violinista.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Os hóspedes regressaram à sala de estar, onde ficaram à espera. Imediatamente apareceu o pai de Gregor com a estante de música, a mãe com a partitura e a irmã com o violino. Grete fez silenciosamente os preparativos para tocar.  Os pais, que nunca tinham alugado ‘quartos e por esse motivo tinham uma noção exagerada da cortesia devida aos hóspedes, não se atreveram a sentar-se nas próprias cadeiras. o pai encostou-se à porta, com a mão direita enfiada entre dois botões do casaco, cerimoniosamente abotoado até acima. Quanto à mãe, um dos hóspedes ofereceu-lhe a cadeira, onde se sentou a uma borda, sem sequer a mexer do sítio onde ele a colocara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A irmã de Gregor começou a tocar, enquanto os pais, sentados de um lado e do outro, lhe observavam atentamente os movimentos das mãos. Atraído pela música, Gregor aventurou-se a avançar ligeiramente, até ficar com a cabeça dentro da sala de estar. Quase não se surpreendia com a sua crescente falta de consideração para com os outros; fora-se o tempo em que se orgulhava de ser discreto.  A verdade, porém, é que, agora mais do que nunca, havia motivos para ocultar-se: dada a espessa quantidade de pó que lhe enchia o quarto e que se levantava no ar ao menor movimento, ele próprio estava coberto de pó. Ao deslocar-se, arrastava atrás de si cabelos e restos de comida que se lhe agarravam ao dorso e aos flancos. A sua indiferença em relação a tudo era grande de mais para dar-se ao trabalho de deitar-se de costas e esfregar-se no tapete, para se limpar, como antigamente fazia várias vezes ao dia. E, apesar daquele estado, não teve qualquer pejo em avançar um pouco mais, penetrando no soalho imaculado da sala.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Era evidente que ninguém se apercebera da sua presença.  A família estava totalmente absorta no som do violino, mas os hóspedes, que inicialmente tinham permanecido de pé, com as mãos nos bolsos, quase em cima da estante de música, de tal maneira que por pouco poderiam ler também as notas, o que devia ter perturbado a irmã, tinham-se logo afastado para junto da janela, onde sussurravam de cabeça baixa, e ali permaneceram até que o Senhor Samsa começou a fitá-los ansiosamente. Efetivamente, era por de mais evidente que tinham sido desapontadas as suas esperanças de ouvirem uma execução de qualidade ou com interesse, que estavam saturados da audição e apenas continuavam a permitir que ela lhes perturbasse o sossego por mera questão de cortesia. Sua irritação era visível pela maneira como sopravam o fumo dos charutos para o ar, pela boca e pelo nariz. Grete estava a tocar tão bem!  Tinha o rosto inclinado para o instrumento e os olhos tristes seguiam atentamente a partitura. Gregor arrastou-se um pouco mais para diante e baixou a cabeça para o chão, a fim de poder encontrar o olhar da irmã. Poderia ser realmente um animal, quando a música tinha sobre si tal efeito?  Parecia abrir diante de si o caminho para o alimento desconhecido que tanto desejava. Estava decidido a continuar o avanço até chegar ao pé da irmã e puxar-lhe pela saia, para dar-lhe a perceber que devia ir tocar para o quarto dele, visto que ali ninguém como ele apreciava a sua música. Nunca a deixaria sair do seu quarto, pelo menos enquanto vivesse. Pela primeira vez, o aspecto repulsivo seria de utilidade: poderia vigiar imediatamente todas as portas do quarto e cuspir a qualquer intruso. A irmã não precisava sentir-se forçada, porque ficaria à vontade com ele. Sentaria no sofá junto dele e inclinaria para confiar-lhe que estava na firme disposição de matriculá-la no Conservatório e que, se não fosse a desgraça que lhe acontecera, no Natal anterior - será que o Natal fora há muito tempo? - teria anunciado essa decisão a toda a família, não permitindo qualquer objeção. Depois de tal confidência, a irmã desataria em pranto e Gregor levantaria até se apoiar no ombro dela e beijaria seu pescoço, agora liberto de colares, desde que estava empregada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Senhor Samsa! - gritou o hóspede do meio ao pai de Gregor, ao mesmo tempo que, sem desperdiçar mais palavras, apontava para Gregor, que lentamente se esforçava por avançar. o violino calou-se e o hóspede do meio começou a sorrir para os companheiros, acenando com a cabeça. Depois tomou a olhar para Gregor. Em vez de enxotá-lo, o pai parecia julgar mais urgente acalmar os hóspedes, embora estes não estivessem nada agitados e até parecessem mais divertidos com ele do que com a audição de violino, Precipitou-se para eles e, estendendo os braços, tentou convencê-los a voltarem ao quarto que ocupavam, ao mesmo tempo que lhes ocultava a visão de Gregor. Nessa altura começaram a ficar mesmo incomodados devido ao comportamento do velho o porque compreendessem de repente que, tinham Gregor por vizinho de quarto. Pediram-lhe satisfações, agitando os braços no ar como ele, ao mesmo tempo que confiavam embaraçadamente as barbas, e só relutantemente recuaram para o quarto que lhes estava destinado. A irmã de Gregor, que para ali se deixara ficar, desamparada, depois de tão brusca interrupção da sua execução musical, caiu novamente em si, endireitou-se rapidamente, depois de um instante a segurar no violino e no arco e a fitar a partitura, e, atirando com o violino para o colo da mãe, que permanecia na cadeira a lutar com um acesso de asma, correu para o quarto dos hóspedes, para onde o pai os conduzia, agora com maior rapidez. Com gestos hábeis, compôs os travesseiros e as colchas. Ainda os hóspedes não tinham chegado ao quarto, saía pela porta fora, deixando as camas feitas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O velho parecia uma vez mais tão dominado pela sua obstinada autoconfiança que esquecia completamente o respeito devido aos hóspedes. Continuou a empurrá-los para a porta do quarto, até que o hóspede do meio, ao chegar mesmo à porta, bateu ruidosamente o pé no chão, obrigando-o a deter-se. Levantando a mão e olhando igualmente para a mãe e filha, falou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Se me permitem, tenho a informá-los de que, devido às repugnantes condições desta casa e da família - e aqui cuspiu no chão, com ênfase eloqüente, prescindo imediatamente do quarto. É claro que não pagarei um tostão pelos dias que aqui passei; muito pelo contrário, vou pensar seriamente em instaurar-lhes uma ação por perdas e danos, com base em argumentos que, podem crer, são susceptíveis de provas mais que suficientes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Interrompeu-se, ficando a olhar em frente, como se esperasse qualquer coisa. Efetivamente, os dois companheiros entraram também na questão:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- E nós desistimos também do quarto. - A seguir, o hóspede do meio girou o puxador da porta e fechou-a com estrondo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Cambaleante e tateando o caminho, o pai de Gregor deixou-se cair na cadeira. Quase parecia distendendo-se para a habitual sesta da noite, mas os espasmódicos movimentos da cabeça, que se revelavam incontroláveis, mostravam que não estava na disposição de dormir. Durante tudo aquilo, Gregor limitara-se a ficar quieto no mesmo sítio onde os hóspedes o tinham surpreendido. Não conseguia mover-se, em face do desapontamento e da derrocada dos seus projetos e também, quem sabe, devido à fraqueza resultante de vários dias sem comer. Com certo grau de certeza, temia que a qualquer momento a tensão geral se descarregasse num ataque à sua pessoa, e aguardava-o. Nem sequer assustou com o barulho que o violino, que escorregou do colo da mãe e caiu no chão.  - Queridos pais - disse a irmã, batendo com a mão na mesa, à guisa de intróito as coisas não podem continuar neste pé. Talvez não percebam o que se está a passar, ma eu percebo. Não pronunciarei o nome do meu irmão na presença desta criatura e, portanto, só digo isto: temos que ver-nos livres dela. Tentávamos cuidar desse bicho e suportá-lo até onde era humanamente possível, e acho que ninguém tem seja o que for a censurar-nos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ela tem toda a razão, disse o pai, de si para si. A mãe, que estava ainda em estado de choque por causa da falta de ar, começou a tossir em tom cavo, pondo a mão à frente da boca, comum olhar selvagem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A irmã correu para junto dela e amparou-lhe a testa. As palavras de Grete pareciam ter posto termo aos pensamentos errantes do pai. Endireitou-se na cadeira, tateando o boné da farda que estava junto aos pratos dos hóspedes, ainda na mesa, e, de vez em quando, olhava para a figura imóvel de Gregor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Temos que nos ver livres dele - repetiu Grete, explicitamente, ao pai, já que a mãe tossia tanto que não podia ouvi uma palavra. - Ele ainda será a causa da sua morte, estou mesmo a ver. Quando se tem de trabalhar tanto como todos nós, não se pode suportar, ainda por cima, este tormento constante em casa. Pelo menos, eu já não agüento mais. - E pôs-se a soluçar tão dolorosamente que as lágrimas caíam no rosto da mãe, a qual as enxugava mecanicamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Mas que podemos nós fazer, querida? - perguntou o pai, solidário e compreensivo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;A filha limitou-se a encolher os ombros, mostrando a sensação de desespero que a dominava, em flagrante contraste com a segurança de antes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Se ele nos notasse... - continuou o pai, quase como se fizesse uma pergunta. Grete, que continuava a soluçar, agitou veementemente a mão, dando a entender como era impensável.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Se ele nos notasse - repetiu o velho, fechando os olhos, para avaliar a convicção da filha de que não havia qualquer possibilidade de entendimento, talvez pudéssemos chegar a um acordo com ele. Mas assim...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Ele tem de ir embora - gritou a irmã de Gregor. - É a única solução, pai. Tem é de tirar da cabeça a idéia de que aquilo é o Gregor. A causa de todos os nossos problemas é precisamente termos acreditado nisso durante demasiado tempo. Como pode aquilo ser o Gregor? Se fosse realmente o Gregor, já teria percebido há muito tempo que as pessoas não podem viver com semelhante criatura e teria ido embora de boa vontade. Não teríamos o meu irmão, mas podiam continuar a viver e a respeitar a sua memória. Assim, esta criatura nos persegue e afugenta nossos hóspedes. É evidente que a casa toda só para ele e, por sua vontade, iríamos todos dormir na rua. Ora olhe pai... - estremeceu de súbito. - Lá está ele outra vez naquilo! E num acesso de pânico que Gregor não conseguiu compreender largou a mãe, puxando-lhe literalmente a cadeira, como se preferisse sacrificar a mãe a estar perto de Gregor. Precipitadamente, refugiou-se atrás do pai, que também se levantou da cadeira, preocupado com a agitação dela, e estendeu um pouco os braço, como se quisesse protegê-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Gregor não tivera a menor intenção de assustar fosse quem fosse, e muito menos a irmã. Tinha simplesmente começado a virar-se, para rastejar de regresso ao quarto, Compreendia que a operação devia causar medo, Pois estava tão diminuído que só lhe era possível efetuar a rotação erguendo a cabeça e apoiando-se com ela no chão a cada passo. Parou e olhou em volta. Pareciam ter compreendido a Pureza das suas intenções, e o alarme fora apenas passageiro; agora todos, em melancólico silêncio. A mãe continuava sentada, com as pernas rigidamente esticadas e comprimidas uma contra a outra, com os olhos a fecharem-se de exaustão. o pai e a irmã estavam sentados ao lado um do outro, a irmã com um braço passado em torno do pescoço do pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Talvez agora me deixem dar a volta, pensou Gregor, retomando os seus esforços. Não podia evitar resfolgar de esforço e, de vez em quando, era forçado a parar, para recobrar o fôlego. Ninguém o apressou, deixando-o completamente entregue a si próprio. Completada a volta, começou imediatamente a rastejar direito ao quarto. Ficou surpreendido com a distância que dele o separava e não conseguiu perceber como tinha sido capaz de cobri-la há pouco, quase sem o notar. Concentrado na tarefa de rastejar o mais depressa possível, mal reparou que nem um som, nem uma exclamação da família, lhe perturbavam o avanço. Só quando estava no limiar da porta é que virou a cabeça para trás, não completamente, porque os músculos do pescoço estavam a ficar perros, mas o suficiente para verificar que ninguém se tinha mexido atrás dele, exceto a irmã, que se pusera de pé. o seu último olhar foi para a mãe, que ainda não mergulhara completamente no sono.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Mal tinha entrado no quarto, sentiu fecharem apressadamente a porta e darem a volta à chave. O súbito ruído atrás de si assustou-o tanto que as pernas fraquejaram.  Fora a irmã que revelara tal precipitação. Tinha-se mantido de pé, à espera, e dera um salto para fechar a porta.  Gregor, que nem tinha ouvido a sua aproximação, escutou-lhe a voz:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Até que enfim! - exclamou ela para os pais, ao girar a chave na fechadura.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- E agora?, perguntou Gregor a si mesmo, relanceando os olhos pela escuridão. Não tardou em descobrir que não podia mexer as pernas. Isto não o surpreendeu, pois o que achava pouco natural era que alguma vez tivesse sido capaz de agüentar-se em cima daquelas frágeis perninhas.  Tirando isso, sentia-se relativamente bem. É certo que lhe doía o corpo todo, mas parecia-lhe que a dor estava a diminuir e que em breve desapareceria. A maçã podre e a zona inflamada do dorso em torno dela quase não o incomodavam.  Pensou na família com ternura e amor. A sua decisão de partir era, se possível, ainda mais firme do que a da irmã. Deixou-se ficar naquele estado de vaga e calma meditação até o relógio da torre bater as três da manhã.  Uma vez mais, os primeiros alvores do mundo que havia para além da janela penetraram-lhe a consciência. Depois, a cabeça pendeu-lhe inevitavelmente para o chão e de suas narinas saiu um último e débil suspiro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;De manhã, ao chegar, a empregada, com toda a força e impaciência, batia sempre violentamente com as portas, por mais que lhe recomendassem que o não fizesse, pois ninguém podia gozar um momento de sossego desde que ela chegava, não viu nada de especial ao espreitar, como de costume, para dentro do quarto de Gregor. Pensou que ele se mantinha imóvel de propósito, fingindo-se amuado, pois julgava-o capaz das maiores espertezas. Tinha à mão a vassoura de cabo comprido, procurou obrigá-lo a pôr-se de pé com ela; empunhando-a à entrada da porta.  Ao ver que nem isso surtia efeito, irritou-se e bateu-lhe com um pouco mais de força, e só começou a sentir curiosidade depois de não encontrar qualquer resistência. Compreendendo-se repentinamente do que sucedera, arregalou os olhos e, deixando escapar um assobio, não ficou mais tempo a pensar no assunto; escancarou a porta do quarto dos Samsa e gritou a plenos pulmões para a escuridão:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Venham só ver isto: ele morreu! Está para ali estendido, morto!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O Senhor e a Senhora Samsa ergueram-se na cama e, ainda sem perceberem completamente o alcance da exclamação da empregada, experimentaram certa dificuldade em vencer o choque que lhes produzira. A seguir, saltaram da cama, cada um do seu lado. O Senhor Samsa pôs um cobertor pelos ombros; a Senhora Samsa saiu de camisa de dormir, tal como estava. E foi neste preparo que entraram no quarto de Gregor. Entretanto, abrira-se também a porta da sala de estar, onde Grete dormia desde a chegada dos hóspedes; estava completamente vestida, como se não tivesse chegado a deitar-se, o que parecia confirmar-se igualmente pela palidez do rosto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Morto? - perguntou a Senhora Samsa, olhando inquisitorialmente para a criada, embora pudesse ter verificado por si própria e o fato fosse de tal modo evidente que dispensava qualquer investigação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Parece-me que sim - respondeu a criada, que confirmou a afirmação empurrando o corpo inerte bem para um dos extremos do quarto, com a vassoura. A Senhora Samsa fez um movimento como que para impedi-lo, mas logo se deteve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Muito bem - disse o Senhor Samsa -, louvado seja Deus.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Persignou-se, gesto que foi repetido pelas três mulheres.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Grete, que não conseguia afastar os olhos do cadáver, comentou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Vejam só como ele estava magro. Há tanto tempo que não comia! Quando se ia buscar à comida, estava exatamente como quando se tinha posto no quarto. - Efetivamente o corpo de Gregor apresentava-se espalmado e seco, agora que se podia ver de perto e sem estar apoiado nas patas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Chega aqui um bocadinho, Grete disse a Senhora Samsa, com um sorriso trêmulo, A filha seguiu-os até ao quarto, sem deixar de voltar-se para ver o cadáver. A empregada fechou a porta e abriu a janela de par em par. Apesar de ser ainda muito cedo, sentia-se um certo calor no ar matinal.  No fim de contas, estava-se já no fim de Março.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Emergindo do quarto, os hóspedes admiraram-se de não ver o almoço preparado. Tinham sido esquecidos.  - Onde está o nosso almoço? - perguntou sobranceiramente o hóspede do meio à criada. Esta, porém, levou o indicador aos lábios e, sem uma palavra, indicou-lhes precipitadamente o quarto de Gregor. Para lá se dirigiram e ali ficaram especados, com as mãos nos bolsos dos casacos, em torno do cadáver de Gregor, no quarto agora muito bem iluminado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Nessa altura abriu-se a porta do quarto dos Samsa e apareceu o pai, fardado, dando uma das mãos à mulher e outra à filha. Aparentavam todos um certo ar de terem chorado e, de vez em quando, Grete escondia o rosto no braço do pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Saiam imediatamente da minha casa! - exclamou o Senhor Samsa, apontando a porta, sem deixar de dar os braços à mulher e à filha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Que quer o senhor dizer com isso? - interrogou-o o hóspede do meio, um tanto apanhado de surpresa, com um débil sorriso. os outros dois puseram as mãos atrás das costas e começaram a esfregá-las, como se aguardassem, felizes, a concretização de uma disputa da qual haviam de sair vencedores.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Quero dizer exatamente o que disse respondeu o Senhor Samsa, avançando a direito para o hóspede, juntamente com as duas mulheres. O interlocutor manteve-se no lugar, momentaneamente calado e fitando o chão, como se tivesse havido uma mudança no rumo dos seus pensamentos.  - Então sairemos, pois, com certeza - respondeu depois, erguendo os olhos para o Senhor Samsa, como se, num súbito acesso de humildade, esperasse que tal decisão fosse novamente ratificada. O Senhor Samsa limitou-se a acenar uma ou duas vezes com a cabeça e unia expressão significativa no olhar. Na circunstância, o hóspede encaminhou-se, com largas passadas, para o vesti- bulo. Os dois amigos, que escutavam a troca de palavras e tinham deixado momentaneamente de esfregar as mãos, apressaram-se a segui-lo, como se receassem que o Senhor Samsa chegasse primeiro ao vestíbulo, impedindo-os de se juntarem ao chefe. Chegados ao vestíbulo, recolheram os chapéus e as bengalas, fizeram uma vênia silenciosa e deixaram a casa. Com uma desconfiança que se revelou infundada, o Senhor Samsa e as duas mulheres seguiram-nos até ao patamar; debruçados sobre o corrimão, acompanharam com o olhar a lenta mas decidida progressão, escada abaixo, das três figuras, que ficavam ocultas no patamar de cada andar por que iam passando, logo voltando a aparecer. no instante seguinte. Quanto menores se tornavam na distância, menor se tornava o interesse com que a família Samsa os seguia. Quando o rapaz do talho, subindo galhardamente as escadas com o tabuleiro à cabeça, se cruzou com eles, o Senhor Samsa e as duas mulheres acabaram por abandonar o patamar e recolher a casa, como se lhes tivessem tirado um peso de cima.  Resolveram passar o resto do dia a descansar e dar mais tarde um passeio. Além de merecerem essa pausa no trabalho, necessitavam absolutamente dela. Assim, sentaram-se à mesa e escreveram três cartas de justificação de ausência: o Senhor Samsa à gerência do banco, a Senhora Samsa à dona da loja para quem trabalhava e Grete ao patrão da firma onde estava empregada. Enquanto escreviam, apareceu a empregada e avisou que iria sair naquele momento, pois já tinha acabado o trabalho diário.  A princípio, limitaram-se a acenar afirmativamente, sem sequer levantarem a vista, mas, como ela continuasse ali especada, olharam irritadamente para ela.  - Sim? - disse o Senhor Samsa. A criada sorria no limiar da porta, como se tivesse boas notícias a dar-lhes, mas não estivesse disposta a dizer uma palavra, a menos que fosse diretamente interrogada. A pena de avestruz espetada no chapéu, com que o Senhor Samsa embirrava desde o próprio dia em que a mulher tinha começado a trabalhar lá em casa, agitava-se animadamente em todas as direções.  - Sim, o que há? - perguntou o Senhor Samsa, que lhe merecia mais respeito do que os outros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Bem - replicou a criada, rindo de tal maneira que não conseguiu prosseguir imediatamente -, era só isto: não é preciso preocuparem-se com a maneira de se verem livres daquilo aqui no quarto ao lado. Eu já tratei de tudo.  -O Senhor Samsa e Grete curvaram-se novamente sobre as cartas, parecendo preocupados. Percebendo que ela estava ansiosa por começar a delatar todos os pormenores, o Senhor Samsa interrompeu-a com um gesto decisivo.  Não lhe sendo permitido contar a história, a mulher lembrou-se da pressa que tinha e, obviamente ressentida, atirou-lhes um - Bom dia a todos - disse e girou desabridamente nos calcanhares, afastando-se no meio de um assustador bater de portas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Hoje à noite vamos despedi-la - disse o Senhor Samsa, mas nem a mulher nem a filha deram qualquer resposta, pois a criada parecia ter perturbado novamente a tranqüilidade que mal tinham recuperado. Levantaram-se ambas e foram-se postar à janela, muito agarradas uma à outra. O Senhor Samsa voltou-se na cadeira, para as observar durante uns instantes. Depois dirigiu-se a elas:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;- Então, então! O que lá vai, lá vai. E podiam dar-me um bocado mais de atenção. - As duas mulheres responderam imediatamente a este apelo, precipitando-se para ele e acarinhando-o, após o que acabaram rapidamente as cartas.  Depois saíram juntos de casa, coisa que não sucedia havia meses, e meteram-se num trem em direção ao campo, nos arredores da cidade. Dentro do trem onde eram os únicos passageiros, sentia-se o calor do sol. Confortavelmente reclinados nos assentos, falaram das perspectivas futuras, que, bem vistas as coisas, não eram más de todo.  Discutiram os empregos que tinham, o que nunca tinham feito até então, e chegaram à conclusão de que todos eles eram estupendos e pareciam promissores. A melhor maneira de atingirem uma situação menos apertada era, evidentemente, mudarem-se para uma casa menor, que fosse mas barata, mas também com melhor situação e mais fácil de governar que a anterior, cuja escolha fora feita por Gregor. Enquanto conversavam sobre estes assuntos, o Senhor e a Senhora Samsa notaram, de súbito, quase ao mesmo tempo, a crescente vivacidade de Grete, de que, apesar de todos os desgostos dos últimos tempos, que a haviam tornado pálida, se tinha transformado numa bonita e esbelta menina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;O reconhecimento desta transformação tranqüilizou-os e, quase inconscientemente, trocaram olhares de aprovação total, concluindo que se aproximava a altura de lhe arranjar um bom marido. E quando, terminado o passeio, a filha se pôs de pé antes deles, distendendo o corpo jovem, sentiram, com isso, que aqueles novos sonhos e suas esperançosas intenções haviam de ser realizados.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.culturabrasil.pro.br/zip/metamorfose.rtf"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 7.5pt; font-family: Verdana;"&gt;A Metamorfose - Franz Kafka (em RTF) 467 kb&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://www.culturabrasil.pro.br/zip/metamorfose.pdf"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 7.5pt; font-family: Verdana;"&gt;A Metamorfose - Fraz Kafka (em PDF) 149 kb&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://www.culturabrasil.pro.br/ametamorfose.htm"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 7.5pt; font-family: Verdana;"&gt;A Metamorfose - Franz Kafka (Versão Para WEB)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3909042165508243234-5846791317358043887?l=contoscitados.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contoscitados.blogspot.com/feeds/5846791317358043887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/02/metamorfose-franz-kafka.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5846791317358043887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5846791317358043887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/02/metamorfose-franz-kafka.html' title='A METAMORFOSE - FRANZ KAFKA'/><author><name>?                      ?</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09677894121972171715</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234.post-5606548923696782389</id><published>2010-01-11T00:26:00.000-08:00</published><updated>2010-01-11T00:37:44.792-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='julio cortazar'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='realismo fantastico'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='o perseguidor'/><title type='text'>EL PERSEGUIDOR  Julio Cortázar</title><content type='html'>&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 9"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 9"&gt;&lt;link rel="File-List" href="file:///C:/DOCUME%7E1/Fabiana/CONFIG%7E1/Temp/msoclip1/01/clip_filelist.xml"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:donotoptimizeforbrowser/&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-parent:""; 	margin:0cm; 	margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:12.0pt; 	font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 	{size:21.0cm 842.0pt; 	margin:70.9pt 70.9pt 70.9pt 70.9pt; 	mso-header-margin:35.45pt; 	mso-footer-margin:35.45pt; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt;&lt;/style&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;                                       &lt;/span&gt;In memorial de CH.P.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: left;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;                                                                      &lt;/span&gt;Sé fiel hasta la muerte&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;                                                                   &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;          &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;Apocalipsis 2:10&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;                                                                         &lt;/span&gt;O make me a mask.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;                                                                               &lt;/span&gt;Dylan Thomas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OODédée me ha llamado por la tarde diciéndome que Johnny no estaba bien, y he ido en seguida al hotel. Desde hace unos días Johnny y Dédée viven en un otel de la rue Lagrange, en una pieza del cuarto piso. Me ha bastado ver la puerta de la pieza para darme cuenta de que Johnny está en la peor de las miserias; la ventana da a un patio casi negro, y a la una de la tarde hay que tener la luz encendida si se quiere leer el diario o verse la cara. No hace frío, pero he encontrado a Johnny envuelto en una frazada, encajado en un roñoso sillón que larga por todos lados pedazos de estopa amarillenta. Dédée está envejecida, y el vestido rojo le queda muy mal; es un vestido para el trabajo, para las luces de la escena; en esa pieza del&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;hotel se convierte en una especie de coágulo repugnante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -El compañero Bruno es fiel como el mal aliento -ha dicho Johnny a manera de saludo, remontando las rodillas hasta apoyar en ellas el mentón. Dédée me ha alcanzado una silla y yo he sacado un paquete de Gauloises. Traía un frasco de ron en el bolsillo, pero no he querido mostrarlo hasta hacerme una idea de lo que pasa. Creo que lo más irritante era la lamparilla con su ojo arrancado colgando del hilo sucio de moscas. Después de mirarla una o dos veces, y ponerme la mano como pantalla, le he preguntado a Dédée si no podíamos apagar la lamparilla y arreglarnos con la luz de la ventana. Johnny seguía mis palabras y mis gestos con una gran atención distraída, como un gato que mira fijo pero que se ve que está por&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;completo en otra cosa; que es otra cosa. Por fin Dédée se ha levantado y ha apagado la luz. En lo que quedaba, una mezcla de gris y negro, nos hemos reconocido mejor. Johnny ha sacado una de sus largas manos flacas de debajo de la frazada, y yo he sentido la fláccida tibieza de su piel. Entonces Dédée ha dicho que iba a preparar unos nescafés. Me ha alegrado saber que por lo menos tienen una lata de nescafé. Siempre que una persona tiene una lata de nescafé me doy cuenta de que no está en la última miseria; todavía puede resistir un poco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Hace rato que no nos veíamos -le he dicho a Johnny-. Un mes por lo menos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tú no haces más que contar el tiempo -me ha contestado de mal humor-. El primero, el dos, el tres, el veintiuno. A todo le pones un número, tú. Y ésta es igual. ¿Sabes por qué está furiosa? Porque he perdido el saxo. Tiene razón, después de todo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Pero cómo has podido perderlo? -le he preguntado, sabiendo en el mismo momento que era justamente lo que no se le puede preguntar a Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;-En el métro -ha dicho Johnny-. Para mayor seguridad lo había puesto debajo del asiento. Era magnífico viajar sabiendo que lo tenía debajo de las piernas, bien seguro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Se dio cuenta cuando estaba subiendo la escalera del hotel -ha dicho Dédée, con la voz un poco ronca-. Y yo tuve que salir como una loca a avisar a los del métro, a la policía.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Por el silencio siguiente me he dado cuenta de que ha sido tiempo perdido. Pero Johnny ha empezado a reírse como hace él, con una risa más atrás de los dientes y de los labios.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Algún pobre infeliz estará tratando de sacarle algún sonido -ha ,dicho-. Era uno de los peores saxos que he tenido nunca; se veía que Doc Rodríguez había tocado en él, estaba completamente deformado por el lado del alma. Como aparato en sí no era malo, pero Rodríguez es capaz de echar a perder un Stradivarius con solamente afinarlo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Y no puedes conseguir otro?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;-Es lo que estamos averiguando -ha dicho Dédée-. Parece que Rory Friend tiene uno. Lo malo es que el contrato de Johnny...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -El contrato -ha remedado Johnny-. Qué es eso del contrato. Hay que tocar y se acabó, y no tengo saxo ni dinero para comprar uno, y los muchachos están igual que yo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Esto último no es cierto, y los tres lo sabemos. Nadie se atreve ya a prestarle un instrumento a Johnny, porque lo pierde o acaba con él en seguida. Ha perdido el saxo de Louis Rolling en Bordeaux, ha roto en tres pedazos, pisoteándolo y golpeándolo, el saxo que Dédée había comprado cuando lo contrataron para una gira por Inglaterra. Nadie sabe ya cuántos instrumentos lleva perdidos, empeñados o rotos. Y en todos ellos tocaba como yo creo que solamente un dios puede tocar un saxo alto, suponiendo que hayan renunciado a las liras y a las flautas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Cuándo empiezas, Johnny?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No sé. Hoy, creo, ¿eh, Dé?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No, pasado mañana.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Todo el mundo sabe las fechas menos yo -rezonga Johnny, tapándose hasta las orejas con la frazada-. Hubiera jurado que era esta noche, y que esta tarde había que ir a ensayar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Lo mismo da -ha dicho Dédée-. La cuestión es que no tienes saxo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Cómo lo mismo da? No es lo mismo. Pasado mañana es después de mañana,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;y mañana es mucho después de hoy. Y hoy mismo es bastante después de ahora, en que estamos charlando con el compañero Bruno y yo me sentiría mucho mejor si me pudiera olvidar del tiempo y beber alguna cosa caliente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Ya va a hervir el agua, espera un poco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No me refería al calor por ebullición ha dicho Johnny. Entonces he sacado el frasco de ron y ha sido como si encendiéramos la luz, porque Johnny ha abierto de par en par la boca, maravillado, y sus dientes se han puesto a brillar, y hasta Dédée ha tenido que sonreírse al verlo tan asombrado y contento. El ron con el nescafé no estaba mal del todo, y los tres nos hemos sentido mucho mejor después del segundo trago y de un cigarrillo. Ya para entonces he advertido que Johnny se retraía poco a poco y que seguía haciendo alusiones al tiempo, un tema que le preocupa desde que lo conozco. He visto pocos hombres tan preocupados por todo lo que se refiere al tiempo. Es una manía, la peor de sus manías, que son tantas. Pero él la despliega y la explica con una gracia que pocos pueden resistir. Me he acordado de un ensayo antes de una grabación, en Cincinnati, y esto era mucho antes de venir a París, en el cuarenta y nueve o el cincuenta. Johnny estaba en gran forma en esos días, y yo había ido al ensayo nada más que para escucharlo a él y también a Miles Davis. Todos tenían ganas de tocar, estaban contentos, andaban bien vestidos (de esto me acuerdo quizá por contraste, por lo mal vestido y lo sucio que anda ahora Johnny), tocaban con gusto, sin ninguna impaciencia, y el técnico de sonido hacia señales de contento detrás de su ventanilla, como un babuino satisfecho. Y justamente en ese momento, cuando Johnny estaba como perdido en su alegría, de golpe dejó de tocar y soltándole un puñetazo a no sé quién dijo: "Esto lo estoy tocando mañana", y los muchachos se quedaron cortados, apenas dos o tres siguieron unos compases, como un tren que tarda en frenar, y Johnny se golpeaba la frente y repetía: "Esto ya lo toqué mañana, es horrible, Miles, esto ya lo toqué mañana", y no lo podían hacer salir de eso, y a partir de entonces todo anduvo mal, Johnny tocaba sin ganas y deseando irse (a drogarse otra vez, dijo el técnico de sonido muerto de rabia), y cuando lo vi salir, tambaleándose y con la cara cenicienta, me pregunté si eso iba a durar todavía mucho tiempo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Creo que llamaré al doctor Bernard -ha dicho Dédée, mirando de reojo a Johnny, que bebe su ron a pequeños sorbos-. Tienes fiebre, y no comes nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -El doctor Bernard es un triste idiota -ha dicho Johnny, lamiendo su vaso-. Me va a dar aspirinas, y después dirá que le gusta muchísimo el jazz, por ejemplo Ray Noble. Te das una idea, Bruno. Si tuviera el saxo lo recibiría con una música que lo haría bajar de vuelta los cuatro pisos con el culo en cada escalón.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -De todos modos no te hará mal tomarte las aspirinas -he dicho, mirando de reojo a Dédée-. Si quieres yo telefonearé al salir, así Dédée no tiene que bajar. Oye pero ese contrato... Si empiezas pasado mañana creo que se podrá hacer algo. También yo puedo tratar de sacarle un saxo a Rory Friend. Y en el peor de los casos... La cuestión es que vas a tener que andar con más cuidado, Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;-Hoy no -ha dicho Johnny mirando el frasco de ron-. Mañana, cuando tenga el saxo. De manera que no hay por qué hablar de eso ahora. Bruno, cada vez que me doy mejor cuenta de que el tiempo... Yo creo que la música ayuda siempre a comprender un poco este asunto. Bueno, no a comprender porque la verdad es que no comprendo nada. Lo único que hago es darme cuenta de que hay algo. Como esos sueños, no es cierto, en que empiezas a sospecharte que todo se va a echar a perder, y tienes un poco de miedo por adelantado; pero al mismo tiempo no estás nada seguro, y a lo mejor todo se da vuelta como un panqueque y de repente estás acostado con una chica preciosa y todo es divinamente perfecto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Dédée está lavando las tazas y los vasos en un rincón del cuarto. Me he dado cuenta de que ni siquiera tienen agua corriente en la pieza; veo una palangana con flores rosadas y una jofaina que me hace pensar en un animal embalsamado. Y Johnny sigue hablando con la boca tapada a medias por la frazada, y también él parece un embalsamado con las rodillas contra el mentón y su cara negra y lisa que el ron y la fiebre empiezan a humedecer poco a poco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -He leído algunas cosas sobre todo eso, Bruno. Es muy raro, y en realidad tan difícil... Yo creo que la música ayuda, sabes. No a entender, porque en realidad no entiendo nada. -Se golpea la cabeza con el puño cerrado. La cabeza le suena como un coco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No hay nada aquí dentro, Bruno, lo que se dice nada. Esto no piensa ni entiende nada. Nunca me ha hecho falta, para decirte la verdad. Yo empiezo a entender de los ojos para abajo, y cuanto más abajo mejor entiendo. Pero no es realmente entender, en eso estoy de acuerdo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Te va a subir la fiebre -ha rezongado Dédée desde el fondo de la pieza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Oh, cállate. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Es verdad, Bruno. Nunca he pensado en nada, solamente de golpe me doy cuenta de lo que he pensado, pero eso no tiene gracia, ¿verdad? ¿Qué gracia va a tener darse cuenta de que uno ha pensado algo? Para el caso es lo mismo que si pensaras tú o cualquier otro. No soy yo, yo. Simplemente saco provecho de lo que pienso, pero siempre después, y eso es lo que no aguanto. Ah,es difícil, es tan difícil.. ¿No ha quedado ni un trago?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Le he dado las últimas gotas de ron, justamente cuando Dédée volvía a encender la luz; ya casi no se veía en la pieza. Johnny está sudando, pero sigue&lt;br /&gt;envuelto en la frazada, y de cuando en cuando se estremece y hace crujir el sillón.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me di cuenta cuando era muy chico, casi en seguida de aprender a tocar el saxo. En mi casa había siempre un lío de todos los diablos, y no se hablaba más que de deudas, de hipotecas. ¿Tú sabes lo que es una hipoteca? Debe ser algo terrible, porque la vieja se tiraba de los pelos cada vez que el viejo hablaba de la hipoteca, y acababan a los golpes. Yo tenia trece años... pero ya has oído todo eso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Vaya si lo he oído; vaya si he tratado de escribirlo bien y verídicamente en mi biografía de Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Por eso en casa el tiempo no acababa nunca, sabes. De pelea en pelea, casi sin comer. Y para colmo la religión, ah, eso no te lo puedes imaginar. Cuando el maestro me consiguió un saxo que te hubieras muerto de risa si lo ves, entonces creo que me di cuenta en seguida. La música me sacaba del tiempo, aunque no es más que una manera de decirlo. Si quieres saber lo que realmente siento, yo creo que la música me metía en el tiempo. Pero entonces hay que creer que este tiempo no tiene nada que ver con... bueno, con nosotros, por decirlo así.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Como hace rato que conozco las alucinaciones de Johnny, de todos los que hacen su misma vida, lo escucho atentamente pero sin preocuparme demasiado por lo que dice. Me pregunto en cambio cómo habrá conseguido la droga en París. Tendré que interrogar a Dédée, suprimir su posible complicidad. Johnny no va a poder resistir mucho más en ese estado. La droga y la miseria no saben andar juntas. Pienso en la música que se está perdiendo, en las docenas de grabaciones donde Johnny podría seguir dejando esa presencia, ese adelanto asombroso que tiene sobre cualquier otro músico. "Esto lo, estoy tocando mañana" se me llena de pronto de un sentido clarísimo, porque Johnny siempre está tocando mañana y el resto viene a la zaga, en este hoy que él salta sin esfuerzo con las primeras notas de&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;su música.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Soy un crítico de jazz lo bastante sensible como para comprender mis limitaciones, y me doy cuenta de que lo que estoy pensando está por debajo del plano donde el pobre Johnny trata de avanzar con sus frases truncadas, sus suspiros, sus súbitas rabias y sus llantos. A él le importa un bledo que yo lo crea genial, y nunca se ha envanecido de que su música esté mucho más allá de la que tocan sus compañeros. Pienso melancólicamente que él está al principio de su saxo mientras yo vivo obligado a conformarme con el final. Él es la boca y yo la oreja, por no decir que él es la boca y yo... Todo crítico, ay, es el triste final de algo que empezó como sabor, como delicia de morder y mascar. Y la boca se mueve otra vez, golosamente la gran lengua de Johnny recoge un chorrito de saliva de los labios. Las manos hacen un dibujo en el aire.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno, si un día lo pudieras escribir... No por mí, entiendes, a mí qué me importa. Pero debe ser hermoso, yo siento que debe ser hermoso. Te estaba diciendo que cuando empecé a tocar de chico me di cuenta de que el tiempo cambiaba. Esto se lo conté una vez a Jim y me dijo que todo el mundo se siente lo mismo, y que cuando uno se abstrae... Dijo así, cuando uno se abstrae. Pero no, yo no me abstraigo cuando toco. Solamente que cambio de lugar. Es como en un ascensor, tú estás en el ascensor hablando con la gente, y no sientes nada raro, y entre tanto pasa el primer piso, el décimo, el veintiuno, y la ciudad se quedó ahí abajo, y tú estás terminando la frase que habías empezado al entrar, y entre las primeras palabras y las últimas hay cincuenta y dos pisos. Yo me di cuenta cuando empecé a tocar que entraba en un ascensor, pero era un ascensor de tiempo, si te lo&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;puedo decir así. No creas que me olvidaba de la hipoteca o de la religión. Solamente que en esos momentos la hipoteca y la religión eran como el traje que uno no tiene puesto; yo sé que el traje está en el ropero, pero a mi no vas a decirme que en ese momento ese traje existe. El traje existe cuando me lo pongo, y la hipoteca y la religión existían cuando terminaba de tocar y la vieja entraba con el pelo colgándole en mechones y se quejaba dé que yo le rompía las orejas con esa-música-del-diablo. Dédée ha traído otra taza de nescafé, pero Johnny mira tristemente su vaso vacío.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Esto del tiempo es complicado, me agarra por todos lados. Me empiezo a dar cuenta poco a poco de que el tiempo no es como una bolsa que se rellena. Quiero decir que aunque cambie el relleno, en la bolsa no cabe más que una cantidad y se acabó. ¿Ves mi valija, Bruno? Caben dos trajes, y dos pares de zapatos. Bueno, ahora imagínate que la vacías y después vas a poner de nuevo los dos trajes y los dos pares de zapatos, y entonces te das cuenta de que solamente caben un traje y un par de zapatos. Pero lo mejor no es eso. Lo mejor es cuando te das cuenta de que puedes meter una tienda entera en la valija, cientos y cientos de trajes, como yo&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;meto la música en el tiempo cuando estoy tocando, a veces. La música y lo que pienso cuando viajo en el métro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;-Cuándo viajas en el métro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Eh, sí, ahí está la cosa -ha dicho socorronamente Johnny-. El métro es un gran invento, Bruno. Viajando en el métro te das cuenta de todo lo que podría caber en la valija. A lo mejor no perdí el saxo en el métro, a lo mejor...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Se echa a reír, tose, y Dédée lo mira inquieta. Pero él hace gestos, se ríe y tose mezclando todo, sacudiéndose debajo de la frazada como un chimpancé. Le caen lágrimas y se las bebe, siempre riendo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Mejor es no confundir las cosas -dice después de un rato-. Lo perdí y se acabó. Pero el métro me ha servido para darme cuenta del truco de la valija. Mira, esto de las cosas elásticas es muy raro, yo lo siento en todas partes. Todo es elástico, chico. Las cosas que pacecen duras tienen una elasticidad...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Piensa, concentrándose.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -...una elasticidad retardada -agrega sorprendentemente. Yo hago un gesto de admiración aprobatoria. Bravo, Johnny. El hombre que dice que no es capaz de pensar. Vaya con Johnny. Y ahora estoy realmente interesado por lo que va a decir, y él se da cuenta y me mira más socarronamente que nunca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Tú crees que podré conseguir otro saxo para tocar pasado mañana, Bruno?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sí, pero tendrás que tener cuidado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Claro, tendré que tener cuidado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Un contrato de un mes -explica la pobre Dédée-. Quince días en la boîte de Rémy, dos conciertos y los discos. Podríamos arreglarnos tan bien.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Un contrato de un mes -remeda Johnny con grandes gestos-.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;La boîte de Rémy, dos conciertos y los discos. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;Be-bata-bop bop bop, chrrr. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Lo que tiene es sed, una sed, una sed. Y unas ganas de fumar, de fumar. Sobre todo unas ganas de fumar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Le ofrezco un paquete de Gauloises, aunque sé muy bien que está pensando en la droga. Ya es de noche, en el pasillo empieza un ir y venir de gente, diálogos en árabe, una canción. Dédée se ha marchado, probablemente a comprar alguna cosa para la cena. Siento la mano de Johnny en la rodilla.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Es una buena chica, sabes. Pero me tiene harto. Hace rato que no la quiero, que no puedo sufrirla. Todavía me excita, a ratos, sabe hacer el amor como... -junta los dedos a la italiana-. Pero tengo que librarme de ella, volver a Nueva York. Sobre todo tengo que volver a Nueva York, Bruno.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Para qué? Allá te estaba yendo peor que aquí. No me refiero al trabajo sino a tu vida misma. Aquí me parece que tienes más amigos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Si, estás tú y la marquesa, y los chicos del club... ¿Nunca hiciste el amor con la marquesa, Bruno?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bueno, es algo que... Pero yo te estaba hablando del métro, y no sé por qué cambiamos de tema. El métro es un gran invento, Bruno. Un día empecé a sentir algo en el métro, después me olvidé... Y entonces se repitió, dos o tres días después. Y al final me di cuenta. Es fácil de explicar, sabes, pero es fácil porque en realidad no es la verdadera explicación. La verdadera explicación sencillamente no se puede explicar. Tendrías que tomar el métro y esperar a que te ocurra, aunque me parece que eso solamente me ocurre a mí. Es un poco así, mira. ¿Pero de verdad nunca hiciste el amor con la marquesa? Le tienes que pedir que suba al taburete dorado que tiene en el rincón del dormitorio, al lado de una lámpara muy bonita, y entonces... Bah, ya está ésa de vuelta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Dédée entra con un bulto, y mira a Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tienes más fiebre. Ya telefoneé al doctor, va a venir a las diez. Dice que te quedes tranquilo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bueno, de acuerdo, pero antes le voy a contar lo del métro a Bruno. El otro día me di bien cuenta de lo que pasaba. Me puse a pensar en mi vieja, después en Lan y los chicos, y claro, al momento me parecía que estaba caminando por mi barrio, y veía las caras de los muchachos, los de aquel tiempo. No era pensar, me parece que ya te he dicho muchas veces que yo no pienso nunca; estoy como parado en una esquina viendo pasar lo que pienso, pero no pienso lo que veo. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;¿Te das cuenta? &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Jim dice que todos somos iguales, que en general (así dice) uno no piensa por su cuenta. Pongamos que sea así, la cuestión es que yo había tomado el métro en la estación de Saint-Michel y en seguida me puse a pensar en Lan y los chicos, y a ver el barrio. Apenas me senté me puse a pensar en ellos. Pero al mismo tiempo me daba cuenta de que estaba en el métro, y vi que al cabo de un minuto más o menos llegábamos a Odéon, y que la gente entraba y salía. Entonces seguí pensando en Lan y vi a mi vieja cuando volvía de hacer las compras, y empecé a verlos a todos, a estar con ellos de una manera hermosísima, como hacia mucho que no sentía. Los recuerdos son siempre un asco, pero esta vez me gustaba pensar en los chicos y verlos. Si me pongo a contarte todo lo que vi no lo vas a creer&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;porque tendría para rato. Y eso que ahorraría detalles. Por ejemplo, para decirte una&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;sola cosa, veía a Lan con un vestido verde que se ponía cuando iba al Club 33 donde yo tocaba con Hamp. Veía el vestido con unas cintas, un moño, una especie de adorno al costado y un cuello... No al mismo tiempo, sino que en realidad me estaba paseando alrededor del vestido de Lan y lo miraba despacio. Y después miré la cara de Lan y la de los chicos, y después mé acordé de Mike que vivía en la pieza de al lado, y cómo Mike me había contado la historia de unos caballos salvajes en Colorado, y él que trabajaba en un rancho y hablaba sacando pecho como los domadores de caballos...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Johnny -ha dicho Dédée desde su rincón.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Fíjate que solamente te cuento un pedacito de todo lo que estaba pensando y viendo. ¿Cuánto hará que te estoy contando este pedacito?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No sé, pongamos unos dos minutos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Pongamos unos dos minutos -remeda Johnny-. Dos minutos y te he contado un pedacito nada más. Si te contara todo lo que les vi hacer a los chicos, y cómo Hamp tocaba Save it, pretty mamma y yo escuchaba cada nota, entiendes, cada nota, y Hamp no es de los que se cansan, y si te contara que también le oí a mi vieja una oración larguísima, donde hablaba de repollos, me parece, pedía perdón por mi viejo y por mí y decía algo de unos repollos... Bueno, si te contara en detalle todo eso, pasarían más de dos minutos, ¿eh, Bruno?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Si realmente escuchaste y viste todo eso, pasaría un buen cuarto de hora –le he dicho, riéndome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Pasaría un buen cuarto de hora, eh, Bruno. Entonces me vas a decir cómo puede ser que de repente siento que el métro se para y yo me salgo de mi vieja y Lan y todo aquello, y veo que estamos en Saint-Germain-des-Prés, que queda justo a un minuto y medio de Odéon.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Nunca me preocupo demasiado por las cosas que dice Johnny pero ahora, con su manera de mirarme, he sentido frío.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Apenas un minuto y medio por tu tiempo, por el tiempo de ésa -ha dicho rencorosamente Johnny-. Y también por el del métro y el de mi reloj, malditos sean. Entonces, ¿cómo puede ser que yo haya estado pensando un cuarto de hora, eh, Bruno? ¿Cómo se puede pensar un cuarto de hora en un minuto y medio? Te juro que ese día no había fumado ni un pedacito ni una hojita -agrega como un chico que se excusa-. Y después me ha vuelto a suceder, ahora me empieza a suceder en todas partes. Pero -agrega astutamente- sólo en el métro me puedo dar cuenta porque viajar en el métro es como estar metido en un reloj. Las estaciones son los minutos, comprendes, es ese tiempo de ustedes, de ahora; pero yo sé que&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;hay otro, y he estado pensando, pensando...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Se tapa la cara con las manos y tiembla. Yo quisiera haberme ido ya, y no sé cómo hacer para despedirme sin que Johnny se resienta, porque es terriblemente susceptible con sus amigos. Si sigue así le va a hacer mal, por lo menos con Dédée no va a hablar de esas cosas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno si yo pudiera solamente vivir como en esos momentos, o como cuando estoy tocando y también el tiempo cambia... Te das cuenta de lo que podría pasar en un minuto y medio... Entonces un hombre, no solamente yo sino ésa y tú y todos los muchachos, podrían vivir cientos de años, si encontráramos la manera podríamos vivir mil veces más de lo que estamos viviendo por culpa de los relojes, de esa manía de minutos y de pasado mañana...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Sonrío lo mejor que puedo, comprendiendo vagamente que tiene razón, pero que lo que él sospecha y lo que yo presiento de su sospecha se va a borrar como siempre apenas esté en la calle y me meta en mi vida de todos los días. En ese momento estoy seguro de que Johnny dice algo que no nace solamente de que está&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;medio loco, de que la realidad se le escapa y le deja en cambio una especie de parodia que él convierte en una esperanza. Todo lo que Johnny me dice en momentos así (y hace más de cinco años que Johnny me dice y les dice a todos cosas parecidas) no se puede escuchar prometiéndose volver a pensarlo más tarde. Apenas se está en la calle, apenas es el recuerdo y no Johnny quien repite las palabras, todo se vuelve un fantaseo de la marihuana, un manotear monótono (por que hay otros que dicen cosas parecidas, a cada rato se sabe de testimonios parecidos) y después de la maravilla nace la irritación, y a mí por lo menos me pasa que siento como si Johnny me hubiera estado tomando el pelo. Pero esto ocurre siempre al otro día, no cuando Johnny me lo está diciendo, porque entonces siento que hay algo que quiere ceder en alguna parte, una luz que busca encenderse, o más bien como si fuera necesario quebrar alguna cosa, quebrarla de arriba abajo como un tronco metiéndole una cuña y martillando hasta el final. Y Johnny ya no tiene fuerzas para martillar nada, y yo ni siquiera sé qué martillo haría falta para meter una cuña que tampoco me imagino.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO De manera que al final me he ido de la pieza, pero antes ha pasado una de esas cosas que tienen que pasar -ésa u otra parecida-, y es que cuando me estaba despidiendo de Dédée y le daba al espalda a Johnny he sentido que algo ocurría, lo he visto en los ojos de Dédée y me he vuelto rápidamente (porque a lo mejor le tengo un poco de miedo a Johnny, a este ángel que es como mi hermano, a este hermano que es como mi ángel) y he visto a Johnny que se ha quitado de golpe la frazada con que estaba envuelto, y lo he visto sentado en el sillón completamente desnudo, con las piernas levantadas y las rodillas junto al mentón, temblando pero riéndose, desnudo de arriba a abajo en el sillón mugriento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Empieza a hacer calor -ha dicho Johnny. Bruno, mira qué hermosa cicatriz tengo entre las costillas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tápate -ha mandado Dédée, avergonzada y sin saber qué decir. Nos conocemos bastante y un hombre desnudo no es más que un hombre desnudo, pero de todos modos Dédée ha tenido vergüenza y yo no sabia cómo hacer para no dar la impresión de que lo que estaba haciendo Johnny me chocaba. Y él lo sabía y se ha reído con toda su bocaza, obscenamente manteniendo las piernas levantadas, el sexo colgándole al borde del sillón como un mono en el zoo, y la piel de los muslos con unas raras manchas que me han dado un asco infinito. Entonces Dédée ha agarrado la frazada y lo ha envuelto presurosa, mientras Johnny se reía y parecía muy feliz. Me he despedido vagamente, prometiendo volver al otro día, y Dédée me ha acompañado hasta el rellano, cerrando la puerta para que Johnny no oiga lo que va a decirme.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Está así desde que volvimos de la gira por Bélgica. Había tocado tan bien en todas partes, y yo estaba tan contenta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me pregunto de dónde habrá sacado la droga -he dicho, mirándola en los ojos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No sé. Ha estado bebiendo vino y coñac casi todo el tiempo. Pero también ha fumado, aunque menos que allá...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Allá es Baltimore y Nueva York, son los tres meses en el hospital psiquiátrico de Bellevue, y la larga temporada en Camarillo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO ¿Realmente Johnny tocó bien en Bélgica, Dédée?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sí, Bruno, me parece que mejor que nunca. La gente estaba enloquecida, y los muchachos de la orquesta me lo dijeron muchas veces. De repente pasaban cosas raras, como siempre con Johnny, pero por suerte nunca delante del público. Yo creí... pero ya ve, ahora es peor que nunca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO ¿Peor que en Nueva York? Usted no lo conoció en esos años.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Dédée no es tonta, pero a ninguna mujer le gusta que le hablen de su hombre cuando aún no estaba en su vida, aparte de que ahora tiene que aguantarlo y lo de antes no son más que palabras. No sé cómo decírselo, y ni siquiera le tengo plena confianza, pero al final me decido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me imagino que se han quedado sin dinero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tenemos ese contrato para empezar pasado mañana -ha dicho Dédée.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Usted cree que va a poder grabar y presentarse en público?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Oh, sí -ha dicho Dédée un poco sorprendida-. Johnny puede tocar mejor que nunca si el doctor Bernard le corta la gripe. La cuestión es el saxo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me voy a ocupar de eso. Aquí tiene, Dédée. Solamente que... Lo mejor sería que Johnny no lo supiera.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Con un gesto, y empezando a bajar la escalera, he detenido las palabras imaginables, la gratitud inútil de Dédée. Separado de ella por cuatro o cinco peldaños me ha sido más fácil decírselo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Por nada del mundo tiene que fumar antes del primer concierto. Déjelo beber un poco pero no le dé dinero para lo otro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Dédée no ha contestado nada; aunque he visto cómo sus manos doblaban y doblaban los billetes, hasta hacerlos desaparecer. Por lo menos tengo la seguridad de que Dédée no fuma. Su única complicidad puede nacer del miedo o del amor. Si Johnny se pone de rodillas, como lo he visto en Chicago, y le suplica llorando... Pero es un riesgo como tantos otros con Johnny, y por el momento habrá dinero para comer y para remedios. En la calle me he subido el cuello de la gabardina porque empezaba a lloviznar, y he respirado hasta que me dolieron los pulmones; me ha parecido que París olía a limpio, a pan caliente. Sólo ahora me he dado cuenta de cómo olía la pieza de Johnny, el cuerpo de Johnny sudando bajo la frazada. He entrado en un café para beber un coñac y lavarme la boca, quizá también la memoria que insiste e insiste en las palabras de Johnny, sus cuentos, su manera de ver lo que yo no veo y en el fondo no quiero ver. Me he puesto a pensar en pasado mañana y era como una tranquilidad, como un puente bien tendido del mostrador hacia adelante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Cuando no se está demasiado seguro de nada, lo mejor es crearse deberes a&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;manera de flotadores. Dos o tres días después he pensado que tenía el deber de averiguar si la marquesa le está facilitando marihuana a Johnny Carter, y he ido al estudio de Montparnasse. La marquesa es verdaderamente una marquesa, tiene dinero a montones que le viene del marqués, aunque hace rato que se hayan divorciado a causa de la marihuana y otras razones parecidas. Su amistad con Johnny viene de Nueva York, probablemente del año que Johnny se hizo famoso de la noche a la mañana simplemente porque alguien le dio la oportunidad de reunir a cuatro o cinco muchachos a quienes les gustaba su estilo, y Johnny pudo tocar a sus anchas por primera vez y los dejó a todos asombrados. Este no es el momento de hacer crítica de jazz, y los interesados pueden leer mi libro sobre Johnny y el nuevo estilo de la posguerra, pero bien puedo decir que el cuarenta y ocho -digamos hasta el cincuenta- fue como una explosión de la música, pero una explosión fría, silenciosa, una explosión en la que cada cosa quedó en su sitio y no hubo gritos ni escombros, pero la costra de la costumbre se rajó en millones de pedazos y hasta sus defensores (en las orquestas y en el público) hicieron una cuestión de amor propio de algo que ya no sentían como antes. Porque después del paso de Johnny por el saxo alto no se puede seguir oyendo a los músicos anteriores y creer que son el non plus ultra; hay que conformarse con aplicar esa especie de resignación disfrazada que se llama sentido histórico, y decir que cualquiera de esos músicos ha sido estupendo y lo sigue siendo en-su-momento. Johnny ha pasado por el jazz como una mano que da vuelta la hoja, y se acabó.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO La marquesa, que tiene unas orejas de lebrel para todo lo que sea música, ha admirado siempre una enormidad a Johnny y a sus amigos del grupo. Me imaginoque debió darles no pocos dólares en los días del Club 33, cuando la mayoría de los críticos protestaban por las grabaciones de Johnny y juzgaban su jazz con arreglo a criterios más que podridos. Probablemente también en esa época la marquesa empezó a acostarse de cuando en cuando con Johnny, y a fumar con él. Muchas veces los he visto juntos antes de las sesiones de grabación o en los entreactos de los conciertos, y Johnny parecía enormemente feliz al lado de la marquesa, aunque en alguna otra platea o en su casa estaban Lan y los chicos esperándolo. Pero Johnny no ha tenido jamás idea de lo que es esperar nada, y tampoco se imagina que alguien pueda estar esperándolo. Hasta su manera de plantar a Lan lo pinta de cuerpo entero. He visto la postal que le mandó desde Roma, después de cuatro meses de ausencia (se había trepado a un avión con otros dos músicos sin que Lan supiera nada). La postal representaba a Rómulo y Remo, que siempre le han hecho mucha gracia a Johnny (una de sus grabaciones se llama así), y decía: "Ando solo en una multitud de amores", que es un fragmento de un poema de Dylan Thomas a quien Johnny lee todo el tiempo. Los agentes de Johnny en Estados Unidos se arreglaron para deducir una parte de sus regalías y entregarlas a Lan, que por su parte comprendió pronto que no había hecho tan mal negocio librándose de Johnny. Alguien me dijo que la marquesa dio también dinero a Lan, sin que Lan supiera de dónde procedía. No me extraña porque la marquesa es descabelladamente buena y entiende el mundo un poco como las tortillas que fabrica en su estudio cuando los amigos empiezan a llegar a montones, y que consiste en tener una especie de tortilla permanente a la cual echa diversas cosas y va sacando pedazos y ofreciéndolos cuando hace falta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO He encontrado a la marquesa con Marcel Gavoty y con Art Boucaya, y precisamente estaban hablando de las grabaciones que había hecho Johnny la tarde anterior. Me han caído encima como si vieran llegar a un arcángel, la marquesa me ha besuqueado hasta cansarse, y los muchachos me han palmeado como pueden hacerlo un contrabajista y un saxo barítono. He tenido que refugiarme detrás de un sillón, defendiéndome como podía, y todo porque se han enterado de que soy el proveedor del magnífico saxo con el cual Johnny acaba de grabar cuatro o cinco de sus mejores improvisaciones. La marquesa ha dicho en seguida que Johnny era una rata inmunda, y que como estaba peleado con ella (no ha dicho por qué) la rata inmunda sabía muy bien que sólo pidiéndole perdón en debida forma hubiera podido conseguir el cheque para ir a comprarse un saxo. Naturalmente Johnny no ha querido pedir perdón desde que ha vuelto a París -la pelea parece que ha sido en Londres, dos meses atrás- y en esa forma nadie podía saber que había perdido su condenado saxo en el métro, etcétera. Cuando la marquesa se echa a hablar uno se pregunta si el estilo de Dizzy no se le ha pegado al idioma, pues es una serie interminable de variaciones en los registros más inesperados, hasta que al final la marquesa se da un gran golpe en los muslos, abre de par en par la boca y se pone a&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;reír como si la estuvieran matando a cosquillas. Y entonces Art Boucaya ha aprovechado para darme detalles de la sesión de ayer, que me he perdido por culpa de mi mujer non neumonía.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tica puede dar fe -ha dicho Art mostrando a la marquesa que se retuerce de risa-. Bruno, no te puedes imaginar lo que fue eso hasta que oigas los discos. Si Dios estaba ayer en alguna parte puedes creerme que era en esa condenada sala de grabación, donde hacía un calor de mil demonios dicho sea de paso. ¿Te acuerdas de Willow Tree, Marcel?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Si me acuerdo -ha dicho Marcel-. El estúpido pregunta si me acuerdo. Estoy tatuado de la cabeza a los pies con Wittow Tree.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Tica nos ha traído highballs y nos hemos puesto cómodos para charlar. En realidad hemos hablado poco de la sesión de ayer, porque cualquier músico sabe que de esas cosas no se puede hablar, pero lo poco que han dicho me ha devuelto alguna esperanza y he pensado que tal vez mi saxo le traiga buena suerte a Johnny. De todas maneras no han faltado las anécdotas que enfriaran un poco esa esperanza, como por ejemplo que Johnny se ha sacado los zapatos entre grabación y grabación, y se ha paseado descalzo por el estudio. Pero en cambio se ha reconciliado con la marquesa y ha prometido venir al estudio a tomar una copa antes de su presentación de esta noche.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Conoces a la muchacha que tiene ahora Johnny? -ha querido saber Tica. Le he hecho una descripción lo más sucinta posible, pero Marcel la ha completado a la francesa, con toda clase de matices y alusiones que han divertido muchísimo a la marquesa. No se ha hecho la menor referencia a la droga, aunque yo estoy tan aprensivo que me ha parecido olerla en el aire del estudio de Tica, aparte de que Tica se ríe de una manera que también noto a veces en Johnny y en Art, y que delata a los adictos. Me pregunto cómo se habrá procurado Johnny la marihuana si estaba peleado con la marquesa; mi confianza en Dédée se ha venido bruscamente al suelo, si es que en realidad le tenía confianza. En el fondo son todos iguales. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Envidio un poco esa igualdad que los acerca, que los vuelve cómplices con tanta facilidad; desde mi mundo puritano -no necesito confesarlo, cualquiera que me conozca sabe de mi horror al desorden moral- los veo como a ángeles enfermos, irritantes a fuerza de irresponsabilidad pero pagando los cuidados con cosas como los discos de Johnny, la generosidad de la marquesa. Y no digo todo, y quisiera forzarme a decirlo: los envidio, envidio a Johnny, a ese Johnny del otro lado, sin que nadie sepa qué es exactamente ese otro lado. Envidio todo menos su dolor, cosa que nadie dejará de comprender, pero aun en su dolor tiene que haber atisbos de algo que me es negado. Envidio a Johnny y al mismo tiempo me da rabia que se esté destruyendo por el mal empleo de sus dones, por la estúpida acumulación de insensatez que requiere su presión de vida. Pienso que si Johnny pudiera orientar esa vida, incluso sin sacrificarle nada, ni siquiera la droga, y si piloteara mejor ese avión que desde hace cinco años vuela a ciegas, quizá acabaría en lo peor, en la locura completa, en la muerte, pero no sin haber tocado a fondo lo que busca en sus tristes monólogos a posteriori, en sus recuentos de experiencias fascinantes pero que se quedan a mitad de camino. Y todo eso lo sostengo desde mi cobardía personal, y quizá en el fondo quisiera que Johnny acabara de una vez, como una estrella que se rompe en mil pedazos y deja idiotas a los astrónomos durante una semana, y después uno se va a dormir y mañana es otro día.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Parecería que Johnny ha tenido como una sospecha de todo lo que he estado pensando, porque me ha hecho un alegre saludo al entrar y ha venido casi en seguida a sentarse a mi lado, después de besar y hacer girar por el aire a la marquesa, y cambiar con ella y con Art un complicado ritual onomatopéyico que les ha producido una inmensa gracia a todos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno -ha dicho Johnny, instalándose en el mejor sofá, el cacharro es una maravilla y que digan éstos lo que le he sacado ayer del fondo. A Tica le caían unas lágrimas como bombillas eléctricas, y no creo que fuera porque le debe plata a la modista, ¿eh, Tica?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO He querido saber algo más de la sesión, pero a Johnny le basta ese desborde de orgullo. Casi en seguida se ha puesto a hablar con Marcel del programa de esta noche y de lo bien que les caen a los dos los flamantes trajes grises con que van a presentarse en el teatro. Johnny está realmente muy bien y se ve que lleva días sin fumar demasiado; debe de tener exactamente la dosis que le hace falta para tocar con gusto. Y justamente cuando lo estoy pensado, Johnny me planta la mano en el hombro y se inclina para decirme:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Dédée me ha contado que la otra tarde estuve muy mal contigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bah, ni te acuerdes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Pero si me acuerdo muy bien. Y si quieres mi opinión, en realidad estuve formidable. Deberías sentirte contento de que me haya portado así contigo; no lo hago con nadie, créeme. Es una muestra de cómo te aprecio. Tenemos que ir juntos a algún sitio para hablar de un montón de cosas. Aquí... -Saca el labio inferior, desdeñoso, y se ríe, se encoge de hombros, parece estar bailando en el sofá-. Viejo Bruno. Dice Dédée que me porté muy mal, de veras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tenías gripe. ¿Estás mejor?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No era gripe. Vino el médico, y en seguida empezó a decirme que el jazz le gusta enormemente, y que una noche tengo que ir a su casa para escuchar discos. Dédée me contó que le habías dado dinero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Para que salieran del paso hasta que cobres. ¿Qué tal lo de esta noche?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bueno, tengo ganas de tocar y tocaría ahora mismo si tuviera el saxo, pero Dédée se emperró en llevarlo ella misma al teatro. Es un saxo formidable, ayer me parecía que estaba haciendo el amor cuando lo tocaba. Vieras la cara de Tica cuando acabé. ¿Estaba celosa, Tica?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Y se han vuelto a reír a gritos, y Johnny ha considerado conveniente correr por el estudio dando grandes saltos de contento, y entre él y Art han bailado sin música, levantando y bajando las cejas para marcar el compás, Es imposible impacientarse con Johnny o con Art; sería como enojarse con el viento porque nos despeina. En voz baja, Tica, Marcel y yo hemos cambiado impresiones sobre la presentación de la noche. Marcel está seguro de que Johnny va a repetir su formidable éxito de 1951, cuando vino por primera vez a París. Después de lo de ayer está seguro de que todo va a salir bien. Quisiera sentirme tan tranquilo como él, pero de todas maneras no podré hacer más que sentarme en las primeras filas y escuchar el concierto. Por lo menos tengo la tranquilidad de que Johnny no está drogado como la noche de Baltimore. Cuando le he dicho esto a Tica, me ha apretado la mano como si se estuviera por caer al agua. Art y Jobnny se han ido hasta el piano, y Art le está mostrando un nuevo tema a Johnny que mueve la cabeza y canturrea. Los dos están elegantísimos con sus trajes grises, aunque a Johnny lo perjudica la grasa que ha juntado en estos tiempos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Con Tica hemos hablado de la noche de Baltimore, cuando Johnny tuvo la primera gran crisis violenta. Mientras hablábamos he mirado a Tica en los ojos, porque quería estar seguro de que me comprende, y que no cederá esta vez. Si Johnny llega a beber demasiado coñac o a fumar una nada de droga, el concierto va&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;a ser un fracaso y todo se vendrá al suelo. París no es un casino de provincia y todo&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;el mundo tiene puestos los ojos en Johnny. Y mientras lo pienso no puedo impedirme un mal gusto en la boca, una cólera que no va contra Johnny ni contra las cosas que le ocurren; más bien contra mí y la gente que lo rodea, la marquesa y Marcel, por ejemplo. En el fondo somos una banda de egoístas, so pretexto de cuidar a Johnny lo que hacemos es salvar nuestra idea de él, prepararnos a los nuevos placeres que va a darnos Johnny, sacarle brillo a la estatua que hemos erigido entre todos y defenderla cueste lo que cueste. El fracaso de Johnny sería malo para mi libro (de un momento a otro saldrá la traducción al inglés y al italiano), y probablemente de cosas así está hecha una parte de mi cuidado por Johnny. Art y Marcel lo necesitan para ganarse el pan, y la marquesa, vaya a saber qué ve la marquesa en Johnny aparte de su talento. Todo esto no tiene nada que hacer con el otro Johnny, y de repente me he dado cuenta de que quizá Johnny quería decirme eso cuando se arrancó la frazada y se mostró desnudo como un gusano, Johnny sin saxo, Johnny sin dinero y sin ropa, Johnny obsesionado por algo que su pobre inteligencia no alcanza a entender pero que flota lentamente en su música, acaricia su piel, lo prepara quizá para un salto imprevisible que nosotros no comprenderemos nunca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Y cuando se piensan cosas así acaba uno por sentir de veras mal gusto en la boca, y toda la sinceridad del mundo no paga el momentáneo descubrimiento de que uno es una pobre porquería al lado de un tipo como Johnny Carter, que ahora ha venido a beberse su coñac al sofá y me mira con aire divertido. Ya es hora de que nos vayamos todos a la sala Pleyel. Que la música salve por lo menos el resto de la noche, y cumpla a fondo una de sus peores misiones, la de ponernos un buen biombo delante del espejo, borrarnos del mapa durante un par de horas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Como es natural mañana escribiré para Jazz Hot una crónica del concierto de esta noche. Pero aquí, con esta taquigrafía garabateada sobre una rodilla en los intervalos, no siento el menor deseo de hablar como crítico, es decir de sancionar comparativamente. Sé muy bien que para mí Johnny ha dejado de ser un jazzman y&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;que su genio musical es como una fachada, algo que todo el mundo puede llegar a comprender y admirar pero que encubre otra cosa, y esa otra cosa es lo único que debería importarme, quizá porque es lo único que verdaderamente le importa a Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Es fácil decirlo, mientras soy todavía la música de Johnny. Cuando se enfría... ¿Por qué no podré hacer como él, por qué no podré tirarme de cabeza contra pared? Antepongo minuciosamente las palabras a la realidad que pretenden describirme, me escudo en consideraciones y sospechas que no son más que una estúpida dialéctica. Me parece comprender por qué la plegaria reclama instintivamente el caer de rodillas. El cambio de posición es el símbolo de un cambio en la voz, en lo que la voz va a articular, en lo articulado mismo. Cuando llego al punto de atisbar ese cambio, las cosas que hasta un segundo antes me habían parecido arbitrarias se llenan de sentido profundo, se simplifican extraordinariamente y al mismo tiempo se ahondan. Ni Marcel ni Art se han dado cuenta ayer de que Johnny no estaba loco cuando se sacó los zapatos en la sala de grabación. Johnny necesitaba en ese instante tocar el suelo con su piel, atarse a la tierra de la que su música era una confirmación y no una fuga. Porque también siento esto en Johnny, y es que no huye de nada, no se droga para huir como la mayoría de los viciosos, no toca el saxo para agazaparse detrás de un foso de música, no se pasa semanas encerrado en las clínicas psiquiátricas para sentirse al abrigo de las presiones que es incapaz de soportar. Hasta su estilo, lo más auténtico en él, ese estilo que merece nombres absurdos sin necesitar de ninguno, prueba que el arte de Johnny no es una sustitución ni una complementación. Johnny ha abandonado el lenguaje hot más o menos corriente hasta hace diez años, porque ese lenguaje violentamente erótico era demasiado pasivo para él. En su caso el deseo se antepone al placer y lo frustra, porque el deseo le exige avanzar, buscar, negando por adelantado los encuentros fáciles del jazz tradicional. Por eso, creo, a Johnny no le gustan gran cosa los blues, donde el masoquismo y las nostalgias... Pero de todo esto ya he hablado en mi libro, mostrando cómo la renuncia a la satisfacción inmediata indujo a Johnny a elaborar un lenguaje que él y otros músicos están llevando hoy a sus últimas posibilidades. Este jazz desecha todo erotismo fácil, todo wagnerianismo por&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;decirlo así, para situarse en un plano aparentemente desasido donde la música queda en absoluta libertad, así como la pintura sustraída a lo representativo queda en libertad para no ser más que pintura. Pero entonces, dueño de una música que no facilita los orgasmos ni las nostalgias, de una música que me gustaría poder llamar metafísica, Johnny parece contar con ella para explorarse, para morder en la&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;realidad que se le escapa todos los días. Veo ahí la alta paradoja de su estilo, su agresiva eficacia. Incapaz de satisfacerse, vale como un acicate continuo, una construcción infinita cuyo placer no está en el remate sino en la reiteración exploradora, en el ejemplo de facultades que dejan atrás lo prontamente humano sin perder humanidad. Y cuando Johnny se pierde como esta noche en la creación continua de su música, sé muy bien que no está escapando de nada. lr a un encuentro no puede ser nunca escapar, aunque releguemos cada vez el lugar de la cita; y en cuanto a lo que pueda quedarse atrás, Johnny lo ignora o lo desprecia soberanamente. La marquesa, por ejemplo, cree que Johnny teme la miseria, sin darse cuenta de que lo único que Johnny puede temer es no encontrarse una chuleta al alcance del cuchillo cuando se le da la gana de comerla, o una cama cuando tiene sueño, o cien dólares en la cartera cuando le parece normal ser dueño de cien dólares. Johnny no se mueve en un mundo de abstracciones como nosotros; por eso su música, esa admirable música que he escuchado esta noche, no tiene nada de abstracta. Pero sólo él puede hacer el recuento de lo que ha cosechado mientras tocaba, y probablemente ya estará en otra cosa, perdiéndose en una nueva conjetura o en una nueva sospecha. Sus conquistas son como un sueño, las olvida al despertar cuando los aplausos lo traen de vuelta, a él que anda tan lejos viviendo su cuarto de hora de minuto y medio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Sería como vivir sujeto a un pararrayos en plena tormenta y creer que no va a pasar nada. A los cuatro a cinco días me he encontrado con Art Boucaya en el Dupont del barrio latino, y le ha faltado tiempo para poner los ojos en blanco y anunciarme las malas noticias. En el primer momento he sentido una especie de satisfacción que no me queda más remedio que calificar de maligna, porque bien sabía yo que la calma no podía durar mucho; pero después he pensado en las consecuencias y mi cariño por Johnny se ha puesto a retorcerme el estómago; entonces me he bebido dos coñacs mientras Art me describía lo ocurrido. En resumen parece ser que esa tarde Delaunay había preparado una sesión de grabación para presentar un nuevo quinteto con Johnny a la cabeza, Art, Marcel Gavoty y dos chicos muy buenos de París en el piano y la batería. La cosa tenia que empezar a las tres de la tarde y contaban con todo el día y parte de la noche para entrar en calor y grabar unas cuantas cosas. Y qué pasa. Pasa que Johnny empieza por llegar a las cinco, cuando Delaunay estaba que hervía de impaciencia, y después de tirarse en una silla dice que no se siente bien y que ha venido solamente para no estropearles el día a los muchachos, pero que no tiene ninguna gana de tocar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Entre Marcel y yo tratamos de convencerlo de que descansara un rato, pero no hacía más que hablar de no sé qué campos con urnas que había encontrado, y dale con las urnas durante media hora. Al final empezó a sacar montones de hojas que había juntado en algún parque y guardado en los bolsillos. Resultado, que el piso del estudio parecía el jardín botánico, los empleados andaban de un lado a otro con cara de perros, y a todo esto sin grabar nada; fíjate que el ingeniero llevaba tres horas fumando en su cabina, y eso en Paris ya es mucho para un ingeniero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO "Al final Marcel convenció a Johnny de que lo mejor era probar, se pusieron a tocar los dos y nosotros los seguíamos de a poco, más bien para sacarnos el cansancio de no hacer nada. Hacía rato que me daba cuenta de que Johnny tenía una especie de contracción en el brazo derecho, y cuando empezó a tocar te aseguro que era terrible de ver. La cara gris, sabes, y de cuando en cuando como un escalofrío; yo no veía el momento de que se fuera al suelo. Y en una de esas pega un grito, nos mira a todos uno a uno, muy despacio, y nos pregunta qué estamos esperando para empezar con Amorous. Ya sabes, ese tema de El Álamo. Bueno, Delaunay le hace una seña al técnico, salimos todos lo mejor posible, y Johnny abre las piernas, se planta como en un bote que cabecea, y se larga a tocar de una manera que te juro no había oído jamás. Esto durante tres minutos, hasta que de golpe suelta un soplido capaz de arruinar la misma armonía celestial, y se va a un rincón dejándonos a todos en plena marcha, que acabáramos lo mejor que nos fuera&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;posible.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO "Pero ahora viene lo peor, y es que cuando acabamos, lo primero que dijo Johnny fue que todo había salido como el diablo, y que esa grabación no contaba para nada. Naturalmente, ni Delaunay ni nosotros le hicimos caso, porque a pesar de los defectos el solo de Johnny valía por mil de los que oyes todos los días. Una cosa distinta, que no te puedo explicar... Ya lo escucharás, te imaginas que ni Delaunay ni los técnicos piensan destruir la grabación. Pero Johnny insistía como un loco, amenazando romper los vidrios de la cabina si no le probaban que el disco había sido anulado. Por fin el ingeniero le mostró cualquier cosa y lo convenció, y entonces Johnny propuso que grabáramos Streptomicyne, que salió mucho mejor y a la vez mucho peor, quiero decirte que es un disco impecable y redondo, pero ya no tiene esa cosa increíble que Johnny había soplado en Amorous."&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Suspirando, Art ha terminado de beber su cerveza y me ha mirado lúgubremente. Le he preguntado qué ha hecho Johnny después de eso, y me ha dicho que después de hartarlos a todos con sus historias sobre las hojas y los campos llenos de urnas, se ha negado a seguir tocando y ha salido a tropezones del estudio. Marcel le ha quitado el saxo para evitar que vuelva a perderlo o pisotearlo, y entre él y uno de los chicos franceses lo han llevado al hotel.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO ¡Qué otra cosa puedo hacer sino ir en seguida a verlo? Pero de todos modos lo he dejado para mañana. Y a la mañana siguiente me he encontrado a Johnny en las noticias de policía del Figaro, porque durante la noche parece que Johnny ha incendiado la pieza del hotel y ha salido corriendo desnudo por los pasillos. Tanto él como Dédée han resultado ilesos, pero Johnny está en el hospital bajo vigilancia. Le he mostrado la noticia a mi mujer para alentarla en su convalecencia, y he ido en seguida al hospital donde mis credenciales de periodista no me han servido de nada. Lo más que he alcanzado a saber es que Johnny está deliranndo y que tiene adentro bastante marihuana como para enloquecer a diez personas. La pobre Dédée no ha sido capaz de resistir, de convencerlo de que siguiera sin fumar; todas las mujeres de Johnny acaban siendo sus cómplices, y estoy archiseguro de que la droga se la ha facilitado la marquesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO En fin, la cuestión es que he ido inmediatamente a casa de Delaunay para pedirle que me haga escuchar Amorous lo antes posible. Vaya a saber si Amorous no resulta el testamento del pobre Johnny; y en ese caso, mi deber profesional... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Pero no, todavía no. A los cinco días me ha telefoneado Dédée diciéndome que Johnny está mucho mejor y que quiere verme. He preferido no hacerle reproches, primero porque supongo que voy a perder el tiempo, y segundo porque la voz de la pobre Dédée parece salir de una tetera rajada. He prometido ir en seguida, y le he dicho que tal vez cuando Johnny esté mejor se pueda organizar una gira por las ciudades del interior. He colgado el tubo cuando Dédée empezaba a llorar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Johnny está sentado en la cama, en una sala donde hay otros dos enfermos que&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;por suerte duermen. Antes de que pueda decirle nada me ha atrapado la cabeza con&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;sus dos manazas, y me ha besado muchas veces en la frente y las mejillas. Está terriblemente demacrado, aunque me ha dicho que le dan mucho de comer y que tiene apetito. Por el momento lo que más le preocupa es saber si los muchachos hablan mal de él, si su crisis ha dañado a alguien, y cosas así. Es casi inútil que le responda, pues sabe muy bien que los conciertos han sido anulados y que eso perjudica a Art, a Marcel y al resto; pero me lo pregunta como si creyera que entre tanto ha ocurrido algo que bueno, algo que componga las cosas. Y a1 mismo tiempo no me engaña, porque en el fondo de todo eso está su soberana indiferencia; a Johnny se le importa un bledo que todo se haya ido al diablo, y lo conozco demasiado como para no darme cuenta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Qué quieres que te diga, Johnny. Las cosas podrían haber salido mejor, pero tú tienes el talento de echarlo todo a perder.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sí, no lo puedo negar -ha dicho cansadamente Johnny-. Y todo por culpa de las urnas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Me he acordado de las palabras de Art, me he quedado mirándolo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Campos llenos de urnas, Bruno. Montones de urnas invisibles, enterradas en un campo inmenso. Yo andaba por ahí y de cuando en cuando tropezaba con algo. Tú dirás que lo he soñado, eh. Era así, fíjate: de cuando en cuando tropezaba con una urna, hasta darme cuenta de que todo el campo estaba lleno de urnas, que había miles y miles, y que dentro de cada urna estaban las cenizas de un muerto. Entonces me acuerdo que me agaché y me puse a cavar con las uñas hasta que una de las urnas quedó a la vista. Sí, me acuerdo. Me acuerdo que pensé: "Esta va a estar vacía porque es la que me toca a mí." Pero no, estaba llena de un polvo gris como sé muy bien que estaban las otras aunque no las había visto. Entonces... entonces fue cuando empezamos a grabar Amorous, me parece.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Discretamente he echado una ojeada al cuadro de temperatura. Bastante normal, quién lo diría. Un médico joven se ha asomado a la puerta, saludándome con una inclinación de cabeza, y ha hecho un gesto de aliento a Johnny, un gesto casi deportivo, muy de buen muchacho. Pero Johnny no le ha contestado, y cuando el médico se ha ido sin pasar de la puerta, he visto que Johnny tenia los puños cerrados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Eso es lo que no entenderán nunca -me ha dicho-. Son como un mono con un plumero, como las chicas del conservatorio de Kansas City que creían tocar Chopin, nada menos. Bruno, en Camarillo me habían puesto en una pieza con otros tres, y por la mañana entraba un interno lavadito y rosadito que daba gusto. Parecía hijo del Kleenex y del Tampax, créeme. Una especie de inmenso idiota que se me sentaba al lado y me daba ánimos, a mí que quería morirme, que ya no pensaba en Lan ni en nadie. Y lo peor era que el tipo se ofendía porque no le prestaba atención. Parecía esperar que me sentara en la cama, maravillado de su cara blanca y su pelo bien peinado y sus uñas cuidadas, y que me mejorara como esos que llegan a Lourdes y tiran la muleta y salen a los saltos&lt;span style=""&gt;                                                                                       &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno, ese tipo y todos los otros tipos de Camarillo estaban convencidos. ¿De qué, quieres saber? No sé, te juro, pero estaban convencidos. De lo que eran, supongo, de lo que valían, de su diploma. No, no es eso. Algunos eran modestos y no se creían infalibles. Pero hasta el más modesto se sentía seguro. Eso era lo que me crispaba, Bruno, que se sintieran seguros. Seguros de qué, dime un poco, cuando yo, un pobre diablo con más pestes que el demonio debajo de la piel, tenía bastante conciencia para sentir que todo era como una jalea, que todo temblaba alrededor, que no había más que fijarse un poco, sentirse un poco, callarse un poco para descubrir los agujeros. En la puerta, en la cama: agujeros. En la mano, en el diario, en el tiempo, en el aire: todo lleno de agujeros, todo esponja, todo como un colador colándose a sí mismo... Pero ellos eran la ciencia americana, ¿comprendes, Bruno? El guardapolvo los protegía de los agujeros; no veían nada, aceptaban lo ya visto por otros, se imaginaban que estaban viendo. Y naturalmente no podían ver los agujeros, y estaban muy seguros de sí mismos, convencidísimos de sus recetas, sus jeringas, su maldito psicoanálisis, sus no fume y sus no beba... Ah, el día en que pude mandarme mudar, subirme al tren, mirar por la ventanilla cómo todo se iba para atrás, se hacía pedazos, no sé si has visto cómo el paisaje se va rompiendo cuando lo miras alejarse...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;OO Fumamos Gauloises. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;A Johnny le han dado permiso para beber un poco de coñac y fumar ocho o diez cigarrillos. Pero se ve que es su cuerpo el que fuma, que él está en otra cosa casi como si se negara a salir del pozo. Me pregunto qué ha visto, qué ha sentido estos últimos días. No quiero excitarlo, pero si se pusiera a hablar por su cuenta... Fumamos, callados, y a veces Johnny estira e1 brazo y me pasa los dedos por la cara, como para identificarme. Después juega con su reloj pulsera, lo mira con cariño.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Lo que pasa es que se creen sabios -dice de golpe-. Se creen sabios porque han juntado un montón de libros y se los han comido. Me da risa, porque en realidad son buenos muchachos y viven convencidos de que lo que estudian y lo que hacen son cosas muy difíciles y profundas. En el circo es igual, Bruno, y entre nosotros es igual. La gente se figura que algunas cosas son el colmo de la dificultad, y por eso aplauden a los trapecistas, o a mí. Yo no sé qué se imaginan, que uno se está haciendo pedazos para tocar bien, o que el trapecista se rompe los tendones cada vez que da un salto. En realidad las cosas verdaderamente difíciles son otras tan distintas, todo lo que la gente cree poder hacer a cada momento. Mirar, por ejemplo, o comprender a un perro o a un gato. Esas son las dificultades, las grandes dificultades. Anoche se me ocurrió mirarme en este espejito, y te aseguro que era tan terriblemente difícil que casi me tiro de la cama. Imagínate que te estás viendo a ti mismo; eso tan sólo basta para quedarse frío durante media hora. Realmente ese tipo no soy yo, en el primer momento he sentido claramente que no era yo. Lo agarré de sorpresa, de refilón, y supe que no era yo. Eso lo sentía, y cuando algo se siente... Pero es como en Palm Beach, sobre una ola te cae la segunda, y después otra... Apenas has sentido ya viene lo otro, vienen las palabras... No, no son las palabras, son lo que está en las palabras, esa especie de cola de pegar, esa baba. Y la baba viene y te tapa, y te convence de que el del espejo eres tú. Claro, pero cómo no darse cuenta. Pero si soy yo, con mi pelo, esta cicatriz. Y la gente no se da cuenta de que lo único que aceptan es la baba, y por eso les parece tan fácil mirarse&lt;span style=""&gt;                          &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt;                                                         &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;al espejo. O cortar un pedazo de pan con un cuchillo. ¿Tú has cortado un pedazo de pan con un cuchillo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me suele ocurrir -he dicho, divertido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Y te has quedado tan tranquilo. Yo no puedo, Bruno. Una noche tiré todo tan lejos que el cuchillo casi le saca un ojo al japonés de la mesa de al lado. Era en Los Ángeles, se armó un lío tan descomunal... Cuando les expliqué, me llevaron preso. Y eso que me parecía tan sencillo explicarles todo. Esa vez conocí al doctor Christie. Un tipo estupendo, y eso que yo a los médicos...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Ha pasado una mano por el aire, tocándolo por todos lados, dejándolo como marcado por su paso. Sonríe, Tengo la sensación de que está solo, completamente solo. Me siento como hueco a su lado. Si a Johnny se le ocurriera pasar su mano a través de mí me cortaría como manteca, como humo. A lo mejor es por eso que a veces me roza la cara con los dedos, cautelosamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tienes el pan ahí, sobre el mantel -dice Johnny mirando el aire-. Es una cosa sólida, no se puede negar, con un color bellísimo, un perfume. Algo que no soy yo, algo distinto, fuera de mí. Pero si lo toco, si estiro los dedos y lo agarro, entonces hay algo que cambia, ¿no te parece? El pan está fuera de mí, pero lo toco con los dedos, lo siento, siento que eso es el mundo, pero si yo puedo tocarlo y sentirlo, entonces no se puede decir realmente que sea otra cosa, o ¿tú crees que se puede decir?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Querido, hace miles de años que un montón de barbudos se vienen rompiendo la cabeza para resolver el problema.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -En el pan es de día -murmura Johnny, tapándose la cara-, y yo me atrevo a tocarlo, a cortarlo en dos, a metérmelo en la boca. No pasa nada, ya sé: eso es lo terrible. ¿Te das cuenta de que es terrible que no pase nada? Cortas el pan, le c1avas el cuchillo, y todo sigue como antes. Yo no comprendo, Bruno. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Me ha empezado a inquietar la cara de Johnny, su excitación. Cada vez resulta más difícil hacerlo hablar de jazz, de sus recuerdos, de sus planes, traerlo a la realidad. (A la realidad; apenas lo escribo me da asco. Johnny tiene razón, la realidad no puede ser esto, no es posible que ser crítico de jazz sea la realidad, porque entonces hay alguien que nos está tomando el pelo. Pero al mismo tiempo a Johnny no se le puede seguir así la corriente porque vamos a acabar todos locos.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Ahora se ha quedado dormido, o por lo menos ha cerrado los ojos y se hace el dormido. Otra vez me doy cuenta de lo difícil que resulta saber qué es lo que está haciendo, qué es Johnny. Si duerme, si se hace el dormido, si cree dormir. Uno está mucho más fuera de Johnny que de cualquier otro amigo. Nadie puede ser más vulgar, más común, más atado a las circunstancias de una pobre vida; accesible por todos lados, aparentemente. No es ninguna excepción, aparentemente. Cualquiera puede ser como Johnny, siempre que acepte ser un pobre diablo enfermo y vicioso y sin voluntad y lleno de poesía y de talento. Aparentemente. Yo que me he pasado la vida admirando a los genios, a los Picasso, a los Einstein, a toda la santa lista que&lt;span style=""&gt;                                            &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;cualquiera puede fabricar en un minuto (y Gandhi, y Chaplin, y Stravinsky), estoy dispuesto como cualquiera a admitir que esos fenómenos andan pos las nubes, y que con ellos no hay que extrañarse de nada. Son diferentes, no hay vuelta que darle. En cambio la diferencia de Johnny es secreta, irritante por lo misteriosa, porque no tiene ninguna explicación. Johnny no es un genio, no ha descubierto nada, hace jazz como varios miles de negros y de blancos, y aunque lo hace mejor que todos ellos, hay que reconocer que eso depende un poco de los gustos del público, de las modas, del tiempo, en suma. Panassié, por ejemplo, encuentra que Johnny es francamente malo, y aunque nosotros creemos que el francamente malo es Panassié, de todas maneras hay materia abierta a la polémica. Todo esto prueba que Johnny no es nada del otro mundo, pero apenas lo pienso me pregunto si precisamente no hay en Johnny algo del otro mundo (que él es el primero en desconocer). Probablemente se reiría mucho si se lo dijeran. Yo sé bastante bien lo que piensa, lo que vive de estas cosas. Digo: lo que vive de esas cosas, porque Johnny... Pero no voy a eso, lo que quería explicarme a mí mismo es que la distancia que va de Johnny a nosotros no tiene explicación, no se funda en diferencias explicables. Y me parece que él es el primero en pagar las consecuencias de eso, que lo afecta tanto como a nosotros. Dan ganas de decir en&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;seguida que Johnny es como un ángel entre los hombres, hasta que una elemental honradez obliga a tragarse 1a frase, a darla bonitamente vuelta, y a reconocer que quizá lo que pasa es que Johnny es un hombre entre los ángeles, una realidad entre las irrealidades que somos todos nosotros. Y a lo mejor es por eso que Johnny me toca la cara con los dedos y me hace sentir tan infeliz, tan transparente, tan poca cosa con mi buena salud, mi casa, mi mujer, mi prestigio. Mi prestigio, sobre todo. Sobre todo mi prestigio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Pero es lo de siempre, he salido del hospital y apenas he calzado en la calle, en la hora, en todo lo que tengo que hacer, la tortilla ha girado blandamente en el aire y se ha dado vuelta. Pobre Johnny, tan fuera de la realidad. (Es así, es así. Me es más fácil creer que es así, ahora que estoy en un café y a dos horas de mi visita al hospital, que todo lo que escribí más arriba forzándome como un condenado a ser por lo menos un poco decente conmigo mismo.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Por suerte lo del incendio se ha arreglado O.K., pues como cabía suponer la marquesa ha hecho de las suyas para que lo del incendio se arreglara O.K. Dédée y Art Boucaya han venido a buscarme al diario, y los tres nos hemos ido a Vix para escuchar la ya famosa -aunque todavía secreta- grabación de Amorous. En el taxi Dédée me ha contado sin muchas ganas cómo la marquesa lo ha sacado a Johnny del lío del incendio, que por lo demás no había pasado de un colchón chamuscado y un susto terrible de todos los argelinos que viven en el hotel de la rue Lagrange. Multa (ya pagada), otro hotel (ya conseguido por Tica), y Johnny está convaleciente en una cama grandísima y muy linda, toma leche a baldes y lee el Paris Match y el New Yorker, mezclando a veces su famoso (y roñoso) librito de bolsillo con poemas de Dylan Thomas y anotaciones a lápiz por todas partes. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Con estas noticias y un coñac en el café de la esquina, nos hemos instalado en la sala de audiciones para escuchar Amorous y Streptomicyne. Art ha pedido que apagaran las luces y se ha acostado en el suelo para escuchar mejor. Y entonces ha&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;entrado Johnny y nos ha pasado su música por la cara, ha entrado ahí aunque esté en su hotel y metido en la cama, y nos ha barrido con su música durante un cuarto de hora. Comprendo que le enfurezca la idea de que vayan a publicar Amorous, porque cualquiera se da cuenta de las fallas, del soplido perfectamente perceptible que acompaña algunos finales de frase, y sobre todo la salvaje caída final, esa nota sorda y breve que me ha parecido un corazón que se rompe, un cuchillo entrando en un pan (y él hablaba del pan hace unos días). Pero en cambio a Johnny se le escaparía lo que para nosotros es terriblemente hermoso, la ansiedad que busca salida en esa improvisación llena de huidas en todas direcciones, de interrogación, de manoteo desesperado. Johnny no puede comprender (porque lo que para él es fracaso a nosotros nos parece un camino, por lo menos la señal de un camino) que Amorous va a quedar como uno de los momentos más grandes del jazz. El artista que hay en él va a ponerse frenético de rabia cada vez que oiga ese remedo de su deseo, de todo lo que quiso decir mientras luchaba, tambaleándose, escapándosele la saliva de la boca junto con la música, más que nunca solo frente a lo que persigue, a lo que se le huye mientras más lo persigue. Es curioso, ha sido necesario escuchar esto, aunque ya todo convergía a esto, a Amorous, para que yo me diera cuenta de que Johnny no es una víctima, no es un perseguido como lo cree todo el mundo, como yo mismo lo he dado a entender en mi biografía (por cierto que la edición en inglés acaba de aparecer y se vende como la coca-cola). Ahora sé que no es así, que Johnny persigue en vez de ser perseguido, que todo lo que le está ocurriendo en la vida son azares del cazador y no del animal acosado. Nadie puede saber qué es lo que persigue Johnny, pero es así, está ahí, en Amorous, en la marihuana, en sus absurdos discursos sobre tanta cosa, en las recaídas, en el librito de Dylan Thomas, en todo lo pobre diablo que es Johnny y que lo agranda y lo convierte en un absurdo viviente, en un cazador sin brazos y sin piernas, en una liebre que corre tras de un tigre que duerme. Y me veo precisado a decir que en el fondo Amorous me ha dado ganas de vomitar, como si eso pudiera librarme de él, de todo lo que en él corre contra mí y contra todos, esa masa negra informe sin manos y sin pies, ese chimpancé enloquecido que me pasa los dedos por la cara y me sonríe enternecido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Art y Dédée no ven (me parece que no quieren ver) más que la belleza formal de Amorous. Incluso a Dédée le gusta más Streptomicyne, donde Johnny improvisa con su soltura corriente, lo que el público entiende por perfección y a mí me parece que en Johnny es más bien distracción, dejar correr la música, estar en otro lado. Ya en la calle le he preguntado a Dédée cuáles son sus planes, y me ha dicho que apenas Johnny pueda salir del hotel (la policía se lo impide por el momento) una nueva marca de discos le hará grabar todo lo que él quiera y le pagará muy bien. Art sostiene que Johnny está lleno de ideas estupendas, y que él y Marcel Gavoty van a "trabajar" las novedades junto con Johnny, aunque después de las últimas semanas se ve que Art no las tiene todas consigo, y yo sé por mi parte que anda en conversaciones con un agente para volverse a Nueva York lo antes posible. Cosa que comprendo de sobra, pobre muchacho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Tica se está portando muy bien -ha dicho rencorosamente Dédée-. Claro, para ella es tan fácil. Siempre llega a último momento, y no tiene más que abrir el bolso y arreglarlo todo. Yo, en cambio...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Art y yo nos hemos mirado. ¿Qué le podríamos decir? Las mujeres se pasan la vida dando vueltas alrededor de Johnny y de los que son como Johnny. No es extraño, no es necesario ser mujer para sentirse atraído por Johnny. Lo difícil es girar en torno a él sin perder la distancia, como un buen satélite, un buen crítico. Art no estaba entonces en Baltimore, pero me acuerdo de los tiempos en que conocí a Johnny, cuando vivía con Lan y los niños. Daba lástima ver a Lan. Pero después de tratar un tiempo a Johnny, de aceptar poco a poco el imperio de su música, de sus terrores diurnos, de sus explicaciones inconcebibles sobre cosas que jamás habían ocurrido, de sus repentinos accesos de ternura, entonces uno comprendía por qué Lan tenía esa cara y cómo era imposible que tuviese otra cara y viviera a la vez con Johnny. Tica es otra cosa, se le escapa por la vía de la promiscuidad, de la gran vida, y además tiene al dólar sujeto por la cola y eso es más eficaz que una ametralladora, por lo menos es lo que dice Art Boucaya cuando anda resentido con Tica o le duele la cabeza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Venga lo antes posible -me ha pedido Dédée-. A él le gusta hablar con usted.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Me hubiera gustado sermonearla por lo del incendio (por la causa del incendio, de la que es seguramente cómplice) pero sería tan inútil como decirle al mismo Johnny que tiene que convertirse en un ciudadano útil. Por el momento todo va bien, y es curioso (es inquietante) que apenas las cosas andan bien por el lado de Johnny yo me siento inmensamente contento. No soy tan inocente como para creer en una simple reacción amistosa. Es más bien como un aplazamiento, un respiro. No necesito buscarle explicaciones cuando lo siento tan claramente como puedo sentir la nariz pegada a la cara. Me da rabia ser el único que siente esto, que lo padece todo el tiempo. Me da rabia que Art Boucaya, Tica o Dédée no se den cuenta de que cada vez que Johnny sufre, va a la cárcel, quiere matarse, incendia un colchón o corre desnudo por los pasillos de un hotel, está pagando algo por ellos, está muriéndose por ellos. Sin saberlo, y no como los que pronuncian grandes discursos en el patíbulo o escriben libros para denunciar los males de la humanidad o tocan el piano con el aire de quien está lavando los pecados del mundo. Sin saberlo, pobre saxofonista, con todo lo que esta palabra tiene de ridículo, de poca cosa, de uno más entre tantos pobres saxofonistas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Lo malo es que si sigo así voy a acabar escribiendo más sobre mí mismo que sobre Johnny. Empiezo a parecerme a un evangelista y no me hace ninguna gracia. Mientras volvía a casa he pensado con el cinismo necesario para recobrar la confianza, que en mi libro sobre Johnny sólo menciono de paso, discretamente, el lado patológico de su persona. No me ha parecido necesario explicarle a la gente que Johnny cree pasearse por campos llenos de urnas, o que las pinturas se mueven cuando él las mira; fantasmas de la marihuana, al fin y al cabo, que se acaban con la cura de desintoxicación. Pero se diría que Johnny me deja en prenda esos fantasmas, me los pone como otros tantos pañuelos en el bolsillo hasta que llega la hora de recobrarlos. Y creo que soy el único que los aguanta, los convive y los teme; y nadie lo sabe, ni siquiera Johnny. Uno no puede confesarle cosas así a Johnny, como las confesaría a un hombre realmente grande, al maestro ante quien nos humillamos a cambio de un consejo. ¿Qué mundo es éste que me toca cargar como un fardo? ¿Qué clase de evangelista soy? En Johnny no hay la menor grandeza, lo he sabido desde que lo conocí, desde que empecé a admirarlo. Ya hace rato que esto no me sorprende, aunque al principio me resultara desconcertante esa falta de grandeza, quizá porque es una dimensión que uno no está dispuesto a aplicar al primero que llega, y sobre todo a los jazzman. No sé por qué (no sé por qué) creí en un momento que en Johnny había una grandeza que él desmiente de día en día (o que nosotros desmentimos, y en realidad no es lo mismo; porque, seamos honrados, en Johnny hay como el fantasma de otro Johnny que pudo ser, y ese otro Johnny está lleno de grandeza; al fantasma se le nota como la falta de esa dimensión que sin embargo negativamente evoca y contiene). Esto lo digo porque las tentativas que ha hecho Johnny para cambiar de vida, desde su aborto de suicidio hasta la marihuana, son las que cabía esperar de alguien tan sin grandeza como él. Creo que lo admiro todavía más por eso, porque es realmente el chimpancé que quiere aprender a leer, un pobre tipo que se da con la cara contra las&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;paredes, y no se convence, y vuelve a empezar. Ah, pero si un día el chimpancé se pone a leer, qué quiebra en masa, qué desparramo, qué sálvese el que pueda, yo el primero. Es terrible que un hombre sin grandeza alguna se tire de esa manera contra la pared. Nos denuncia a todos con el choque de sus huesos, nos hace trizas con la primera frase de su música. (Los mártires, los héroes, de acuerdo: uno está seguro con ellos. ¡Pero Johnny!)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Secuencias. No sé decirlo mejor, es como una noción de que bruscamente se arman secuencias terribles o idiotas en la vida de un hombre, sin que se sepa qué ley fuera de las leyes clasificadas decide que a cierta llamada telefónica va a seguir inmediatamente la llegada de nuestra hermana que vive en Auvernia, o se va a ir la leche al fuego, o vamos a ver desde el balcón a un chico debajo de un auto. Como en los equipos de fútbol y en las comisiones directivas, parecería que el destino nombra siempre algunos suplentes por si le fallan los titulares. Y así es que esta mañana, cuando todavía me duraba el contento por saberlo mejorado y contento a Johnny Carter, me telefonean de urgencia al diario, y la que telefonea es Tica, y la noticia es que en Chicago acaba de morirse Bee, la hija menor de Lan y de Johnny, y que naturalmente Johnny está como loco y sería bueno que yo fuera a darles una mano a los amigos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO He vuelto a subir una escalera de hotel -y van ya tantas en mi amistad con Johnny- para encontrarme con Tica tomando té, con Dédée mojando una toalla, con Art, Delaunay y Pepe Ramírez que hablan en voz baja de las últimas noticias de Lester Young, y con Johnny muy quieto en la cama una toalla en la frente y un aire perfectamente tranquilo y casi desdeñoso. Inmediatamente me he puesto en el bolsillo la cara de circunstancias limitándome a apretarle fuerte la mano a Johnny, encender un cigarrillo y esperar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bruno, me duele aquí -ha dicho Johnny al cabo de un rato, tocándose el sitio convencional del corazón-. Bruno, ella era como una piedrita blanca en mi mano. Y yo no soy nada más que un pobre caballo amarillo, y nadie, nadie, limpiará las lágrimas de mis ojos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Todo esto dicho solemnemente, casi recitando, y Tica mirando a Art, y los dos haciéndose señas de indulgencia, aprovechando que Johnny tiene la cara tapada con la toalla mojada y no puede verlos. Personalmente me repugnan las frases baratas, pero todo esto que ha dicho Johnny, aparte de que me parece haberlo leído&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;en algún sitio, me ha sonado como una máscara que se pusiera a hablar, así de hueco, así de inútil. Dédée ha venido con otra toalla y le ha cambiado el apósito, y en el intervalo he podido vislumbrar el rostro de Johnny y lo he visto de un gris ceniciento, con la boca torcida y los ojos apretados hasta arrugarse. Y como siempre con Johnny, las cosas han ocurrido de otra manera que la que uno esperaba, y Pepe Ramírez que no lo conoce gran cosa está todavía bajo los efectos de la sorpresa y yo creo que del escándalo, porque al cabo de un rato Johnny se ha sentado en la cama y se ha puesto a insultar lentamente, mascando cada palabra, y soltándola después como un trompo se ha puesto a insultar a los responsables de la grabación de Amorous, sin mirar a nadie pero clavándonos a todos como bichos en un cartón nada más que con la increíble obscenidad de sus palabras, y así ha estado dos minutos insultando a todos los de Amorous, empezando por Art y Delaunay, pasando por mí (aunque yo...) y acabando en Dédée, en Cristo omnipotente y en la puta que los parió a todos sin la menor excepción. Y eso ha sido en el fondo, eso y lo de la piedrita blanca, la oración fúnebre de Bee, muerta en Chicago de neumonía.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Pasarán quince días vacíos; montones de trabajo, artículos periodísticos, visitas aquí y allá -un buen resumen de la vida de un crítico, ese hombre que sólo puede vivir de prestado, de las novedades y las decisiones ajenas. Hablando de lo cual una noche estaremos Tica, Baby Lennox y yo en el Café de Flore, tarareando muy contentos Out of nowhere y comentando un solo de piano de Billy Taylor que a los tres nos parece bueno, y sobre todo a Baby Lennox que además se ha vestido a la moda de Saint Germain-desPrés y hay que ver cómo le queda. Baby verá aparecer a Johnny con el arrobamiento de sus veinte años, y Johnny la mirará sin verla y seguirá de largo, hasta sentarse solo en otra mesa, completamente borracho o dormido. Sentiré la mano de Tica en la rodilla. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Lo ves, ha vuelto a fumar anoche. O esta tarde. Esa mujer...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Le he contestado sin ganas que Dédée es tan culpable como cualquier otra, empezando por ella que ha fumado docenas de veces con Johnny y volverá a hacerlo el día que le dé la santa gana. Me vendrá un gran deseo de irme y de estar solo, como siempre que es imposible acercarse a Johnny, estar con él y de su lado. Lo veré hacer dibujos en la mesa con el dedo, quedarse mirando al camarero que le pregunta qué va a beber, y por fin Johnny dibujará en el aire una especie de flecha y la sostendrá con las dos manos como si pesara una barbaridad, y en las otras mesas la gente empezará a divertirse con mucha discreción como corresponde en el&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Flore. Entonces Tica dirá: "Mierda", se pasará a la mesa de Johnny, y después de dar una orden al camarero se pondrá a hablarle en la oreja a Johnny. Ni que decir que Baby se apresurará a confiarme sus más caras esperanzas, pero yo le diré vagamente que esa noche hay que dejar tranquilo a Johnny y que las niñas buenas se van temprano a la cama, si es posible en compañía de un crítico de jazz. Baby reirá amablemente, su mano me acariciará el pelo, y después nos quedaremos tranquilos viendo pasar a la muchacha que se cubre la cara con una capa de albayalde y se pinta de verde los ojos y hasta la boca. Baby dirá que no le parece tan mal, y yo le pediré que me cante bajito uno de esos blues que le están dando fama en Londres y en Estocolmo. Y después volveremos a Out of nowhere, que&lt;span style=""&gt;                                                &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;esta noche nos persigue interminablemente como un perro que también fuera de albayalde y de ojos verdes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Pasarán por ahí dos de los chicos del nuevo quinteto de Johnny, y aprovecharé ara preguntarles cómo ha andado la cosa esta noche; me enteraré así de que Johnny apenas ha podido tocar, pero que lo que ha tocado valía por todas las ideas juntas de un John Lewis, suponiendo que este último sea capaz de tener alguna idea porque, como ha dicho uno de los chicos, lo único que tiene siempre a mano es las notas para tapar un agujero, que no es lo mismo. Y yo me preguntaré entre tanto hasta dónde va a poder resistir Johnny, y sobre todo el público que cree en Johnny. Los chicos no aceptarán una cerveza, Baby y yo nos quedaremos nuevamente solos, y acabaré por ceder a sus preguntas y explicarle a Baby, que realmente merece su apodo, por qué Johnny está enfermo y acabado, por qué los chicos del quinteto están cada día más hartos, por qué la cosa va a estallar en una de ésas como ya ha estallado en San Francisco, en Baltimore y en Nueva York media docena de veces.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Entrarán otros músicos que tocan en el barrio, y algunos irán a la mesa de Johnny y lo saludarán, pero él los mirará como desde lejos, con una cara horriblemente idiota, los ojos húmedos y mansos, la boca incapaz de contener la saliva que le brilla en los labios. Será divertido observar el doble manejo de Tica y de Baby, Tica apelando a su dominio sobre los hombres para alejarlos de Johnny con una rápida explicación y una sonrisa, Baby soplándome en la oreja su admiración por Johnny y lo bueno que sería llevarlo a un sanatorio para que lo desintoxicaran, y todo ello simplemente porque está en celo y quisiera acostarse con Johnny esta misma noche, cosa por lo demás imposible según puede verse, y que me alegra bastante. Como me ocurre desde que la conozco, pensaré en lo bueno que sería poder acariciar los muslos de Baby y estaré a un paso de proponerle que nos vayamos a tomar un trago a otro lugar más tranquilo (ella no querrá y en el fondo yo tampoco, porque esa otra mesa nos tendrá atados e infelices) hasta que de repente, sin nada que anuncie lo que va a suceder, veremos levantarse lentamente a Johnny, mirarnos y reconocernos, venir hacia nosotros - digamos hacia mí, porque Baby no cuenta- y al llegar a la mesa se doblará un poco con toda naturalidad, como quien va a tomar una papafrita del plato, y lo veremos arrodillarse frente a mí, con toda naturalidad se pondrá de rodillas y me mirará en los ojos, y yo veré que está llorando, y sabré sin palabras que Johnny está llorando por la pequeña Bee.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Mi reacción es tan natural, he querido levantar a Johnny, evitar que hiciera el ridículo, y al final el ridículo lo he hecho yo porque nada hay más lamentable que un hombre esforzándose por mover a otro que está muy bien como está, que se siente perfectamente en la posición que le da la gana, de manera que los parroquianos del Flore, que no se alarman por pequeñas cosas, me han mirado poco amablemente, aun sin saber en su mayoría que ese negro arrodillado es Johnny Carter me han mirado como miraría la gente a alguien que se trepara a un altar y tironeara de Cristo para sacarlo de la cruz. El primero en reprochármelo ha sido Johnny, nada más que llorando silenciosamente ha alzado los ojos y me ha mirado, y entre eso y la censura evidente de los parroquianos no me ha quedado más remedio que volver a sentarme frente a Johnny, sintiéndome peor que él, queriendo&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;estar en cualquier parte menos en esa silla y frente a Johnny de rodillas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO El resto no ha sido tan malo, aunque no sé cuántos siglos han pasado sin que nadie se moviera, sin que las lágrimas dejaran de correr por la cara de Johnny, sin que sus ojos estuvieran continuamente fijos en los míos mientras yo trataba de ofrecerle un cigarrillo, de encender otro para mí, de hacerle un gesto de entendimiento a Baby que estaba, me parece, a punto de salir corriendo o de ponerse a llorar por su parte. Como siempre, ha sido Tica la que ha arreglado el lío sentándose con su gran tranquilidad en nuestra mesa, arrimando una silla al lado de Johnny y poniéndole la mano en el hombro, sin forzarlo, hasta que al final Johnny se ha enderezado un poco y ha pasado de ese horror a la conveniente actitud del amigo sentado, nada más que levantando unos centímetros las rodillas y dejando que entre sus nalgas y el suelo (iba a decir y la cruz, realmente esto es contagioso) se interpusiera la aceptadísima comodidad de una silla. La gente se ha cansado de mirar a Johnny, él de llorar, y nosotros de sentirnos como perros. De golpe me he explicado el cariño que algunos pintores les tienen a las sillas, cualquiera de las sillas del Flore me ha parecido de repente un objeto maravilloso, una flor, un perfume, el perfecto instrumento del orden y la honradez de los hombres en su ciudad.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Johnny ha sacado un pañuelo, ha pedido disculpas sin forzar la cosa, y Tica ha hecho traer un café doble y se lo ha dado a beber. Baby ha estado maravillosa, renunciando de golpe a toda su estupidez cuando se trata de Johnny se ha puesto a tararear Mamie's blues sin dar la impresión de que lo hacía a propósito, y Johnny la ha mirado y se ha sonreído, y me parece que Tica y yo hemos pensado al mismo tiempo que la imagen de Bee se perdía poco a poco en el fondo de los ojos de Johnny, y que una vez más Johnny aceptaba volver por un rato a nuestro lado, acompañarnos hasta la próxima fuga. Como siempre, apenas ha pasado el momento en que me siento como un perro, mi superioridad frente a Jhonny me ha permitido mostrarme indulgente, charlar de todo un poco sin entrar en zonas demasiado personales (hubiera sido horrible ver deslizarse a Johnny de la silla, volver a...), y por suerte Tica y Baby se han portado como ángeles y la gente del Flore se ha ido renovando a lo largo de una hora, por lo cual los parroquianos de la una de la madrugada no han sospechado siquiera lo que acababa de pasar, aunque en realidad no haya pasado gran cosa si se lo piensa bien. Baby se ha ido la primera (es una chica estudiosa Baby, a las nueve ya estará ensayando con Fred Callender para grabar por la tarde) y Tica ha tomado su tercer vaso de coñac y nos ha ofrecido&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;llevarnos a casa. Entonces Johnny ha dicho que no, que prefería seguir charlando conmigo, y Tica ha encontrado que estaba muy bien y se ha ido, no sin antes pagar las vueltas de todos como corresponde a una marquesa. Y Johnny y yo nos hemos tomado una copita de chartreuse, dado que entre amigos están permitidas estas debilidades, y hemos empezado a caminar por Saint-Germain-des-Prés porque Johnny ha insistido en que le hará bien caminar y yo no soy de los que dejan caer a los camaradas en esas circunstancias.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Por la rue de l'Abbaye vamos bajando hasta la plaza Furstenberg, que a Johnny le recuerda peligrosamente un teatro de juguete que según parece le regaló su padrino cuando tenía ocho años. Trato de llevármelo hacia la rue Jacob por miedo de que los recuerdos lo devuelvan a Bee, pero se diría que Johnny ha cerrado el capitulo por lo que falta de la noche. Anda tranquilo, sin titubear (otras veces lo he visto tambalearse en la calle, y no por estar borracho; algo en los reflejos que no funciona) y el calor de la noche y el silencio de las calles nos hace bien a los dos. Fumamos Gauloises, nos dejamos ir hacia el río, y frente a una de las cajas de latón de los libreros del Quai de Conti un recuerdo cualquiera o un silbido de algún estudiante nos trae a la boca un tema de Viváldi y los dos nos ponemos a cantarlo con mucho sentimiento y entusiasmo, y Johnny dice que si tuviera su saxo se pasaría la noche tocando Vivaldi, cosa que yo encuentro exagerada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -En fin, también tocaría un poco de Bach y de Charles Ives -dice Johnny, condescendiente-. No sé poor qué a los franceses no les interesa Charles Ives. ¿Conoces sus canciones? La del leopardo, tendrías qué conocer la canción del leopardo. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;A leopard...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Y con su flaca voz de tenor se explaya sobre el leopardo, y ni que decir que muchas de las frases que canta no son en absoluto de Ives, cosa que a Johnny lo tiene sin cuidado mientras esté seguro de que está cantando algo bueno. Al final nos sentamos sobre el pretil, frente a la rue Gît-le-Coeur y fumamos otro cigarrillo porque la noche es magnífica y dentro de un rato el tabaco nos obligará a beber cerveza en un café y esto nos gusta por anticipado a Johnny y a mí. Casi no le presto atención cuando menciona por primera vez mi libro, porque en seguida vuelve a hablar de Charles Ives y de cómo se ha divertido en citar muchas veces temas de Ives en sus discos, sin que nadie se diera cuenta (ni el mismo Ives, supongo), pero al rato me pongo a pensar en lo del libro y trato de traerlo al tema. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Oh, he leído algunas páginas -dice Johnny-. En lo de Tica hablaban mucho de tu libro pero yo no entendía ni el título. Ayer Art me trajo la edición inglesa y entonces me enteré de algunas cosas. Está muy bien tu libro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Adopto la actitud natural en esos casos, mezclando un aire de displicente modestia con una cierta dosis de interés, como si su opinión fuera a revelarme –a mí, el autor- la verdad sobre mi libro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Es como en un espejo -dice Johnny-. Al principio yo creía que leer lo que escriben sobre uno era más o menos como mirarse a uno mismo y no en el espejo. Admiro mucho a los escritores, es increíble las cosas que dicen. Toda esa parte sobre los orígenes del bebop...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Bueno, no hice más que transcribir literalmente lo que me contaste en Baltimore -digo, defendiéndome sin saber de qué.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sí, está todo, pero en realidad es como en un espejo -se emperra Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Qué más quieres? Los espejos son fieles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Faltan cosas, Bruno -dice Johnny-. Tú estás mucho más enterado que yo, pero me parece que faltan cosas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Las que te habrás olvidado de decirme -contestó bastante picado. Este mono salvaje es capaz de... (Habrá que hablar con Delaunay, sería lamentable que una declaración imprudente malograra un sano esfuerzo crítico que... Por ejemplo el vestido rojo de Lan -está diciendo Johnny. Y en todo caso aprovechar las novedades de esta noche para incorporarlas a una nueva edición; no estaría mal. Tenía como un olor a perro -está diciendo Johnny- y es lo único que vale en ese disco. Sí, escuchar atentamente y proceder con rapidez, porque en manos de otras gentes estos posibles desmentidos podrían tener consecuencias lamentables. Y la urna del medio, la más grande, llena de un polvo casi azul -está diciendo Johnny- y tan parecida a una polvera que tenía mi hermana. Mientras no pase de las alucinaciones, lo peor sería que desmintiera las ideas de fondo, el sistema estético que tantos elogios...-. Y además el cool no es ni por casualidad lo que has escrito -está diciendo Johnny. Atención.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Cómo que no es lo que yo he escrito? Johnny, está bien que las cosas cambien, pero no hace seis meses que tú...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Hace seis meses -dice Johnny, bajándose del pretil y acodándose para descansar la cabeza entre las manos-. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;Six months ago. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Ah, Bruno, lo que yo podría tocar ahora mismo si tuviera a los muchachos... Y a propósito: muy ingenioso lo que has escrito sobre el saxo y el sexo, muy bonito el juego de palabras. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="EN-US" style="font-family:Arial;"&gt;Six months ago: Six, sax, sex. &lt;/span&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;Positivamente precioso, Bruno. Maldito seas, Bruno.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO No me voy a poner a decirle que su edad mental no le permite comprender que ese inocente juego de palabras encubre un sistema de ideas bastante profundo (a Leonard Feather le pareció exactísimo cuando se lo expliqué en Nueva York) y que el paraerotismo del jazz evoluciona desde tiempos del washboard, etc. Es lo de siempre, de pronto me alegra poder pensar que los críticos son mucho más necesarios de lo que yo mismo estoy dispuesto a reconocer (en privado, en esto que escribo) porque los creadores, desde el inventor de la música hasta Johnny pasando por toda la condenada serie, son incapaces de extraer las consecuencias dialécticas de su obra, postular los fundamentos y la trascendencia de lo que están escribiendo o improvisando. Tendría que recordar esto en los momentos de depresión en que me da lástima no ser nada más que un crítico. -El nombre de la estrella es Ajenjo -está diciendo Johnny, y de golpe oigo su otra voz, la voz de cuando está... ¿cómo decir esto, cómo describir a Johnny cuando está de su lado, ya solo otra vez, ya salido? Inquieto, me bajo del pretil, lo miro de cerca. Y el nombre de la estrella es Ajenjo, no hay nada que hacerle.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -El nombre de la estrella es Ajenjo -dice Johnny, hablando para sus dos manos-. Y sus cuerpos serán echados en las plazas de la grande ciudad. Hace seis meses. OO Aunque nadie me vea, aunque nadie lo sepa, me encojo de hombros para las estrellas (el nombre de la estrella es Ajenjo). Volvemos a lo de siempre: "Esto lo estoy tocando mañana." El nombre de la estrella es Ajenjo y sus cuerpos serán echados hace seis meses. En las plazas de la grande ciudad. Salido, lejos. Y yo con sangre en el ojo, simplemente porque no ha querido decirme nada más sobre el libro, y en realidad no he llegado a saber qué piensa del libro que tantos miles de&lt;span style=""&gt;                                                &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;fans están leyendo en dos idiomas (muy pronto en tres, y ya se habla de la edición española, parece que en Buenos Aires no solamente se tocan tangos).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Era un vestido precioso -dice Johnny-. No quieras saber cómo le quedaba a Lan, pero va a ser mejor que te lo explique delante de un whisky, si es que tienes dinero. Dédée me ha dejado apenas trescientos francos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Ríe burlonamente, mirando el Sena. Como si él no supiera procurarse la bebida y la marihuana. Empieza a explicarme que Dédée es muy buena (y del libro nada) y que lo hace por bondad, pero por suerte está el compañero Bruno (que ha escrito un libro, pero nada) y lo mejor será ir a sentarse a un café del barrio árabe, donde lo dejan a uno tranquilo siempre que se vea que pertenece un poco a la estrella llamada Ajenjo (esto lo pienso yo, estamos entrando por el lado de Saint-Sévérin y son las dos de la mañana, hora en que mi mujer suele despertarse y ensayar todo lo&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;que me va a decir junto con el café con leche). Así pasa con Johnny, así nos bebemos un horrible coñac barato, así doblamos la dosis y nos sentimos tan contentos. Pero del libro nada, solamente la polvera en forma de cisne, la estrella, pedazos de cosas que van pasando por pedazos de frases, por pedazos de miradas, por pedazos de sonrisas, por gotas de saliva sobre la mesa, pegadas a los bordes del vaso (del vaso de Johnny). Sí, hay momentos en que quisiera que ya estuviese muerto. Supongo que muchos en mi caso pensarían lo mismo. Pero cómo resignarse a que Johnny se muera llevándose lo que no quiere decirme esta noche, que desde la muerte siga cazando, siga salido (yo ya no sé cómo escribir todo esto) aunque me valga la paz, la cátedra, esa autoridad que dan las tesis incontrovertidas y los entierros bien capitaneados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO De cuando en cuando Johnny interrumpe un largo tamborileo sobre la mesa, me mira, hace un gesto incomprensible y vuelve a tamborilear. El patrón del café nos conoce desde los tiempos en que veníamos con un guitarrista árabe. Hace rato que Ben Aifa quisiera irse a dormir, somos los únicos en el mugriento café que huele a ají y a pasteles con grasa. También yo me caigo de sueño pero la cólera me sostiene, una rabia sorda y que no va contra Johnny, más bien como cuando se ha hecho el amor toda una tarde y se siente la necesidad de una ducha, de que el agua y el jabón se lleven eso que empieza a volverse rancio, a mostrar demasiado claramente lo que al principio... Y Johnny marca un ritmo obstinado sobre la mesa, y a ratos canturrea, casi sin mirarme. Muy bien puede ocurrir que no vuelva a hacer comentarios sobre el libro. Las cosas se lo van llevando de un lado a otro, mañana será una mujer, otro lío cualquiera, un viaje. Lo más prudente sería quitarle disimuladamente la edición en inglés, y para eso hablar con Dédée y pedirle el favor a cambio de tantos otros. Es absurda esta inquietud, esta casi cólera. No cabía esperar ningún entusiasmo de parte de Johnny; en realidad jamás se me había ocurrido pensar que leería el libro. Sé muy bien que el libro no dice la verdad sobre Johnny (tampoco miente), sino que se limita a la música de Johnny. Por discreción, por bondad, no he querido mostrar al desnudo su incurable esquizofrenia, el sórdido trasfondo de la droga, la promiscuidad de esa vida lamentable. Me he impuesto mostrar las líneas esenciales, poniendo el acento en lo que verdaderamente cuenta, el arte incomparable de Johnny ¿Qué más podía decir? Pero a lo mejor es precisamente ahí donde está él esperándome, como siempre al acecho esperando algo, agazapado para dar uno de esos saltos absurdos de los que salimos todos lastimados. Y es ahí donde acaso está esperándome para desmentir todas las bases estéticas sobre las cuales he fundado la razón última de su música, la gran teoría del jazz contemporáneo que tantos elogios me ha valido en todas partes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Honestamente, ¿qué me importa su vida? Lo único que me inquieta es que se deje llevar por esa conducta que no soy capaz de seguir (digamos que no quiero seguir) y acabe desmintiendo las conclusiones de mi libro. Que deje caer por ahí que mis afirmaciones son falsas, que su música es otra cosa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Oye, hace un rato dijiste que en el libro faltaban cosas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO (Atención, ahora.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Que faltan cosas, Bruno? Ah, sí, te dije que faltaban cosas. Mira, no es solamente el vestido rojo de Lan. Están... ¿Serán realmente urnas, Bruno? Anoche volví a verlas, un campo inmenso, pero ya no estaban tan enterradas. Algunas tenían inscripciones y dibujos, se veían gigantes con cascos como en el cine, y en las manos unos garrotes enormes. Es terrible andar entre las urnas y saber que no hay nadie más, qué soy el único que anda entre ellas buscando. No te aflijas, Bruno, no importa que se te haya olvidado poner todo eso. Pero, Bruno -y levanta un dedo que no tiembla- de lo que te has olvidado es de mi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;OO -Vamos, Johnny.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -De mí, Bruno, de mí. Y no es culpa tuya no haber podido escribir lo que yo tampoco soy capaz de tocar. Cuando dices por ahí que mi verdadera biografía está en mis discos, yo sé que lo crees de verdad y además suena muy bien, pero no es así. Y si yo mismo no he sabido tocar como debía, tocar lo que soy de veras... ya ves que no se te pueden pedir milagros, Bruno. Hace calor aquí adentro, vámonos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Lo sigo a la calle, erramos unos metros hasta que en una calleja nos interpela un gato blanco y Johnny se queda largo tiempo acariciándolo. Bueno, ya es bastante; en la plaza Saint-Michel encontraré un taxi para llevarlo al hotel e irme a casa. Después de todo no ha sido tan terrible; por un momento temí que Johnny hubiera elaborado una especie de anti teoría del libro, y que la probara conmigo antes de soltarla por ahí a todo trapo. Pobre Johnny acariciando un gato blanco. En el fondo lo único que ha dicho es que nadie sabe nada de nadie, y no es una novedad. Toda biografía da eso por supuesto y sigue adelante, qué diablos. Vamos, Johnny, vamos a casa que es tarde.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No creas que solamente es eso -dice Johnny, enderezándose de golpe como sí supiera lo que estoy pensando-. Está Dios, querido. Ahí sí que no has pegado una.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Vamos, Johnny, vamos a casa que es tarde.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Está lo que tú y los que son como mi compañero Bruno llaman Dios. El tubo de dentífrico por la mañana, a eso le llaman Dios. El tacho de basura, a eso le&lt;span style=""&gt;                                                    &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;llaman Dios. El miedo a reventar, a eso le llaman Dios. Y has tenido la desvergüenza de mezclarme con esa porquería, has escrito que mi infancia, y mi familia, y no sé qué herencias ancestrales... Un montón de huevos podridos y tú cacareando en el medio, muy contento con tu Dios. No quiero tu Dios, no ha sido nunca el mío.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Lo único que he dicho es que la música negra...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No quiero tu Dios -repite Johnny-. ¿Por qué me lo has hecho aceptar en tu libro? Yo no sé si hay Dios, yo toco mi música, ya hago mi Dios, no necesito de tus inventos, déjaselos a Mahalia Jackson y al Papa, y ahora mismo vas a sacar esa parte de tu libro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Si insistes -digo por decir algo-. En la segunda edición.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Estoy tan solo como este gato, y mucho más solo porque lo sé y él no. Condenado, me está plantando las uñas en la mano. Breno, el jazz no es solamente música, yo no soy solamente Johnny Carter.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;!--[if !supportEmptyParas]--&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Justamente es lo que quería decir cuando escribí que a veces tocas como...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Como si me lloviera en el culo -dice Johnny, y es la primera vez en la noche que lo siento enfurecerse-. No se puede decir nada, inmediatamente lo traduces a tu sucio idioma. Si cuando yo toco tú ves a los ángeles, no es culpa mía. Si los otros abren la boca y dicen que he alcanzado la perfección, no es culpa mía. Y esto es lo peor, lo que verdaderamente te has olvidado de decir en tu libro, Bruno, y es que yo no valgo nada, que lo que toco y lo que la gente me aplaude no vale nada, realmente no vale nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Rara modestia, en verdad, a esa hora de la noche. Este Johnny...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO - ¿Cómo te puedo explicar? -grita Johnny poniéndome las manos en los hombros, sacudiéndome a derecha y a izquierda. (La paix!, chillan desde una ventana)-. No es una cuestión de más música o de menos música, es otra cosa... por ejemplo, es la diferencia entre que Bee haya muerto y que esté viva. Lo que yo toco es Bee muerta, sabes, mientras que lo que yo quiero, lo que yo quiero... Y por eso a veces pisoteo el saxo y la gente cree que se me ha ido la mano en la bebida. Claro que en realidad siempre estoy borracho cuando lo hago, porque al fin y al cabo un saxo cuesta muchísimo dinero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Vamos por aquí. Te llevaré al hotel en taxi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Eres la mar de bueno, Bruno -se burla Johnny-. El compañero Bruno anota en su libreta todo lo que uno le dice, salvo las cosas importantes. Nunca creí que pudieras equivocarte tanto hasta que Art me pasó el libro. Al principio me pareció que hablabas de algún otro, de Ronnie o de Marcel, y después Johnny de aquí y Johnny de allá, es decir que se trataba de mí y yo me preguntaba ¿pero éste soy yo?, y dale conmigo en Baltimore, y el Birdland, y que mi estilo... Oye –agrega casi fríamente-, no es que no me dé cuenta de que has escrito un libro para el&lt;span style=""&gt;     &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;público. Está muy bien y todo lo que dices sobre mi manera de tocar y de sentir el&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;jazz me parece perfectamente O.K. ¿Para qué vamos a seguir discutiendo sobre el libro? Una basura en el Sena, esa paja que flota al lado del muelle, tu libro. Y yo esa otra paja, y tú esa botella que pasa por ahí cabeceando. Bruno, yo me voy a morir sin haber encontrado... sin...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Lo sostengo por debajo de los brazos, lo apoyo en el pretil del muelle. Se está hundiendo en el delirio de siempre, murmura pedazos de palabras, escupe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sin haber encontrado -repite-. Sin haber encontrado...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -¿Qué querías encontrar, hermano? -le digo-. No hay que pedir imposibles, lo que tú has encontrado bastaría para...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Para ti, ya sé -dice rencorosamente Johnny-. Para Art, para Dédée, para Lan... No sabes cómo... Si, a veces la puerta ha empezado a abrirse... Mira las dos pajas, se han encontrado, están bailando una frente a la otra... Es bonito, eh... Ha empezado a abrirse... el tiempo... yo te he dicho, me parece, que eso del tiempo... Bruno, toda mi vida he buscado en mi música que esa puerta se abriera al fin. Una nada, una rajita... Me acuerdo en Nueva York, una noche... Un vestido rojo. Sí, rojo, y le quedaba precioso. Bueno, una noche estábamos con Miles y Hal... llevábamos yo creo que una hora dándole a lo mismo, solos, tan felices... Miles tocó algo tan hermoso que casi me tira de la silla, y entonces me largué, cerré los ojos, volaba. Bruno, te juro que volaba... Me oía como si desde un sitio lejanísimo pero dentro de mí mismo, al lado de mí mismo, alguien estuviera de pie... No exactamente alguien... Mira la botella, es increíble cómo cabecea... No era alguien, uno busca comparaciones... Era la seguridad, el encuentro, como en algunos sueños, ¿no te parece?, cuando todo está resuelto, Lan y las chicas te esperan con un pavo al horno, en el auto no atrapas ninguna luz roja, todo va dulce como una bola de billar. Y lo que había a mi lado era como yo mismo pero sin ocupar ningún sitio, sin estar en Nueva York, y sobre todo sin tiempo, sin que después... sin que hubiera después... Por un rato no hubo más que siempre... Y yo no sabía que era mentira, que eso ocurría porque estaba perdido en la música, y que apenas acabara de tocar, porque al fin y al cabo alguna vez tenía que dejar que el pobre Hal se quitara las ganas en el piano, en ese mismo instante me caería de cabeza en mí mismo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Llora dulcemente, se frota los ojos con sus manos sucias. Yo ya no sé qué hacer, es tan tarde, del río sube la humedad, nos vamos a resfriar los dos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Me parece que he querido nadar sin agua -murmura Johnny-. Me parece que he querido tener el vestido rojo de Lan pero sin Lan. Y Bee está muerta, Bruno. Yo creo que tú tienes razón, que tu libro está muy bien.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Vamos, Johnny, no pienso ofenderme por lo que le encuentres de malo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -No es eso, tu libro está bien porque... porque no tiene urnas, Bruno. Es como lo que toca Satchmo, tan limpio, tan puro. ¿A ti no te parece que lo que toca Satchmo es como un cumpleaños o una buena acción? Nosotros... Te digo que he querido nadar sin agua. Me pareció... pero hay que ser idiota... me pareció que un día iba a encontrar otra cosa. No estaba satisfecho, pensaba que las cosas buenas, el vestido rojo de Lan, y hasta Bee, eran como trampas para ratones, no sé explicarme de otra manera... Trampas para que uno se conforme, sabes, para que uno diga que todo está bien. Bruno, yo creo que Lan y el jazz, sí, hasta el jazz, eran como anuncios en una revista, cosas bonitas para que me quedara conforme como te quedas tú porque tienes París y tu mujer y tu trabajo... Yo tenía mi saxo... y mi sexo, como dice el libro. Todo lo que hacía falta. Trampas, querido... porque no puede ser que no haya otra cosa, no puede ser que estemos tan cerca, tan del otro lado de la puerta...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Lo único que cuenta es dar de sí todo lo posible -digo, sintiéndome insuperablemente estúpido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Y ganar todos los años el referendum de Down Beat, claro -asiente Johnny-. Claro que sí, claro que sí, claro que sí. Claro que sí.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Lo llevo poco a poco hacia la plaza. Por suerte hay un taxi en la esquina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO -Sobre todo no acepto a tu Dios -murmura Johnny-. No me vengas con eso, no lo permito. Y si realmente está del otro lado de la puerta, maldito si me importa. No tiene ningún mérito pasar al otro lado porque él te abra la puerta. Desfondarla a patadas, eso sí. Romperla a puñetazos, eyacular contra la puerta, mear un día entero contra la puerta. Aquella vez en Nueva York yo creo que abrí la puerta con mi&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;música, hasta que tuve que parar y entonces el maldito me la cerró en la cara nada más que porque no le he rezado nunca, porque no le voy a rezar nunca, por que no quiero saber nada con ese portero de librea, ese abridor de puertas a cambio de una&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;propina, ese...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Pobre Johnny, después se queja de que uno no ponga esas cosas en un libro. Las tres de la madrugada, madre mía.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Tica se había vuelto a Nueva York, Johnny se había vuelto a Nueva York (sin Dédée, muy bien instalada ahora en casa de Louis Perron, que promete como trombonista). Baby Lennox se había vuelto a Nueva York. La temporada no era gran cosa en París y yo extrañaba a mis amigos. Mi libro sobre Johnny se vendía muy bien en todas partes, y naturalmente Sammy Pretzal hablaba ya de una posible adaptación en Hollywood, cosa siempre interesante cuando se calcula la relación franco-dólar. Mi mujer seguía furiosa por mi historia con Baby Lennox, nada demasiado grave por lo demás, al fin y al cabo Baby es acentuadamente promiscua y cualquier mujer inteligente debería comprender que esas cosas no comprometen el equilibrio conyugal, aparte de que Baby ya se había vuelto a Nueva York con Johnny, finalmente se había dado el gusto de irse con Johnny en el mismo barco. Ya estaría fumando marihuana con Johnny, perdida como él, pobre muchacha. Y Amorous acababa de salir en París, justo cuando la segunda edición de mi libro entraba en prensa y se hablaba de traducirlo al alemán. Yo había pensado mucho en las posibles modificaciones de la segunda edición. Honrado en la medida en que la profesión lo permite, me preguntaba si no hubiera sido necesario mostrar bajo otra&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;luz la personalidad de mi biografiado. Discutimos varias veces con Delaunay y con Hodeir, ellos no sabían realmente qué aconsejarme porque encontraban que el libro era estupendo y que a la gente le gustaba así. Me pareció advertir que los dos temían un contagio literario, que yo acabara tiñendo la obra con matices que poco o nada tengan que ver con la música de Johnny, al menos según la entendíamos todos nosotros. Me pareció que la opinión de gentes autorizadas (y mi decisión personal, sería tonto negarlo a esta altura de las cosas) justificaba dejar tal cual la segunda edición. La lectura minuciosa de las revistas especializadas de los Estados Unidos (cuatro reportajes a Johnny, noticias sobre una nueva tentativa de suicidio, esta vez con tintura de yodo, sonda gástrica y tres semanas de hospital, de nuevo tocando en Baltimore como si nada) me tranquilizó bastante, aparte de la pena que me producían estas recaídas lamentables. Johnny no había dicho ni una palabra comprometedora sobre el libro. Ejemplo (en Stomping Around, una revista musical de Chicago, entrevista de Teddy Rogers a Johnny): "¿Has leído lo que ha escrito Bruno V... sobre ti en París?" "-Sí. Está muy bien." "¿Nada que decir sobre ese libro?" "-Nada, fuera de que está muy bien. Bruno es un gran muchacho." Quedaba por saber lo que pudiera decir Johnny cuando anduviera borracho o drogado, pero por lo menos no había rumores de ningún desmentido de su parte. Decidí no tocar la segunda edición del libro, seguir presentando a Johnny como lo que era en el fondo: un pobre diablo de inteligencia apenas mediocre, dotado como tanto músico, tanto ajedrecista y tanto poeta del don de crear cosas estupendas sin tener la menor conciencia (a lo sumo un orgullo de boxeador que se sabe fuerte) de las dimensiones de su obra. Todo me inducía a conservar tal cual ese retrato de Johnny; no era cosa de crearse complicaciones con un público que quiere mucho jazz pero nada de análisis musicales o psicológicos, nada que no sea la satisfacción momentánea y bien recortada, las manos que marcan el ritmo, las caras que se aflojan beatíficamente, la música que se pasea por la piel, se incorpora a la sangre y&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;a la respiración, y después basta, nada de razones profundas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Primero llegaron los telegramas (a Delaunay, a mí, por la tarde ya salían en los diarios con comentarios idiotas); veinte días después tuve carta de Baby Lennox, que no se había olvidado de mí. "En Bellevue lo trataron espléndidamente y yo lo fui a buscar cuando salió. Vivíamos en el departamento de Mike Russolo, que anda en gira por Noruega. Johnny estaba muy bien, y aunque no quería tocar en público aceptó grabar discos con los chicos del Club 28. A ti te lo puedo decir, en realidad estaba muy débil (ya me imagino lo que quería dar a entender Baby con esto, después de nuestra aventura en París) y de noche me daba miedo la forma en que respiraba y se quejaba. Lo único que me consuela -agregaba deliciosamente Baby- es que murió contento y sin saberlo. Estaba mirando la televisión y de golpe se cayó al suelo. Me dijeron que fue instantáneo." De donde se deducía que Baby no había estado presente, y así era porque luego supimos que Johnny vivía en casa de Tica y que había pasado cinco días con ella, preocupado y abatido, hablando de abandonar el jazz, irse a vivir a México y trabajar en el campo (a todos les da por ahí en algún momento de su vida, es casi aburrido), y que Tica lo vigilaba y hacía lo posible por tranquilizarlo y obligarlo a pensar en el futuro (esto lo dijo luego Tica, como si ella o Johnny hubieran tenido jamás la menor idea del futuro). A mitad de un programa de televisión que le hacía mucha gracia a Johnny, empezó a toser, de golpe se dobló bruscamente, etc. No estoy tan seguro de que la muerte fuese instantánea como lo declaró Tica a la policía (tratando de salir del lío&lt;span style=""&gt;                                                                  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;descomunal en que la había metido la muerte de Johnny en su departamento, la marihuana que había al alcance de la mano, algunos líos anteriores de la pobre Tica, y los resultados no del todo convincentes de la autopsia. Ya se imagina uno todo lo que un médico podía encontrar en el hígado y en los pulmones de Johnny). "No quieras saber lo que me dolió su muerte, aunque podría contarte otras cosas -agregaba dulcemente esta querida Baby- pero alguna vez cuando tenga más ánimos te escribiré o te contaré (parece que Rogers quiere contratarme para París y Berlín) todo lo que es necesario que sepas, tú que eras el mejor amigo de Johnny." Y después de una carilla entera dedicada a insultar a Tica, que de creerle no sólo sería causante de la muerte de Johnny sino del ataque a Pearl Harbor y de la Peste Negra, esta pobrecita Baby terminaba: "Antes de que se me olvide, un día en Bellevue preguntó mucho por ti, se le me daban las ideas y pensaba que estabas en Nueva York y que no querías ir a verlo, hablaba siempre de unos campos llenos de cosas, y después te llamaba y hasta te decía palabrotas, pobre. Ya sabes lo que es la fiebre. Tica le dijo a Bob Carey que las últimas palabras de Johnny habían sido algo así como: "Oh, hazme una máscara", pero ya te imaginas que en ese momento..." Vaya si me lo imaginaba. "Se había puesto muy gordo", agregaba Baby al final de su carta, "y jadeaba al caminar". Eran los detalles que cabía esperar de una persona tan delicada como Baby Lennox.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span  lang="ES-TRAD" style="font-family:Arial;"&gt;OO Todo esto coincidió con la aparición de la segunda edición de mi libro, pero por suerte tuve tiempo de incorporar una nota necrológica redactada a toda máquina, y una fotografía del entierro donde se veía a muchos jazzmen famosos. En esa forma la biografía quedó, por decirlo así, completa. Quizá no esté bien que yo diga esto, pero como es natural me sitúo en un plano meramente estético. Ya hablan de una nueva traducción, creo que al sueco o al noruego. Mi mujer está encantada con la noticia.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3909042165508243234-5606548923696782389?l=contoscitados.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contoscitados.blogspot.com/feeds/5606548923696782389/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/01/normal-0-21-el-perseguidor-julio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5606548923696782389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5606548923696782389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2010/01/normal-0-21-el-perseguidor-julio.html' title='EL PERSEGUIDOR  Julio Cortázar'/><author><name>?                      ?</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09677894121972171715</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234.post-5513638324887199316</id><published>2009-12-05T02:30:00.000-08:00</published><updated>2009-12-05T02:38:33.921-08:00</updated><title type='text'>Ocapote - Nicolai Gogol</title><content type='html'>&lt;link rel="stylesheet" type="text/css" href="/css/spellcheck.css"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Repartição de... Mas será melhor não a  nomearmos, porque nada há mais susceptível do que os nossos empregados públicos,  desde os amanuenses aos chefes de repartição. Actualmente, cada um sente-se em  particular como se na sua pessoa toda a sociedade tivesse sido ofendida. Diz-se  que um capitão da polícia apresentou, ainda não há muito tempo, uma queixa - não  me recordo em que cidade isto se passou – revelando claramente que os decretos  imperiais eram desdenhados por toda a gente e que o santo nome de um oficial era  proferido com desprezo. E juntava, como prova, o volumoso tomo de certa novela  em que, de dez em dez páginas, aparecia um capitão da polícia, e, o que é  demais, em completo estado de embriaguez. Deste modo, para evitar desgostos, em  vez de indicar a repartição onde ocorreu o facto, é preferível dizer apenas:  "Numa repartição..."&lt;br /&gt;Por conseguinte, "numa repartição" servia "um  funcionário". Esse funcionário, é justo dizê-lo, era muito distinto: de estatura  baixa, um pouco picado das bexigas e igualmente um pouco curto de vista, com uma  pequena calva a principiar na testa, rugas nas duas faces e, no rosto, essa cor  característica do hemorroidal ... Que se lhe há-de fazer: A culpa era do clima  de Sampetersburgo. Pelo que se refere à sua categoria (pois é entre nós a  primeira coisa que se menciona), era o que se designa por "conselheiro titular  perpétuo", um daqueles com que satirizam certos escritores que têm&lt;br /&gt;o  benemérito hábito de cair a fundo sobre os inofensivos.&lt;br /&gt;O nosso funcionário  tinha o apelido de Blaquemaquine (sapateiro), e já por esse apelido se vê qual  tinha sido a sua ascendência; mas quando, onde e de que maneira tal apelido  surgira ninguém o sabia; sabia-se apenas que pai, o avô e até mesmo o cunhado, e  em geral todos os Blaquemaquines, tinham ascendentes sapateiros. Chamava-se  Acaqui Acaquievich. Ora é possível que o leitor considere este nome um pouco  estranho e pretensioso, mas pode crer que não é assim: ele foi-lhe posto nas  circunstancias mais naturais e é fácil ver que não poderia ter sido outro.  Acaqui Acaquievich nasceu na noite de 23 de Março. A sua defunta mãe, esposa de  um funcionário, muito boa mulher, dispôs as coisas para que o menino fosse  batizado segundo as praxes. A mãezinha estava ainda de cama em frente da porta;  à direita, de pé, o padrinho, Ivan Ivanovitch Erochquine, excelente homem, chefe  de uma secretaria do Senado, e a madrinha, Arina Semenovna Bielobriuchkova,  esposa de um oficial e mulher de extraordinárias virtudes. Apresentaram à  parturiente três nomes para que escolhesse aquele de que mais gostasse: Moquia,  Sosia, ou então o nome do mártir Josdasata. "Não!", pensou a doente. "Que  nomes!" Para lhe serem agradáveis, levantaram a folhinha do calendário e leram,  noutro lugar, mais três nomes: Trifili, Dula e Varaiasi. "Que castigo este!",  comentou a mulher. " São tão bonitos como os outros! Nunca ouvi esses nomes!  Ainda se fosse Varadat, ou Varui, mas agora Trifili e Varaiasi!" Voltaram mais  uma folhinha do calendário e deparou-se-lhes: Pafsicai e Vaitisi. "Já vejo",  disse, "é o destino que o quer! Nesse caso, prefiro que tenha o nome do pai. O  pai chamava-se Acaqui, e o nome do filho será, portanto, Acaqui." Resultou dessa  maneira Acaqui Acaquievich. O menino foi baptizado, chorou e fez grandes  caretas, como se pressentisse que teria de ser conselheiro titular. Foi isso que  aconteceu.&lt;br /&gt;Contamos isto com o propósito de levar o leitor a compreender por  si próprio como foi fatal a impossibilidade de lhe dar outro nome. Quando teria  sido colocado na repartição e quem o teria nomeado são coisas de que ninguém se  recorda. Todos os directores e todos os chefes de repartição que por lápassaram  viram-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição e com a inalterável dignidade  de um burocrata que compulsa requerimentos; ao vê-lo, poderia julgar-se que  assim nascera neste mundo, completamente burocratizado, de uniforme e  calvo.&lt;br /&gt;Ninguém na repartição o respeitava. O porteiro não só não se levantava  à sua passagem como nem sequer se dignava lançar-lhe um olhar: importava-se  tanto com Acaqui como com uma mosca. Os chefes aproximavam-se dele com uma  frieza autoritária. Qualquer ajudante do chefe de secretaria metia-lhe um oficio  debaixo do nariz sem lhe dizer sequer: "Copie!", ou "Aqui tem você um belo  trabalhinho, uma tarefa interessante", ou outra qualquer coisa amável, como é  estrito dever dos funcionários inferiores bem-educados dizerem. O nosso homem  pegava no ofício, olhava-o, sem mesmo reparar em quem lho entregara ou se aquele  trabalho lhe competia, e punha-se imediatamente a escrever. Os empregados mais  jovens elegiam-no por tema de zombarias e chacotas e os amanuenses, que se  presumiam de espirituosos, contavam, na sua presença e de diversos modos, a sua  própria história e a da sua hospedeira, velhota dos seus 70 anos, que, segundo  diziam, o espancava; e perguntavam quando era o casório, atirando-lhe à cabeça  pequenos pedaços de papel, a fingir de flocos de neve. Acaqui Acaquievich não  respondia uma só palavra às zombarias, como se ali estivesse sozinho. Essas  chalaças nem sequer exerciam influência na tarefa que o absorvia: apesar de  todas as impertinências de que era objecto, não fazia um único erro de escrita.  Só quando a brincadeira se tornava insuportável e lhe batiam no cotovelo,  desviando-lhe a atenção. exclamava:&lt;br /&gt;"Deixem-me! Porque zombam de mim?" E  havia alguma coisa de estranho nas suas palavras e na voz alterada com que as  pronunciava. Alguma coisa soava nelas que despertava compaixão; e, por isso, um  jovem colocado na repartição havia pouco tempo, que, seguindo o exemplo dos  demais, se permitia zombar dele, deteve-se, impressionado, e modificou, a partir  de certa altura, o seu comportamento, como se tudo, repentinamente, se tivesse  transformado. Que forca sobrenatural o elevava acima de todos os seus  companheiros, a quem, até então, considerara pessoas correctas e civilizadas! E  muito tempo depois, no meio das suas alegrias e prazeres, detinha-se, perplexo,  a recordar o funcionário baixo, de calva a principiar na testa, e ouvia-lhe as  penetrantes palavras: "Deixem-me! Porque me vexam?" E juntamente com essas  palavras penetrantes ressoavam outras: "Sou vosso irmão!" E o jovem cobria o  rosto com as mãos e estremecia intensamente, vendo quanta desumanidade existe no  homem e quanta grosseria se disfarça sob a polidez, a educação e as maneiras da  gente fina. "Deus meu! Até mesmo aquele cavalheiro a quem toda a gente considera  digno e honrado..."&lt;br /&gt;Dizer que servia com zelo não basta; deve dizer-se:  servia com amor. Ali, naquelas cópias, revia-se como num mundo tranquilo e  feliz. O prazer gritava-lhe na face. Havia letras que eram suas favoritas e,  quando as escrevia, ficava como que excitado: sorria, devorava-as com os olhos e  acompanhava a tarefa soletrando com os lábios, de maneira que era quase possível  ler-lhe no rosto cada uma das letras que com a pena escrevia. Se tivesse sido  proposta uma recompensa proporcional à sua diligência, talvez que, com espanto  seu, já tivesse sido nomeado conselheiro de Estado. Mas tudo quanto ouviu foi  uma cruel alusão dos seus companheiros irónicos: que em vez de uma condecoração  na lapela tinha hemorróidas noutro sítio. E era assim a consideração que  mostravam ter por ele. Um director, homem de bom coração, desejando  recompensá-lo pelos seus diligentes serviços, ordenou que lhe dessem alguns  trabalhos de mais importância do que as simples cópias vulgares; encarregaram-no  de informar outra repartição acerca dos documentos passados naquela a que  pertencia, consistindo a sua tarefa em mudar os títulos e passar os textos da  primeira pessoa gramatical para a terceira. Isto exigia-lhe tamanho esforço que,  sem exagero, transpirava; esfregando a testa, exclamou por fim: "Não; é melhor  que me dêem um trabalho de cópia." E desde então ficou, para sempre, copista.  Fora do mundo das cópias de ofícios, nada para ele existia. Nem sequer se  preocupava com o vestuário; o seu uniforme perdera a cor amarela e tinha agora  um tom desbotado e indefinido; a gola do casaco era estreita e baixa, de modo  que o pescoço, apesar de ser um pouco gordo, parecia de uma extraordinária  altura, lembrando aqueles gatitos de gesso que movem a cabeça.&lt;br /&gt;Trazia sempre  qualquer coisa agarrada ao uniforme, fossem palhas ou palitos, pois tinha tanta  sorte, ao ir pela rua, que passava debaixo de uma janela no preciso momento em  que deitavam fora uma lata vazia, e trazia sempre no chapéu de chuva pevides e  cascas de melão, ou coisas semelhantes. Nem uma só vez na vida prestara atenção  ao que se passava ou sucedia diariamente na rua. Nisso era muito diferente dos  jovens funcionários, que, de olhar extremamente móvel e penetrante,  imediatamente notavam quem levava os fundilhos das calças um pouco coçados,  sorrindo com irónico prazer das alheias misérias. Acaqui Acaquievich, embora  divagando o olhar por tudo isso, via exclusivamente os seus ofícios correctos,  copiados com uma letra esmerada, e só por casualidade, quando lhe roçava pelo  ombro o focinho de um cavalo e o vento lhe soprava no rosto, só então, dava  conta de que se não encontrava no meio de um parágrafo, mas no meio da rua. Ao  chegar a casa, sentava-se à mesa, levava rapidamente à boca umas tantas  colheradas de sopa, comia a carne de vaca com cebola, sem atender sequer ao  paladar: era capaz de come-la com moscas e tudo. Quando verificava que começava  a ter o estômago cheio, levantava-se da mesa, ia buscar um pequeno tinteiro e  copiava os papéis que trouxera da repartição para trabalhar em casa; se não  trouxera trabalho, ocupava-se então a copiar por gosto e divertimento, e fazia-o  com uma íntima satisfação, não derivada apenas do belo talhe de letra que  possuía, mas da importância da pessoa a quem imaginava que o ofício se  dirigia.&lt;br /&gt;Até quando se obscurece totalmente o céu nevoento de Sampetersburgo  e toda a multidão de empregados ceia segundo as suas possibilidades, conforme os  vencimentos e os gostos particulares de cada qual; quando todos descansam de  ouvir o incessante arranhar da pena no papel e do constante vaivém da vida  diária, quer das andanças realizadas por motivo da profissão, quer de todas  quantas empreendem homens insatisfeitos e inquietos; quando os funcionários se  apresentam a dedicar o tempo que lhes resta em distracções várias - uns no  teatro, outros na rua, observando certas sombrinhas elegantes, outros ainda  adorando uma bela e modesta dama, estrela de um pequeno círculo de empregados,  e, ainda mais frequentemente, algum outro em casa de um colega que habita no  segundo ou terceiro andar, em dois diminutos compartimentos, tais como uma  antessala e uma cozinha e uma lâmpada ou qualquer outro objecto que  ostensivamente pretende estar na moda e que custou muitos sacrifícios, renúncias  a prazeres e divertimentos -, numa palavra, à hora em que todos os burocratas se  dispersam pelas exíguas habitações dos amigos, para jogar o whist, bebendo aos  golos pequenos chá com açúcar, apertando-se uns contra os outros no ambiente  denso do fumo que se evola dos grandes cachimbos, contando o resultado de  qualquer intriga da alta sociedade, coisa a que nunca o Russo, e em qualquer  condição, pode renunciar, ou então, quando não há outro assunto, repetindo uma  velha anedota acerca de um comandante a quem vieram dizer que tinha sido cortado  o pescoço do cavalo do monumento de Pedro, o Grande; em suma, até nos momentos  em que todos procuram divertir-se, Acaqui Acaquievich não se entregava a  divertimento algum. Ninguém podia afirmar tê-lo visto num sarau. Depois de  copiar o mais que podia, deitava-se, antecipadamente se regozijando a pensar no  dia seguinte. "Que lhe ofereceria Deus para copiar amanhã?" Assim se escoava a  vida do homem pacífico a quem bastaria uma modesta aposentação para fazer feliz  e que teria de prosseguir a mesma vida até à mais provecta idade se não  sucedesse qualquer das desgraças que não surgem apenas na vida de um titular,  mas também na dos próprios conselheiros secretos efectivos e na dos conselheiros  da coroa, inclusive na daqueles que não dão conselho algum e de quem, de resto,  nem se aceitam.&lt;br /&gt;Em Sampetersburgo existe um poderosíssimo inimigo de todos  os que recebem uns quatrocentos rublos de vencimentos anuais. Esse inimigo não é  outro senão o frio do Inverno, que é, aliás, considerado, por alguns, muito  sadio. Às dez da manhã, ou seja à hora em que as ruas se enchem de todos os que  se dirigem para as respectivas repartições, começa o vento a distribuir fortes  zurzidelas, que cortam todos os narizes à direita e à esquerda, sem selecção de  nenhuma espécie, de maneira que os pobres funcionários não sabem onde e como os  podem resguardar. À hora em que até aos mais altos empregados dói a cabeça com  frio e em que as lágrimas lhes saltam irresistivelmente dos olhos os pobres  conselheiros titulares encontram-se, por vezes, indefesos. A única salvação  consiste em caminhar o mais depressa possível, embrulhados nos finos capotes,  percorrendo cinco ou seis ruas, e deixar depois arrefecer os pés na portaria,  perdendo assim a única vantagem da ofegante caminhada.&lt;br /&gt;Acaqui Acaquievich  andava há tempos a sentir intensas picadas nas costas e nos ombros, apesar de se  esforçar por transpor as distâncias o mais rapidamente possível. Começou a  pensar se o responsável disso não seria o seu capote. Ao chegar a casa,  examinou-o cuidadosamente e descobriu que a fazenda estava puída em dois ou três  lugares, precisamente nas costas e nos ombros, de tal modo que se tornara uma  rede, e em virtude de o forro se encontrar também esgarçado. Convém saber que o  capote de Acaqui Acaquievich servia também de motivo de chacota aos  funcionários; chegaram até a recusar-lhe o nobre nome de capote e a chamarem-lhe  capinha. Tinha, efectivamente, uma forma pouco comum nos capotes, visto que a  gola diminuía de ano para ano, porque era utilizada para remendar o resto.  Quanto aos remendos, não demonstravam gosto algum da parte do alfaiate;  demonstravam, muito pelo contrário, grosseria e fealdade.&lt;br /&gt;Tendo Acaqui  Acaquievich considerado ponderadamente os prós e os contras, decidiu-se a levar  o capote a Petrovich, um alfaiate que habitava num quarto andar sem sol e que,  apesar de zarolho e bexiguento, se ocupava, com bastante habilidade, em  consertar calças e fraques de funcionários, isto, é claro, nos momentos em que  não se encontrava em estado de completa embriaguez e não alimentava na sua  cabeça outras&lt;br /&gt;ideias. Não faria falta, dir-se-á, falar deste alfaiate, mas,  já que é costume dar a conhecer plenamente em todas as histórias o carácter de  uma personagem, não deve haver inconveniente em que apresentemos aqui Petrovich.  Começara por se chamar simplesmente Gregório, e era então um homem equilibrado,  servo de um senhor. O nome Petrovich data da época em que alcançara a liberdade  e em que dera em emborrachar-se valentemente todos os dias de festa; primeiro só  nos dias grandes, e depois, sem destrinças, em todos os dias santificados,  sempre que no calendário encontrasse uma cruz. Permanecia, por este lado, fiel  aos costumes dos antepassados, e, ralhando com a mulher, chamava-lhe mundana e  tudesca.&lt;br /&gt;Já que citámos a consorte, conviria dizer duas palavras acerca  dela: por desgraça, tudo quanto se sabe a seu respeito é que era mulher de  Petrovich, que usava gorro à russa e não lenço; não parecia distinguir-se pela  sua beleza, e o mais que aconteceu foi encontrarem-se duma vez com ela os  soldados da guarda ao regimento, mirarem-na por baixo do gorro, fazerem  trejeitos com a boca e proferirem certas palavras que não podemos repetir.  Subindo a escada que conduzia a casa de Petrovich - escada essa que, para dizer  a verdade inteira, estava cheia de pequenas poças de água de cheiro nauseabundo  e penetrante, vencendo esse odor estonteante que faz até&lt;br /&gt;arder os olhos e  que, como se sabe, constitui característica inseparável de todos os andares  interiores das casas de Sampetersburgo -, subindo a escada, meditava Acaqui  Acaquievich naquilo que podia pedir-lhe Petrovich, e a si mesmo jurava não dar  mais de dois rublos. A porta estava aberta. A mulher do alfaiate cozinhava peixe  e provocara tal fumarada na cozinha que não era sequer possível descortinar as  baratas. Acaqui Acaquievich passou junto da cozinha sem que a mulher o notasse e  chegou ao quarto, onde encontrou Petrovich sentado sobre uma grande mesa de  madeira, com as pernas cruzadas como um paxá. Estando de pés descalços, como é  costume entre sapateiros quando estão a trabalhar, despertavam atenção, pelo seu  tamanho, os artelhos, bem conhecidos de Acaqui Acaquievich, com as unhas  enormes, espessas e fortes como carapaças de tartaruga. Em volta do pescoço  tinha fios de linha e de seda e estendidos nas pernas farrapos velhos de  variegadas cores. Havia três minutos já que tentava enfiar a agulha, sem o  conseguir, e por isso praguejava exaltadamente contra a obscuridade e contra a  maldita linha, gritando em altos berros: "A imbecil não entra na agulha! Esta  maldita cai-me das mãos!"&lt;br /&gt;Era para Acaqui Acaquievich extremamente  desagradável chegar ali no momento exacto em que Petrovich experimentava um tal  assomo de cólera: preferiria encarregá-lo do trabalho noutra altura, quando  tivesse perdido a fúria ou, como dizia a mulher, quando esse diabo torto  estivesse adormecido pela aguardente. Nessas ocasiões, Petrovich mostrava-se  relativamente afectuoso e aquiescente, chegando mesmo a conceder um cumprimento  ou a agradecer. A mulher vinha, é claro, acto contínuo, a chorar, dizer que o  marido estava embriagado e que, por isso, ajustara o trabalho por uma ninharia;  mas, juntando dez copeques ao preço estipulado, o assunto ficava  resolvido.&lt;br /&gt;Neste momento, Petrovich encontrava-se, segundo parecia, num dos  seus dias de temperança, e, por conseguinte, rígido, pouco falador e disposto a  pedir preços exorbitantes. Compreendendo-o, Acaqui Acaquievich ainda pensou em  retroceder, sem ser visto; mas era demasiado tarde. Petrovich virou para ele o  seu único olho e Acaqui Acaquievich disse, sem querer:&lt;br /&gt;- Bom dia,  Petrovich!&lt;br /&gt;- Muito bom dia, cavalheiro! - replicou Petrovich, desviando o  olho em direcção às mãos de Acaqui Acaquievich, a ver que bela prenda lhe  traria.&lt;br /&gt;- Venho a tua casa, Petrovich, efectivamente...&lt;br /&gt;Convém saber que  Acaqui Acaquievich se exprimia quase sempre mediante partículas gramaticais sem  qualquer significado. Se o assunto era muito complicado, tinha por costume não  terminar a frase, de modo que os elementos principais da oração eram precedidos  das palavras "coisa, com efeito, absolutamente ..", e calava-se depois, supondo  ter já dito tudo quanto pretendia.&lt;br /&gt;- Quê? Vamos lá a ver... - interpôs  Petrovich, observando naquele instante, com o seu único olho, toda a fatiota,  desde a gola às mangas, desde as costas à labita e às pernas das calças, tudo  tão seu conhecido, como produto da virtuosidade das suas mãos. Era o que, como  um verdadeiro alfaiate, fazia antes de mais conversa.&lt;br /&gt;- Pois eu, o caso é  este, Petrovich... este capote, a fazenda... como vês, está ainda boa em todos  os sítios... um pouco coçada, é certo, e com aspecto de velha, embora seja nova  ainda, se exceptuares neste sítio um rasgãozito, uma coisa pequena aqui... nas  costas... e também aqui... neste ombro, um pouquinho puído. E só isto, vês? Não  é grande coisa.&lt;br /&gt;Petrovich pegou no capote, estendeu-o em cima da mesa,  examinou-o durante largo tempo, abanou a cabeça e estendeu a mão para uma velha  caixa de rapé que tinha na tampa o retrato de um general, cujo nome não é  possível precisar por a sua fisionomia estar suja dos dedos do possuidor. Depois  de tomar uma pitada, Petrovich pôs o capote contra a luz e voltou a abanar a  cabeça: tornou a pegar na caixa que tinha o general na tampa e, introduzindo o  rapé no nariz, fechou-a e pô-la de lado, dizendo finalmente:&lt;br /&gt;- Não, não tem  conserto; isto é um monte de trapos.&lt;br /&gt;Ao ouvir estas palavras, a Acaqui  Acaquievich oprimiu-se-lhe o coração.&lt;br /&gt;- Porque dizes isso, Petrovich? -  murmurou ele quase implorativamente, com a sua voz infantil. - Só está um pouco  puído aqui nos ombros, mas tu, certamente, hás-de ter algum pedaço que...&lt;br /&gt;-  Não seria essa a dúvida, ainda tenho dessa fazenda - disse Petrovich.&lt;br /&gt;- Mas a  dificuldade reside no cosê-lo; está completamente podre, tão podre que não  aguenta a linha.&lt;br /&gt;- Podes aproveitá-lo, cosendo uns remendos por cima.&lt;br /&gt;-  Uns remendos por cima! Mas não se segura numa fazenda neste estado! O próprio  vento é capaz de o arrancar.&lt;br /&gt;- Nesse caso, reforça então a fazenda por  dentro, e ficará bem...&lt;br /&gt;- Não - objectou Petrovich com decisão -, nada se  pode fazer. O melhor, visto que se aproxima agora o maior frio do Inverno, será  você fazer umas polainas desta fazenda. Sempre lhe resguardarão as pernas melhor  do que as meias, que são apenas invenção dos Alemães para ganhar dinheiro.  (Agradava a Petrovich aproveitar a ocasião para insultar os Alemães.) Quanto ao  capote, o melhor é mandar fazer um novo.&lt;br /&gt;Ao ouvir a palavra "novo",  toldaram-se os olhos de Acaqui Acaquievich, que começou a ver andar à roda de si  tudo quanto se encontrava naquela sala. Só via claramente a figura do general na  caixa do rapé.&lt;br /&gt;- Novo? - dizia como em sonho. - Desgraçadamente, não tenho  dinheiro para tal.&lt;br /&gt;- Sim, novo - repetia Petrovich com uma calma brutal.&lt;br /&gt;-  E, sendo novo, a quanto montaria?&lt;br /&gt;- Quanto custaria?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Teria de  gastar uns cento e cinquenta rublos - disse Petrovich, cerrando os  lábios.&lt;br /&gt;Era partidário dos efeitos fortes; agradava-lhe desconcertar por  completo alguém e lançar um olhar de soslaio para observar a cara do assustado  ao ouvi-lo.&lt;br /&gt;- Cento e cinquenta rublos pelo capote! - exclamou o pobre Acaqui  Acaquievich, sendo talvez este o primeiro grito desde que nasceu, já que,  geralmente, se conservava em silêncio.&lt;br /&gt;- Naturalmente - afirmou Petrovich. -  E isso conforme seja o capote. Se levar gola de marta e bandas de seda, atira a  uns duzentos.&lt;br /&gt;- Por Deus, Petrovich! - disse Acaqui Acaquievich com voz  suplicante, sem escutar nem pretender considerar as palavras de Petrovich ou os  seus efeitos. Arranja-me este como puder ser, para que ainda me sirva algum  tempo.&lt;br /&gt;- De modo nenhum; seria perder trabalho e dinheiro - respondeu  Petrovich.&lt;br /&gt;Depois de ouvir aquelas palavras, Acaqui Acaquievich saiu,  acabrunhado. Petrovich viu-o caminhar pela rua e permaneceu largo tempo de pé,  com os lábios cerrados, sem fazer caso do trabalho, tal era o seu contentamento  por não se ter rebaixado nem traído a sua nobre arte de alfaiate.&lt;br /&gt;Quando  Acaqui Acaquievich chegou à rua, encontrava-se como num sonho. "Alguém viu já  semelhante coisa?", dizia ele com os seus botões, "Nunca pensaria que podia  chegar a tal..." E logo, após um silêncio, acrescentou: "Ora aí está! Cheguei  finalmente a isto! Nunca teria suposto que fosse assim." E, depois de outro  largo silêncio, voltou a exclamar: "Assim é, pois! Já não há esperança  possível... Acabou-se... As circunstâncias requerem-no!"&lt;br /&gt;E, dito isto, em vez  de ir para casa, seguiu na direcção contrária, sem se dar de maneira alguma  conta disso. Enquanto caminhava, roçou por ele um limpa-chaminés, que o sujou no  ombro, e caiu-lhe também em cima um pedaço de argamassa de uma casa em  construção. Não se apercebia de nada, e, mais tarde, quando tropeçou contra um  guarda municipal, ao mudar este a espingarda para tirar tabaco do bolso,  despertou ao ouvir o mesmo admoestá-lo:&lt;br /&gt;- Porque te metes debaixo do meu  nariz? Não te chega a rua?&lt;br /&gt;Aquilo obrigou-o a reflectir e a dirigir-se a  casa. Só então lhe foi dado concentrar os seus pensamentos e viu com clareza a  sua presente situação; começou a falar com os seus botões, sem a anterior  incoerência, mas meditando com lógica, como se revelasse a um amigo inteligente  o mais intimo segredo do seu coração. "Não", monologava Acaqui Acaquievich. "Não  convém hoje tratar com Petrovich. Hoje, a mulher... deve ter-lhe dado uma sova.  O melhor será voltar domingo de manhã: depois da bebedeira da véspera estará  ainda com o olho pisco e sonolento, e, como precisa de voltar a beber e a mulher  não lhe dá dinheiro, se eu lhe passar uns rublos para a mão, deixa-se convencer  e conserta-me o capote."&lt;br /&gt;Assim ia monologando e assim se ia animando Acaqui  Acaquievich. Esperou até ao domingo seguinte e, depois de ver a mulher de  Petrovich sair de casa, entrou com ar decidido. Custava muitíssimo a Petrovich,  com efeito, abrir o seu único olho depois do que bebera na véspera, e cabeceava,  sonolento; mas, apenas soube do que se tratava, pareceu que se apossara dele o  Diabo.&lt;br /&gt;- Não pode ser! - disse. - Tem de se lazer outro novo.&lt;br /&gt;Acaqui  Acaquievich meteu-lhe uns copeques na mão.&lt;br /&gt;- Obrigado, senhor. Agora poderei  fortalecer-me um pouco à sua saúde - disse o alfaiate. - E não se preocupe você  com o capote: não serve para nada. Far-lhe-ei um novo; e, quanto ao preço,  havemos de entender-nos.&lt;br /&gt;Acaqui Acaquievich preferia que ele lhe cosesse o  velho, mas Petrovich não fazia caso das suas palavras e insistia:&lt;br /&gt;-  Far-lhe-ei um novo, com toda a perfeição; tenha confiança em mim, farei quanto  puder. E, se for preciso, até lhe ponho botões de prata, pois agora estão na  moda.&lt;br /&gt;E Acaqui Acaquievich, vendo que não tinha outra solução senão fazer um  capote novo, sentia um grande pavor na sua alma. Era necessário, tinha de ser,  mas o dinheiro? Podia, certamente, contar com a gratificação que receberia nas  próximas festas, mas esse dinheiro estava há muito já destinado. Necessitava  fazer umas calças novas, pagar ao sapateiro uma dívida antiga de umas meias  solas e, além disso, tinha de mandar fazer, sem falta, três camisas novas, duas  das quais brancas; numa palavra, o dinheiro estava já destinado, e, ainda que  tivesse um director compreensivo, capaz de conceder uma gratificação de quarenta  e cinco ou cinquenta rublos, em vez de quarenta, o restante seria apenas uma  insignificância para a soma de que necessitava para o capote - uma verdadeira  gota de água no oceano.&lt;br /&gt;Sabia perfeitamente que Petrovich costumava fazer  preços exorbitantes, de tal modo que até a mulher não podia conter-se e  exclamava: "Mas tu estás com o juízo todo? Umas vezes aceitas o trabalho por  nada, e agora atreves-te a pedir um preço que nem tu próprio vales." E sabia  perfeitamente também que Petrovich acabaria por fazer-lhe o capote por oitenta  rublos; entretanto, donde haviam de vir-lhe esses oitenta rublos? Metade ainda  podia arranjar-se: metade, sim, e talvez um pouco mais; mas onde conseguir a  outra metade? Antes de prosseguirmos, deve o leitor ficar a saber donde lhe  podia vir a primeira metade.&lt;br /&gt;Acaqui Acaquievich tinha o costume de reservar  uma pequena quantia por cada rublo que gastava num mealheiro pequeno e fechado,  com uma larga abertura. Ao cabo de cada meio ano contava o dinheiro em cobre e  trocava-o por moedas de prata. Assim procedera durante muito tempo, e, desta  maneira, ao fim de alguns anos reunira uma soma superior a quarenta rublos. A  metade, por conseguinte, encontrava-se nas suas mãos; mas a outra metade? Onde  obter os outros quarenta rublos? Acaqui Acaquievich&lt;br /&gt;pensava, pensava, e  chegou à conclusão de que o único recurso era reduzir até ao extremo possível  todos os gastos ordinários durante um ano, abolir o hábito de tomar chá à noite,  não acender a luz e, quando precisasse de copiar qualquer coisa, ir ao quarto da  patroa e trabalhar à luz da sua vela; ao caminhar pela rua, fazer por andar o  mais cuidadosamente possível e evitar as pedras ou pedaços de ferro, para não  gastar rapidamente as solas dos sapatos; dar à lavadeira a roupa branca com a  menor freqüência possível e, para que se não gastasse, tirá-la logo ao chegar a  casa e substitui-la pela camisa de dormir, que era de algodão, muito velha, e  não podia durar muito mais.&lt;br /&gt;Para dizer inteiramente a verdade, consignaremos  que, a principio, lhe custou muito habituar-se a todas estas privações, mas  depois, uma vez acostumado, chegou até a suprimir a refeição da noite; em  compensação, alimentava-se espiritualmente, pensando no seu futuro capote. A  partir daí pareceu encontrar um complemento do seu ser, como se fora casar, ou  como se se sentisse outro, como se não estivesse sozinho na vida, como se  tivesse encontrado uma companheira que aceitasse seguir juntamente com ele pela  estrada da vida; ora esta companheira não era outra senão o seu capote, de  grosso forro, sem a menor passagem. Tornou-se mais animado e de carácter mais  firme, como um homem que se propôs um fim determinado. Do seu rosto e até dos  seus passos desapareceram a dúvida e a indecisão. No seu olhar aparecia mesmo um  certo lampejo; no cérebro passavam-lhe, como relâmpagos, pensamentos audazes e  temerários: "Porque não havia de pôr a gola de marta?" Com estas ideias  tornou-se um tanto distraído. Uma ocasião, ao copiar um oficio, esteve a ponto  de fazer&lt;br /&gt;um erro; quase gritou em voz alta "ai!" e fez o sinal da cruz. Uma  vez por mês, pelo menos, visitava Petrovich, com o propósito de lhe falar acerca  do capote: onde conviria comprar a fazenda, de que cor e por que preço sairia;  e, embora um pouco preocupado, voltava sempre satisfeito a casa, pensando que em  breve chegaria o momento de comprar tudo o que era necessário e ter pronto o  capote.&lt;br /&gt;O caso resolveu-se ainda mais rapidamente do que ele pensava. Contra  toda a sua expectativa, o director concedeu-lhe não só quarenta ou quarenta e  cinco, mas sessenta rublos. E esta circunstância apressou o caso. Dois ou três  meses mais de pequenos jejuns e Acaqui Acaquievich reunia exactamente oitenta  rublos. E o seu coração, de ordinário tranquilo, começou a bater  fortemente.&lt;br /&gt;Logo no primeiro dia dirigiu-se, com Petrovich, a um armazém.  Compraram uma fazenda muito bonita e que não era cara, porque estes tinham sido  os seus pensamentos durante os últimos seis meses, e não se teria passado um mês  sem que tivesse ido ao armazém informar-se dos preços. Mestre Petrovich  asseverava, pelo seu lado, que não havia melhor fazenda. Escolheram um forro de  seda indiana, tão bom e tão forte que, no dizer de Petrovich, dificilmente  poderia encontrar-se seda que lhe fosse superior no aspecto e no brilho. Não  compraram marta porque, com efeito, o preço era exorbitante; mas escolheram, em  compensação, pele de gato, a melhor que havia no armazém de pelagem, tão fina  que, de longe, qualquer a tomaria por marta. Petrovich ocupou-se duas semanas  completas na feitura do capote: era preciso pespontar muito; doutro modo  tê-lo-ia terminado antes. Pelo seu trabalho cobrou ele doze rublos, e menos não  podia levar: tudo fora cosido com costura dupla e em cada uma delas recorrera  Petrovich à ajuda dos seus próprios dentes.&lt;br /&gt;Foi - não é fácil precisar qual,  mas é quase certo - o dia mais solene da vida de Acaqui Acaquievich aquele em  que, por fim, Petrovich lhe trouxe o capote. Trouxe-o numa manhã, no instante  preciso em que Acaqui Acaquievich ia a sair, para a repartição. Em nenhuma outra  altura teria sido mais oportuno, pois já o frio começara a fazer-se sentir com  intensidade e ameaçava vir ainda a ser mais agreste. Apareceu Petrovich com o  capote, como convém a um bom alfaiate. Via-se no seu rosto uma expressão tão  orgulhosa como Acaqui Acaquievich jamais vira. Parecia sentir com intensidade  que a sua obra não era nenhuma pequenez e que existia um abismo de diferença  entre os alfaiates que só põem remendos e os que confeccionam roupa nova.  Desembrulhou a obra (que trazia envolta numa toalha de chita, que dobrou e meteu  cuidadosamente no bolso). Uma vez destapado o capote, mirou-o com grande  satisfação, segurando-o com ambas as mãos, colocou-o habilmente nos ombros de  Acaqui Acaquievich e esticou-o muito cuidadosamente, sem o abotoar. Acaqui  Acaquievich, como homem experiente, desejara verificar o comprimento das mangas;  Petrovich ajudou-o, vendo-se logo que também estas ficavam a primor. Numa  palavra, o capote estava feito com irrepreensível correcção. Petrovich não  perdeu a oportunidade de dizer que aquilo só era possível por viver, sem  tabuleta, numa rua tão modesta; demais a mais já há muito sabia Acaqui  Acaquievich porque lhe cobrara tão barato; se fosse um alfaiate de Nevsqui  Prospect (Avenida do Neva), teria cobrado, só pelo trabalho, setenta e cinco  rublos. A Acaqui Acaquievich não agradava falar mais deste assunto com  Petrovich, a tal ponto temia aquelas formidáveis quantias com que este o  assaltava!&lt;br /&gt;Pagou-lhe, agradeceu-lhe e, envergando já o seu capote novo,  dirigiu-se à repartição. Petrovich seguiu-o e, parando a meio da rua, contemplou  demoradamente a sua obra, e até passou para o outro lado, adiantou-se e voltou  para trás, para observar de novo o capote de frente. Entretanto, Acaqui  Acaquievich caminhava com um ar exuberante. Sentia a todo o momento que levava  aos ombros um capote novo e, até, por diversas vezes, sorriu de íntimo prazer.  Experimentava, com efeito, duas vantagens: a primeira, sentir mais calor; a  segunda, sentir-se outro. Não se demorou pelo caminho e chegou rapidamente à  repartição; entregou o capote ao porteiro e, olhando à direita e à esquerda,  recomendou-o ao seu especial cuidado. Não se sabe de que maneira, o certo é que  correu, sem demora, por toda a repartição que Acaqui Acaquievich tinha um capote  novo e que a velha capinha desaparecera. Todos correram à portaria a admirar o  novo capote de Acaqui Acaquievich. Desataram a felicitá-lo e deram-lhe as  boas-vindas, de tal maneira que ele começou por sorrir de contentamento e acabou  por se envergonhar. Quando o rodearam todos, dizendo que era preciso molhar o  capote novo e que, pelo menos, tinha de lhes pagar uma bebida, Acaqui  Acaquievich perdeu a calma sem saber que responder nem como defender-se.  Afirmava, muito corado, que não era um capote novo, mas velho. Por último, um  dos funcionários, ajudante do chefe, talvez para demonstrar que não era  orgulhoso e que sabia tratar com os inferiores, disse:&lt;br /&gt;- Pois, então,  fá-lo-ei eu em vez de Acaqui Acaquievich, e convido-os a tomar hoje o chá em  minha casa; até calha bem, por ser o dia do meu aniversário.&lt;br /&gt;Os funcionários,  como é de supor, felicitaram o ajudante do chefe e aceitaram o seu convite.  Acaqui Acaquievich quis desculpar-se, mas todos o increparam, dizendo-lhe que  era um malcriado, que devia envergonhar-se daquela incorrecção, e isto de  maneira tal que não pôde escusar-se. Por outro lado, agradava-lhe pensar que  iria ao chá com o seu capote novo. Todo aquele dia pôde considerar-se como de  festa para Acaqui Acaquievich. Voltou   a casa na mesma disposição de espirito,  tirou o capote e pendurou-o cuidadosamente; regozijou-se mais uma vez com a  qualidade da fazenda e do forro e até vestiu o capote velho para fazer a  comparação. Ao ver-se, sorriu: tão grande era a diferença! E ainda muito depois  de comer ele se sorria, e mal pensava nas novas possibilidades de vida que o  capote lhe proporcionava. Comeu alegremente, não escreveu nem o mais  insignificante papel e, com voluptuosidade, deitou-se na cama até ao escurecer.  Logo, sem mais demora, se vestiu e, com o capote pelos ombros, saiu para a rua.  Sinto não poder dizer onde habitava o funcionário anfitrião: a minha memória  começa a fraquejar e os nomes das ruas de Sampetersburgo misturaram-se-me de tal  maneira na cabeça que me é muito difícil ordená-las. Seja como for, o facto é  que vivia numa das melhores artérias da cidade, bastante longe de Acaqui  Acaquievich. Teve este de seguir primeiramente através de ruas solitárias, de  iluminação escassa; mas, à medida que se aproximava do domicílio do funcionário,  as ruas eram mais animadas, a iluminação maior e mais intensa; os viandantes iam  e vinham, mais frequentes, multiplicavam-se as mulheres elegantemente vestidas;  os homens levavam golas de pele de castor; quase não se viam já os bancos de  madeira esburacada; os cocheiros, de libré dourada e gorro de veludo carmesim,  sobre os trenós envernizados e forrados de peles, vagueavam pelas ruas... Acaqui  Acaquievich admirava tudo aquilo como uma novidade; há muitos anos que não saía  à noite. Cheio de curiosidade, deteve-se diante de uma montra para ver o quadro  de uma mulher belíssima a descalçar um sapato, mostrando assim toda a perna  escultural; por detrás dela assomava a uma porta um sujeito de patilhas e com  uma bonita barba ao gosto espanhol. Acaqui Acaquievich abanou a cabeça,  sorrindo, e prosseguiu o seu caminho. Porque sorria ele? Talvez por lhe serem  desconhecidas todas as pessoas com quem cruzava, ou talvez por um sentimento  oculto em relação a esse ambiente, ou então porque pensava como pensam  funcionários: "Vá! Estes Franceses! O que se diz! Que inveja causa! Há que ver,  precisamente e tal!...", ou então seria isto que pensava: que não é possível  perscrutar a alma de um homem e apreender tudo quanto pensa. Chegou por fim à  casa em que habitava o ajudante do chefe. Este vivia à grande: a escadaria era  iluminada por um magnífico candelabro; a habitação ficava no segundo&lt;br /&gt;andar. &lt;br /&gt;Ao entrar na antecâmara, Acaqui Acaquievich viu uma fila de taças. Entre  estas, a meio do compartimento, fervia um samovar, que espargia volutas de  vapor. Pelas paredes estavam pendurados os vários capotes e agasalhos, alguns  dos quais tinham golas de castor ou de veludo. Ouviam-se por detrás da parede  ruídos e diálogos, que se tornaram mais próximos quando um criado abriu a porta  e saiu com chávenas e taças vazias, uma compoteira e uma bandeja com pastéis.  Concluía-se que os funcionários se encontravam reunidos já há algum tempo e que  acabavam de tomar a primeira chávena de chá. Acaqui Acaquievich despiu o capote  sozinho e penetrou no salão; ante ele resplandeceram as velas, os funcionários,  os cachimbos, as mesas de jogo, e surpreenderam-no confusamente os diversos  ruídos; ouvia-se em todas as direcções rumor de conversas e movimentos de  cadeiras.&lt;br /&gt;Permaneceu atónito no centro do salão, pensando no que devia  fazer. Mas já tinham reparado nele; rodearam-no, com alguns gritos, e levaram-no  à antecâmara, para que lhes mostrasse o capote. Acaqui Acaquievich encontrava-se  um tanto aflito, mas, como homem de bom coração, não pôde deixar de alegrar-se  ao ver como todos elogiavam o seu capote. Depois, claro está, deixaram-no a ele  e ao seu capote e voltaram para as mesas de jogo.&lt;br /&gt;Tudo aquilo - ruído,  conversação, grande número de convivas - era para Acaqui Acaquievich como que um  sonho. Não sabia verdadeiramente o que experimentava, nem onde havia de colocar  as mãos, os pés, o seu próprio ser; por último, aproximou-se dos jogadores,  olhou as cartas, contemplou ora um, ora outro, e pouco depois começou a bocejar,  sentindo que se aborrecia, tanto mais que havia passado há muito a hora a que  costumava deitar-se. Quis, por conseguinte, despedir-se do dono da casa, mas não  lho consentiram, alegando que tinha de beber uma taça de champanhe em honra do  novo elemento da sua indumentária. Uma hora mais tarde foi servida a ceia,  composta de fiambre, vitela, empada, pastéis e champanhe. Acaqui Acaquievich  teve de beber duas taças, sentindo que, depois delas, se tornava ainda mais  alegre e ruidoso tudo quanto o cercava; entretanto, não se esqueceu de que dera  já a meia-noite, e, portanto, muito tarde para estar fora de casa. A fim de que  ninguém o obrigasse a permanecer ali, saiu silenciosamente do salão e procurou o  seu capote, que, não sem íntimo desgosto, encontrou caído no chão; apanhou-o,  sacudiu-o, limpou-o, pô-lo pelos ombros, desceu as escadas e encontrou-se ao ar  livre.&lt;br /&gt;Na rua tudo estava iluminado. Algumas tabernas (que são os clubes dos  porteiros e gente parecida) achavam-se ainda abertas; das outras, já fechadas,  saiam longos feixes de luz por entre os interstícios das portas, mostrando que  não estavam sem freguesia, criados certamente que se entretinham a falar e a  dizer mal dos patrões. Acaqui Acaquievich caminhava com alegre disposição de  ânimo e quase se sentiu capaz de correr atrás de uma dama que passou veloz por  diante dele, dama cujo corpo se lhe afigurou extraordinariamente flexível.  Dominou-se, no entanto, e prosseguiu muito lentamente, admirado de si próprio.  Em breve se estenderam ante ele as ruas desertas, onde de dia não se notava  alegria alguma, quanto mais de noite. Apareciam-lhe agora mais profundas e  isoladas, luziam os candeeiros cada vez menos, porque já o azeite se ia  esgotando; começavam a surgir as casas de madeira dos bairros mais pobres; em  parte alguma se via vivalma; a única luz era agora a que reflectia a neve do  chão; e sobre a neve recortavam-se lugubremente as sombras das baixas choupanas,  de janelas cerradas. Aproximava-se do lugar em que a rua desembocava numa praça  enorme, mal se podendo ver as casas do outro lado, como se se tratasse de um  terrível deserto.&lt;br /&gt;Ao longe (só Deus sabe onde!) brilhava o fogo de alguma  guarita, que parecia encontrar-se nos confins do mundo. A boa disposição de  Acaqui Acaquievich passara já. Penetrou na praça, não sem certo terror, como se  o seu coração pressentisse perigo. Olhou para trás de si e para o lado; em volta  via-se apenas o espaço deserto. "É melhor não olhar", pensou. Continuou a  avançar, de olhos fechados. Quando os abriu, para ver se estava já próximo do  outro extremo da praça, observou que tinha diante de si gente de bigode. Mas  nada mais pôde distinguir. Toldaram-se-lhe os olhos e recebeu uma pancada no  peito. "Este capote é meu!", disse um dos homens, agarrando-lhe pela gola.  Acaqui Acaquievich quis ainda gritar: "Ó da guarda!", mas o outro colocou-lhe a  mão na boca e disse: "Desgraçado de ti se gritas!" O nosso herói só se deu conta  de que lhe arrancavam o capote e de que lhe davam um violento pontapé. Caiu  então de costas na neve e nada mais sentiu. Voltou a si minutos depois, mas já  não viu ninguém. Sentindo a frialdade do chão e a falta do capote, começou a  gritar; parecia entretanto que a sua voz se perdia naquela praça enorme e não  atingia o outro lado. Desesperado, sem parar de gritar, pôs-se a correr em  direcção à guarita, atrás da qual estava um soldado apoiado à sua arma; parecia  perguntar-se, com curiosidade, quem diabo era aquele que vinha assim a correr e  a gritar com voz humana. Acaqui Acaquievich chegou, ofegante, junto dele e  começou, com voz aguda, a clamar que se tinha embriagado e que nada mais sabia  senão que dois homens o tinham roubado. O soldado replicou nada ter visto; tinha  observado apenas que dois homens o deixavam no meio da praça, mas supusera que  eram seus amigos; acrescentou que, em vez de queixar-se ali, em vão, devia ir no  dia seguinte à esquadra, onde por certo investigariam acerca de quem lhe roubara  o capote.&lt;br /&gt;Acaqui Acaquievich dirigiu-se para casa num estado lamentável: os  cabelos, que ainda lhe restavam, em pequenas quantidades, nas têmporas e na  nuca, totalmente desgrenhados; o peito, as costas e as calças cobertos de neve.  A velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou  rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir aquela,  segurando pudibundamente a camisa contra os seios; mal abriu, ao ver Acaqui  Acaquievich, esqueceu o seu pudor. Quando o hóspede contou o que lhe sucedera,  ela cruzou as mãos de espanto e disse ser preciso recorrer&lt;br /&gt;sem demora ao  capitão da polícia, "porque o tenente nada mais faz que ouvir, fazer muitas  promessas e dar tempo ao tempo"; melhor era ir directamente ao capitão, de quem  ela tinha boas informações, pois Ana, que fora sua cozinheira estava agora de  ama em casa dele. Acrescentou que o via muitas vezes, principalmente ao domingo,  na igreja, onde rezava com muita devoção e, ao mesmo tempo, olhava amigavelmente  para toda a gente, parecendo um homem bondoso. Depois de ouvir este  conselho,&lt;br /&gt;Acaqui Acaquievich, amargurado, retirou-se para a sua habitação.  Como ele passou a noite... compreendê-lo-á quem tenha capacidade de se imaginar  na situação de uma outra pessoa. Na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se ao  Comissariado, mas disseram-lhe que o capitão estava ainda a dormir; foi às dez e  disseram-lhe outra vez: "Está a dormir"; foi às onze e responderam-lhe: "Não  está"; à hora de comer... Mas os amanuenses não lhe consentiam de maneira  nenhuma vê-lo, e queriam saber exactamente do que se tratava e o que acontecera;  de maneira que Acaqui Acaquievich quis provar, uma vez na vida, que tinha  energia e disse, com ar decidido, que precisava de falar ao inspector, que não  consentia que lhe negassem a entrada, que vinha da repartição tal, do ministério  tal, para tratar de um assunto de serviço, que se veria obrigado a apresentar  reclamações contra eles e saberiam então como elas doíam.&lt;br /&gt;Contra isto não se  atreveram os amanuenses a dizer nada e foram anunciá-lo ao inspector. Este tomou  distraídamente nota do roubo do capote. Em vez de atender ao ponto principal da  questão, começou a perguntar a Acaqui Acaquievich: "Porque voltava tão tarde a  casa? Tinha passado a noite nalguma casa de perdição?" - de tal maneira que, ao  sair, Acaqui Acaquievich não sabia já bem se lhe tinha ou não exposto o assunto  do capote.&lt;br /&gt;Faltou nesse dia ao serviço, pela primeira vez na sua vida. No dia  seguinte apresentou-se pálido e com o antigo capote, que parecia agora muito  mais esfarrapado.&lt;br /&gt;A noticia do roubo - apesar de alguns funcionários  aproveitarem a ocasião para novas zombarias - comoveu, no entanto, muitos.  Resolveram fazer uma subscrição, mas o resultado foi insignificante: os  empregados da repartição tinham subscrito já para o retrato do director e tinham  comprado, por indicação do chefe, amigo do autor, um livro que acabara de  publicar-se. Um, mais disposto a compadecer-se, decidiu, pelo menos, ajudar  Acaqui Acaquievich com um bom conselho e disse-lhe que não devia ir à Inspecção,  pois podia suceder que, mesmo que o inspector encontrasse o capote,  este&lt;br /&gt;continuasse nas mãos da polícia, se não fosse capaz de demonstrar  legalmente que lhe pertencia; melhor seria dirigir-se a uma "alta  personalidade", com a mediação da qual pudesse dar-se mais rapidez ao andamento  do caso.&lt;br /&gt;Não pareceu mal a Acaqui Acaquievich tal conselho, e por isso  decidiu dirigir-se a uma "alta personalidade". Convém saber que essa "alta  personalidade" ascendera há pouco tempo, tendo sido, até ai, completamente  ignorada. A sua posição, não sendo, aliás, das mais elevadas, comparada a  outras, não era destituída de relevo. Sempre se&lt;br /&gt;encontrará gente disposta a  apreciar estas personalidades que carecem de intrínseca importância e que, no  entanto, são elevadas em relação a muitos. A personalidade a que nos referimos  esforçara-se por se evidenciar de muitas maneiras, a saber: introduzira o  costume de que os funcionários inferiores o esperassem na escada quando entrava  de serviço e estabelecera que ninguém teria directo acesso à sua presença,  devendo observar-se estritamente a ordem seguinte: o amanuense devia entregar a  petição ao oficial; este, por sua vez, entregá-la-ia ao funcionário de  categoria&lt;br /&gt;imediatamente superior, até chegar, de grau em grau, ao seu  destino. Assim se encontra tudo infectado na santa Rússia pela imitação: julga  cada um desempenhar bem o seu importante papel imitando o que lhe está acima. &lt;br /&gt;Diz-se até que certo conselheiro titular, quando o fizeram director de uma  repartição modestíssima, fez separar, por um tabique, o seu gabinete daquilo a  que ele chamava "o pessoal de serviço", pondo à porta dois contínuos agaloados,  que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante  secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.&lt;br /&gt;O modo de  receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e  majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era  a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E  ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se  dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de  que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num  verdadeiro terror. A conversação da "alta personalidade" com os inferiores  recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste género: "Como  se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra  diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até  serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o  senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se  e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. Se tratava com iguais,  era um homem correcto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas,  apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não  sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação  era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que  poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes,  nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os  funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte?  Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como  consequência de&lt;br /&gt;tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável,  limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o  título de "o homem que se aborrece".&lt;br /&gt;Foi perante esta "alta personalidade"  que se apresentou Açaqui Acaquievich, precisamente no momento menos favorável,  muito adverso para ele, embora o mais oportuno possível para a "alta  personalidade", que nessa própria ocasião se encontrava no seu gabinete e  dialogava muito alegremente com um antigo conhecido, companheiro de infância, a  quem há já vários anos não via. Tal foi o momento em que lhe anunciaram um tal  Baquemaquine. Perguntou bruscamente: "Quem é?" Responderam-lhe que "um  funcionário". "Bom, que espere; não tenho agora tempo", replicou a "alta  personalidade". É preciso dizer-se que a "alta personalidade" mentia  descaradamente. Tinha tempo; já acabara a conversa entre os dois amigos e  estavam naquele ponto em que se recorre a frases desta espécie: "Assim era nesse  tempo, Ivan Abramovich." "E como dizes, Estêvão Valarmovich."&lt;br /&gt;Entretanto,  mandou que o funcionário esperasse, com o propósito de demonstrar ao amigo, há  muito retirado do serviço oficial numa casinha da aldeia, quanto tempo tinham de  esperar os funcionários na sua antecâmara.&lt;br /&gt;Finalmente, depois de terem  falado quanto quiseram (ou, melhor dizendo, depois de terem calado o suficiente)  e terem fumado um cigarro sentados nas comodíssimas poltronas, de repente, como  se por casualidade se recordasse, disse ao secretário, que estava de pé, junto à  porta, com uns papéis para informar: "Se ainda ai está esperando o funcionário,  diga que pode entrar."&lt;br /&gt;Vendo o humilde Acaqui Acaquievich, com o seu velho  uniforme, voltou a cara de repente e perguntou: "Que deseja?", com o tom de voz  brusco e forte que antes experimentara em casa para tais emergências. Acaqui  Acaquievich, que era um homem muito respeitador, atrapalhou-se um pouco e, com a  liberdade com que lhe era possível dispor da sua língua, explicou, juntando  agora com mais frequência partículas desnecessárias, que o capote era  completamente novo, que lho tinham roubado de um modo desumano, que se lhe  dirigia para que interviesse, escrevendo ao inspector, fazendo aparecer o  capote.&lt;br /&gt;Pareceu ao general que tais maneiras eram demasiado familiares, &lt;br /&gt;Que é isso, senhor? - perguntou bruscamente.&lt;br /&gt;Não conhece o regulamento?  Donde vem? Não sabe como se procede em tais casos?&lt;br /&gt;A primeira coisa que  devia fazer era dirigir um requerimento à secretaria; esse requerimento seria  então remetido, pelas vias competentes, ao chefe de repartição; este, por seu  turno, remetê-lo-ia ao secretário, e o secretário tê-lo-ia remetido a  mim...&lt;br /&gt;- Mas, Excelência... - disse Acaqui Acaquievich, esforçando-se por  reunir a pouca força que encerrava a sua alma e sentindo que transpirava de modo  atroz. - Eu, Excelência, atrevi-me a apresentar-me directamente, porque os tais  secretários... é gente em que se não pode confiar...&lt;br /&gt;- Quê? ... O quê?... O  quê?... - clamou a "alta personalidade"...&lt;br /&gt; - Onde foi o senhor buscar essa  ideia? Donde lhe surgiram tais pensamentos? Que audácia se está generalizando  entre os jovens contra os superiores e a hierarquia?&lt;br /&gt;A "alta personalidade"  demonstrava assim que não reparara em Acaqui Acaquievich, o qual estava já nos  50; doutra maneira, chamar-lhe jovem seria bastante estranho.&lt;br /&gt;- Sabe com quem  está a falar? Sabe bem quem tem diante de si? Percebe isto? Percebe?, pergunto  eu.&lt;br /&gt;E deu uma forte patada no chão, imprimindo à voz tanta energia que mesmo  um outro que não fosse Acaqui Acaquievich teria ficado bastante assustado. Este,  porém, deveras aterrado, sentiu um abalo interior e começou a tremer  convulsivamente; mal se podia aguentar de pé, e, se um empregado não acorresse a  ampará-lo, teria caído ao chão; retiraram-no hirto do gabinete. Mas a "alta  personalidade" estava contente com o efeito, que fora muito além de todos os  seus cálculos. Embriagado com a ideia de que a sua voz forte era capaz de  perturbar um homem até àquele ponto, olhou de lado para observar a impressão que  fizera a cena, notando, não sem profundo prazer, que o amigo se encontrava na  mesma situação indefinível e que até começava a sentir angústia.&lt;br /&gt;Do modo como  saíra do gabinete da "alta personalidade" e como chegara à rua nunca Acaqui  Acaquievich foi capaz de se recordar. Não podia fixar-se no que acontecera:  jamais, em toda a sua vida, um general, e demais o vento e a neve fustigavam-no;  seguia pelo meio da rua, com a boca aberta, perplexo; o vento soprava, soprava,  como é habitual em Sampetersburgo soprar o vento nas quatro direcções, de todas  as encruzilhadas. Em certo momento a garganta resfriou-se-lhe, começou a sentir  os sintomas de uma angina e, quando chegou a casa, não tinha sequer forças para  proferir uma palavra. Deitou-se na cama com o pescoço exageradamente inchado. No  dia seguinte sobreveio uma febre altíssima. Graças à magnânima ajuda do clima  sampetersburguês, a enfermidade progrediu mais rápidamente do que poderia  esperar-se, e quando chegou o doutor tomou-lhe o pulso e entendeu que devia  limitar-se a receitar qualquer coisa para o enfermo não morrer sem o benéfico  auxílio da medicina; quanto ao mais, declarou que não viveria além de dia e  meio; dirigiu-se à patroa, dizendo: "E a senhora não perca tempo: mande vir um  caixão de pinho, pois um de mogno é muito mais caro."&lt;br /&gt;Não sabemos se Acaqui  Acaquievich ouviu essas palavras proferidas acerca&lt;br /&gt;da sua sorte; e, no caso  de as ter ouvido, não sabemos se foram susceptíveis de o emocionar, porquanto  permaneceu constantemente no delírio da febre. Visionava sucessivos conjuntos de  memórias e de fantasias: ia visitar Petrovich e encarregava-o de lhe fazer um  capote, mas com uma defesa contra os ladrões, que lhe surgiam sem cessar por  baixo da cama, e pedia à patroa que lhe trouxesse um deles preso e coberto com a  manta; logo perguntava porque lhe traziam um capote velho, quando possuía  um&lt;br /&gt;novo; depois julgava encontrar-se diante do general, ouvindo os seus  insultos, e dizia: "Perdoe Vossa Excelência"; por último praguejava nos termos  mais grosseiros, de tal modo que a velha hospedeira se benzia e persignava, pois  nunca tinha ouvido sair da boca dele tais palavrões, tanto mais quanto essas  palavras eram contraditórias com as que anteriormente proferira, e  principalmente com a expressão "Vossa Excelência". Começou depois a falar sem o  mínimo sentido, de tal modo que era impossível perceber fosse o que fosse; só  podia inferir-se que as expressões incoerentes dos seus pensamentos convergiam  para um único e idêntico objectivo: o capote. Finalmente, o pobre Acaqui  Acaquievich morreu. Não foi selada a habitação, nem coisa alguma arrolada; em  primeiro lugar, porque não existiam sucessores, e, em segundo lugar, porque a  sua herança era, realmente, muito pequena, a saber: um embrulhinho com penas de  ganso, um livro de papel branco do usado nos ofícios, três pares de coturnos,  dois ou três botões caídos das calças e o capote já nosso conhecido. Só Deus  sabe para quem tudo isso ficou; supomos, aliás, que não interessa aos leitores  este pormenor da nossa narrativa. Levaram Acaqui Acaquievich a enterrar. E  Sampetersburgo ficou sem Acaqui Acaquievich, como se nunca ali tivesse  existido.&lt;br /&gt;Desapareceu e ocultou-se um ser a quem ninguém protegera, a quem  ninguém dedicara afeição e que nem sequer atraíra o interesse de qualquer  naturalista, um desses indivíduos que não desdenham pôr num alfinete a mosca  vulgar e observá-la ao microscópio; um homem que atraíra a zombaria dos seus  companheiros de repartição e que desceu à sepultura sem ter realizado qualquer  acto excepcional; antes pelo contrário, a quem nada importava, ainda que no fim  da sua vida brilhasse para ele a luz sob a forma de um capote, reanimando um  momento fugaz a sua pobre vida, e sobre quem caiu depois a desgraça em grau  superior às suas forças, como cai também, por vezes, sobre os mais poderosos da  Terra... Poucos dias depois da sua morte compareceu na sua residência um  contínuo, enviado pela repartição, com ordem para se apresentar imediatamente;  exigia-o o chefe; mas o homem teve de voltar sozinho, levando a informação de  que o funcionário não podia apresentar-se. Tendo-lhe sido perguntado: "Porque  não pode?", respondeu estas palavras: "Não pode: morreu; há quatro dias que o  enterraram." Desta maneira se conheceu na repartição a morte de Acaqui  Açaquievich, e no dia seguinte já estava sentado no seu lugar um novo  funcionário, muito mais alto, que não desenhava as letras em linhas tão rectas,  mas, pelo contrário, em linhas muito mais inclinadas e contrafeitas,&lt;br /&gt;Mas quem  poderia imaginar que ainda não dissemos tudo acerca de Acaqui Acaquievich,  condenado a tornar-se famoso alguns tempos depois da morte, como recompensa de  uma vida que passou ignorada? Sucedeu efectivamente isso, e a nossa pobre  história tem uma abrupta conclusão. Começou a difundir-se por Sampetersburgo o  rumor de que na ponte de Kaliuquine, nas ruas vizinhas e nos bairros a que ela  conduzia aparecia de noite um fantasma, com aspecto de funcionário público, que  procurava um capote roubado e tirava capotes de todos os ombros, sem diferençar  classes ou profissões: os de gola de pele de gato, de castor, de coelho, de  raposa ou de qualquer outra espécie de pele. Um dos funcionários da repartição  viu com os seus próprios olhos o fantasma e reconheceu imediatamente  o            defunto Acaqui Acaquievich; mas produziu-lhe este tal terror que se  pôs a            correr quanto podia, sem se atrever a voltar a olhar para o  fantasma, que o            ameaçava com o dedo espetado. De todos os lados  surgiam queixas de            indivíduos a quem tinham desaparecido os capotes,  e isso acontecia a            titulares e também às altas gentes do Paço; muitos  tinham-se até constipado em consequência do roubo. A polícia fez investigações  para se apoderar do defunto, vivo ou morto, e castiga-lo severamente, para  exemplo            de outros, mas a diligência não resultou. Assim, por exemplo,  um polícia de            vigilância a uma das pequenas ruas de Kiriuquine, tendo  agarrado o defunto            pela gola (no momento em que este ia a roubar o  capote de certo músico,            que então tocava flauta), chamou em seu  auxílio outros guardas de ronda,            enquanto tirava do bolso a caixa de  rapé para encher o nariz, que já lhe       gelara seis vezes; mas o rapé devia  ser de tal qualidade que nem sequer o            morto pôde suportá-lo. Mal o  polícia, fechando com o dedo a narina direita,            meteu o rapé na  esquerda, o defunto espirrou tão fortemente que lançou salpicos pelos olhos. E  enquanto o polícia esfregava os olhos com as mãos, o defunto desaparecia.  Chegaram a duvidar se, na verdade, o tinham tido na mão. Desde aí, os polícias  amedrontaram-se tanto com as almas do outro mundo que não se atreviam a  apanhá-las nem sequer vivas, e só de longe gritavam: "Olá, segue o teu caminho!"  E o funcionário defunto começou a aparecer também na ponte Kaliuquine,  suscitando terror às pessoas tímidas. Mas abandonámos por completo a "alta  personalidade", verdadeira&lt;br /&gt;responsável porque a nossa história tenha tido um  fim fantástico. Para honra da verdade, devemos dizer, antes de mais nada, que a  "alta personalidade", depois da morte do pobre Acaqui Acaquievich, sentiu alguma  compaixão. A piedade não lhe era completamente estranha; o seu coração sentia  impulsos de muito boas acções; simplesmente a sua categoria não lhe permitia  segui-los. Mal o amigo que o visitara saiu do seu gabinete, começou a pensar no  pobre Acaqui Acaquievich. E desde então, muitas vezes, quase diariamente,  evocava Acaqui Acaquievich, pálido, humilde, incapaz de reagir à sua repreensão.  Aquela recordação causava-lhe tão grande intranquilidade que, decorrida uma  semana, resolveu enviar um funcionário a casa de Acaqui Acaquievich para se  informar do que havia, como estava e se nalguma coisa podia ajudá-lo. Ao saber  que morrera de febre, de um dia para o outro, comoveu-se profundamente, escutou  as censuras da sua consciência e esteve um dia inteiro de mau humor. &lt;br /&gt;Desejando distrair-se e esquecer aquela desagradável impressão, foi, à  noite, a casa de um amigo, o que se reflectiu de um modo admirável no seu estado  de espírito. Esteve animada a conversa, que decorreu agradável e amistosa; numa  palavra, passou a noite muito satisfeito. Ao cear, bebeu duas taças de  champanhe, que, como se sabe, é um excelente meio de aumentar a alegria. O  champanhe, modificando-lhe o humor, decidiu-o a ir visitar certa senhora sua  conhecida, Catarina Ivanovna, uma alemã, segundo parece, com quem mantinha  afectuosas e excessivamente íntimas relações. Devemos acrescentar que a "alta  personalidade" não era já um homem novo e solteiro; era casado e todos o  consideravam um honrado pai de família. Tinha um filho funcionário na  Chancelaria e uma filha, bonita rapariga de 16 anos, com o nariz um pouco  adunco, que vinha todos os dias beijar-lhe a mão, dizendo: "Bonjour, papa!" A  esposa, que não se pode dizer que fosse velha ou feia, estendia-lhe a mão para  que ele lha beijasse; depois, voltando-se para o outro lado, beijava-lhe ela,  por seu turno, a mão. Mas a "alta personalidade", que se encontrava, aliás,  plenamente satisfeito com as ternuras domésticas, achou, no entanto, muito  importante, para se impor aos amigos, ter uma amante num bairro da cidade  afastado daquele onde vivia. A amante não era nem mais nova nem mais fresca do  que a esposa, mas estes enigmas existem no mundo, e não é nosso propósito  esmiuçá-los. Assim, pois, a "alta personalidade" saiu de casa do seu amigo e,  sentando-se na carruagem, disse ao cocheiro: "Para casa de Catarina Ivanovna";  e, embrulhando-se no seu quente capote, permaneceu nesse estado agradável, como  não é possível imaginar melhor para um russo, em que nada se pensa e em que,  entretanto, as ideias se agitam na cabeça, cada qual mais lisonjeira, sem haver  o penoso encargo de as seguir ou coordenar. Toda a sua alegria consistia em  recordar o sítio onde passara a noite e todos os ditos com que fizera rir às  gargalhadas o restrito e amável círculo dos seus amigos; repetia a meia voz  muitos desses ditos espirituosos e observava que conservavam toda a graça dos  antigos tempos, não podendo assim deixar de rir-se sozinho com  vontade.&lt;br /&gt;Incomodou-o subitamente a ventania que se levantara, Deus sabe donde  e porquê, fustigando-o fortemente no rosto, atirando-lhe flocos de neve aos  olhos, bufando-lhe na gola do capote como na vela de um navio, ou, pelo  contrário, colando-lha inesperadamente à cara com força sobrenatural, de tal  modo que se agitava constantemente de uma maneira e de outra, sem poder  libertar-se. De repente sentiu a "alta personalidade" que alguém o agarrava  muito fortemente pela gola do capote. Ao voltar-se, notou que era um indivíduo  de pequena estatura, com um fato velho e coçado, e reconheceu com terror Acaqui  Acaquievich.&lt;br /&gt;O rosto do funcionário estava pálido e o olhar era bem o de um  defunto. Mas o terror da "alta personalidade" não teve limites quando viu que a  boca do morto se abria e, exalando um odor de sepultura, lhe dirigia estas  palavras: "Sempre te apanhei! Agarrei-te finalmente pela gola! Preciso do teu  capote! Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me insultaste! Dá-me agora o  teu!" A pobre "alta personalidade" por pouco não morreu de susto.&lt;br /&gt;Era bem  conhecida a sua severidade para com os inferiores e, considerando o seu aspecto  enérgico, todos diziam: "Está ali uma personalidade!" No entanto, aqui, como  muitos outros que posam de heróis, sentia tal pavor que, não sem razão, começou  a recear cair doente. Ele próprio despiu o capote e disse para o cocheiro, com  voz alterada: "Segue para casa! Sem demora!" Mal o cocheiro ouviu aquele tom de  voz, que o amo só empregava nos momentos decisivos e que era acompanhado muitas  vezes de alguma coisa de mais efectivo, ocultando a cabeça entre os ombros,  brandiu o&lt;br /&gt;chicote e a carruagem despediu como um raio. Seis minutos depois  achava-se a "alta personalidade" à porta da cocheira. Pálido, amedrontado e sem  capote, em vez de visitar Catarina Ivanovna, entrou em casa, ocultou-se num  quarto interior e passou a noite muito inquieto. No dia seguinte de manhã, à  hora do pequeno-almoço, a filha, ao vê-lo, disse imediatamente: "Como estás  pálido, papá!"; mas o papa calou-se e a ninguém confessou palavra do sucedido,  nem acerca do lugar onde estivera, nem onde se dirigira depois. Aquele sucesso  impressionara-o fortemente. E muito poucas vezes mais lhe ouviram dizer: "Como  se atreve o senhor? Sabe quem tem diante de si?"; e, se tal acontecia, nunca era  sem se informar antes do que se tratava.&lt;br /&gt;E o mais notável foi, todavia, que a  partir daquele dia não voltou a aparecer o funcionário defunto: talvez porque o  capote do general lhe ficava perfeitamente. O certo é que nunca mais se ouviu  falar de um roubo de capote do mesmo género. Muitos, já se vê, não queriam ainda  tranquilizar-se e contavam que em certos sítios da cidade mais afastados  aparecia o funcionário defunto. Um polícia viu, com os seus próprios olhos, sair  o fantasma de uma casa; mas, achando-se um tanto debilitado e falto de forças,  não se atreveu a detê-lo e limitou-se a segui-lo de longe. O fantasma, em  determinado sítio, deu uma volta, olhou e polícia e perguntou-lhe: "Que  desejas?", mostrando um punho que não é possível observar nos seres vivos. O  polícia replicou: "Nada", e voltou para trás. O fantasma, que era, no entanto,  muito mais alto e tinha uns imensos bigodes, dirigiu-se com grandes passadas  para a ponte de Obujo, desaparecendo nas trevas da  noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                        ***********************&lt;br /&gt;Edição  especial para distribuição gratuita pela Internet, através da Virtualbooks. A  VirtualBooks gostaria também de receber suas críticas e sugestões. Sua opinião é  muito importante para o aprimoramento de nossas edições: Vbooks02@terra.com.br  Estamos à espera do seu e-mail. &lt;a href="http://www.terra.com.br/virtualbooks"&gt;www.terra.com.br/virtualbooks&lt;/a&gt;.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3909042165508243234-5513638324887199316?l=contoscitados.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contoscitados.blogspot.com/feeds/5513638324887199316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2009/12/ocapote-nicolai-gogol.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5513638324887199316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3909042165508243234/posts/default/5513638324887199316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contoscitados.blogspot.com/2009/12/ocapote-nicolai-gogol.html' title='Ocapote - Nicolai Gogol'/><author><name>?                      ?</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09677894121972171715</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3909042165508243234.post-948831343297918941</id><published>2009-11-30T07:13:00.000-08:00</published><updated>2009-11-30T07:19:37.687-08:00</updated><title type='text'>Willian Wilson - Edgar Allan Poe</title><content type='html'>&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="center"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; mso-ansi-language: EN-US" lang="EN-US"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; FONT-SIZE: 12pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-ansi-language: EN-US; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Willian Wilson  &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; FONT-SIZE: 12pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-ansi-language: EN-US; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Edgar Allan Poe&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; FONT-SIZE: 12pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-ansi-language: EN-US; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA" lang="EN-US"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial; FONT-SIZE: 12pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-ansi-language: EN-US; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA" lang="EN-US"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;IMAGINAI por um Momento que me chamo William Wilson. Meu nome verdadeiro não deve manchar a página virgem que tenho diante dos olhos. Demais, tem ele sido o horror e a abominação do mundo, a vergonha e o opróbrio de minha família. Não terão os ventos indignados levado a sua infâmia incomparável até às regiões mais longínquas do globo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Ainda que pudesse, não quereria encerrar nestas paginas todas as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível. Esse período recente da minha vida atingiu, de repente, tais dimensões de torpeza que seria tão horrendo como difícil descrevê-lo. 0 que quero é simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Os homens, em geral, corrompem-se gradualmente; mas, de mim, a virtude desligou-se num momento, de uma vez, como se fora um manto. De uma perversidade relativamente ordinária, passei, com um salto gigantesco, a enormidades mais que heliogabálicas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Permiti que vos conte do principio ao fim o caso, o acidente fatal, que motivou essa maldição. A morte aproxima-se e a sombra, que a precede, lançou, já, no meu coração, influência benéfica de arrependimento e de paz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Próximo a atravessar o sombrio vale, suspiro pela piedade (ia dizer pela simpática) dos meus semelhantes. Quereria convencê-los de que fui arrastado por circunstâncias superiores à resistência humana. Desejaria que descobrisse, na vasta seara de crime que vi desenrolar, algum pequeno oásis de fatalidade para mim. Que concordassem. (e talvez não possam deixar de concordar) que nunca, num mundo cheio de tentações, apareceu alguma coisa igual a esta e que jamais criatura humana sucumbiu vítima de torturas semelhantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Em verdade, tudo isto não será um sonho? Acaso não morrerei vitima do horror e do mistério da mais estranha visão de todas as visões sublunares?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-INDENT: 35.4pt; MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: Arial"&gt;Sou o descendente de uma raça conhecida, desde longo tempo, pela força da imaginação e pela extrema irritabilidade de temperamento, e confirmei desde pequeno o caráter tradicional de minha família, caráter que a idade desenvolveu e que veio, mais tarde, prejudicar-me de modo tão terrível como extraordinário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; L
